Na Hora H

LÁ FORA SÓ QUEREM SABER SE O BRASIL FARÁ O QUE ESPERAM DO PAÍS

ALYSSON PAOLINELLI

A Maizall, organização que reúne os maiores produtores de milho (Estados Unidos, Brasil e Argentina), está procurando conhecer e dialogar com os nossos clientes na área de milho. São muitos, e tendem a aumentar ainda mais. O cereal é indiscutivelmente o que vai ser mais comprado no mundo moderno para aonde caminhamos.

A produção de proteínas nobres que vem cada vez mais sendo requerida nesses países populosos e que estão em franco crescimento de suas rendas depende de uma ração que usa 30% de soja e 70% de milho. Como dizem os estudiosos em estatísticas de consumo, a cada aumento de 20% na renda familiar, dobra o consumo de proteínas nobres em sua alimentação.

Essa é a razão pela qual nem Índia, nem China, nem Bangladesh e muito menos a África subsaariana, com seus mais de 1 bilhão de habitantes, vão ser auto-suficientes. Vão depender de muitas e novas áreas que terão de produzir o que necessitam. Já viram que o Brasil, que detém uma área de cerrado de mais de 200 milhões de hectares e que até agora só usa cerca de 24 milhões de hectares desse bioma, tem muito a oferecer.

Quem possui uma espantosa área de um bioma embora degradado já demonstrou que, com as novas técnicas e manejos de uma racional agricultura tropical com menos de cinco anos de cultivo, especialmente na dobradinha milho/soja, e com plantio direto, inclusive sob palhas e a integração lavoura/pecuária, transforma-se na região mais produtiva e competitiva que o mundo conhece.

Temos no cerrado brasileiro áreas suficientes para as reservas naturais de seus diversos tipos de biomas e, diga-se de passagem, já fizemos reservas demais. Os 100 milhões a 120 milhões de hectares já identificados como pastagens degradadas ou em degradação podem, com um pequeno esforço em uma racional política pública, ser recuperados como já fizemos exemplarmente nos 24 milhões de hectares já usados.

Não podemos deixar de citar os outros biomas tropicais que possuímos, onde a ciência e a tecnologia, se bem trabalhadas, poderão criar os conhecimentos necessários ao manejo e ao uso desses biomas sem deteriorar os recursos naturais que Deus nos privilegiou em cada um deles. A saber: o solo, a água, as plantas, os animais e o clima. Se já fizemos isso no cerrado, por que não fazermos já em outras regiões?

Esse é o grande questionamento dos consumidores para nós. Querem saber se o Brasil é ou não capaz de repetir esse feito. Mais grave ainda: quanto tempo levaremos para atender a sua angustiosa demanda? Este é o Brasil visto lá de fora. Vamos ou não enfrentar esse desafio? Sempre quando chego de volta ao Brasil, a não ser pelas pouquíssimas boas notícias originárias do setor agrícola, repenso se seremos ou não capazes de suportar essas crises políticas, econômicas, sociais e, principalmente, de falta de liderança e instituições sérias e capazes de restabelecer um clima de confiança, para que possamos cumprir os nossos desígnios.

Ficamos em dúvida se isso poderá acontecer no tempo esperado pelos nossos consumidores internacionais. Enquanto essa dúvida nos assola aqui, lá fora, até mesmo por depender de nós, todos torcem para que as coisas aqui se acertem. Ainda bem que, pelo que tudo indica, ares novos começam a soprar sobre a nossa América do Sul. As tendências de mudanças estão sendo claramente captadas pelas pesquisas de opinião pública que indicam que os radicalismos, bolivarianos, comunismos e tantos outros "ismos" estão chegando ao fim.

Aqui no Brasil, o que mais estamos desejosos é que se faça, e urgentemente, uma reforma política que dê ao País as condições e especialmente a tranquilidade de seguir o seu rumo em direção ao que para nós está traçado. Se antes o agricultor brasileiro estava preocupado em apenas ter uma política pública, séria e objetiva e que lhe servisse como um real apoio, hoje já notamos que o agricultor brasileiro está mesmo preocupado com uma saída racional que nos permita encontrar esse nosso caminho.

Só há uma solução: o nosso agricultor, além de produzir e conquistar os mercados que nos esperam, precisa também politizar-se e mobilizar-se à procura de soluções que sejam sérias, e que possam nos dar a certeza de que um dia os nossos clientes consumidores não erraram. Além de produzir, vamos ajudar a fazer desta nação o que ela precisa ser.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura