Eduardo Almeida Reis

 

CAÇADAS

EDUARDO ALMEIDA REIS

Fazendeiro não é sinônimo de caçador e vice-versa. Há fazendeiros que gostam de caçar, como há cavalheiros e damas, essencialmente urbanos, que se amarram em uma caçada. O imbecil do dentista de Minneapolis, USA, pagou 50 mil dólares para flechar o leão Cecil, no Zimbábue, e caçou problemas para o resto dos seus dias.

No escritório em que escrevo vejo a foto de um idiota de 18 anos, empunhando mosquetão militar, ao lado de uma onça-parda defunta. Do alto de uma árvore, a suçuarana arreganhou os dentes para mim e levou um tiro na boca, projétil que percorreu, vimos depois, toda a sua medula espinhal.

Creio desnecessário dizer que alcancei o índio cadiuéu, os cachorros e a onça meia hora depois que ela subiu na árvore. Mais veloz que os doutores (sic), o cadiuéu acompanhou de perto a onça e a cachorrada e foi deixando pelo caminho várias peças de roupa, que nos indicavam sua passagem por ali. Se a onça corresse um pouco mais, o excelente silvícola chegaria nu ao local onde nos esperou, de cócoras, revólver na mão.

Rapazola, andei caçando por aí, atingindo a perfeição aos 15 anos em uma tarde em que dei um tiro no meu próprio pé. Por meio centímetro destruiria o osso do dedão. Fui tratado com a sulfa que o médico enfiava no buraco da bala empurrando com o cabo do bisturi, até que o pó branco saísse na outra ponta do buraco. Sem anestesia, com o médico explicando que a sulfa era um sucesso na Guerra da Coreia.

Nos anos todos em que visitei e trabalhei no Pantanal cacei adoidado: queixadas, porcos-monteiros, onças-pardas e pintadas. A caça mais perigosa era a dos cachaços-monteiros, muito velozes, com dentes enormes que rasgam as barrigas dos cavalos e as pernas dos caçadores.

Cinegética – a arte da caça, hoje especialmente com ajuda de cães – é tão antiga quanto a espécie humana, que caçava para se alimentar. Afazendado parei de caçar, salvo quando necessário. Se a cozinheira grita e o fazendeiro a encontra, na porta da cozinha, com uma cobra imensa no terreiro e o filhinho brincando perto da serpente, o jeito é abater a serpente a tiros, mesmo sabendo que não é venenosa.

A mãe de minhas filhas sempre atirou admiravelmente. Em um só ano matou 38 jararacas no pequeno terreiro da fazenda serrana. Nunca treinou ou competiu. Era um dom, aptidão inata para atirar com qualquer arma. Com um fuzil que nunca tinha visto, na fazenda de um amigo, cortou um cigarro a boa distância. Cigarro apagado encostado em um barranco. As testemunhas ficaram abismadas. De outra vez, pegou um revólver 357 Magnum novo, na caixa, e cortou a cabeça de uma cobra no alto de uma jabuticabeira.

O leão-símbolo do Zimbábue chamava- se Cecil em homenagem ao colonizador britânico Cecil John Rhodes (1853- 1902), figura fascinante de saúde precária que se recuperou de um primeiro ataque cardíaco aos 21 anos, fundou a De Beers Mining Company e deu seu nome à Rodésia, país que teve agricultura e pecuária de primeiro mundo e foi considerado “o celeiro da África” sob domínio dos ingleses.

A partir de 1980, tornou-se independente e passou a ter a desventura, muito comum naquele continente, de ser dirigido por alguém como o doutor Robert Gabriel Mugabe, no início como primeiro- ministro e, desde 1986, como presidente. Zimbabuano nascido em 1924, Robert Gabriel foi casado com Sally Hayfron (de 1961 a 1992) e tem como cônjuge, desde 1996, Grace Mugabe. É pai de Bona, Chatunga Bellamine, Robert Peter e Michael Nhamodzenyka Mugabe. Grace Mugabe é sul-africana bonita e tem 50 aninhos.

Presidente mais antigo do mundo ainda no poder, Robert G. Mugabe destruiu um país de trezentos e noventa mil quilômetros quadrados, assim como temos visto a destruição de um país de oito milhões e quinhentos mil. Para que o leitor de A Granja faça ideia, em 2009, a inflação zimbabuana chegou a 9.000.000% ao ano, cerca de 98% ao dia. O dólar zimbabuano foi retirado de circulação. Sob administração do marido de Grace, o Zimbábue recorre a várias moedas: o euro, a libra esterlina, o rand sul-africano, o US$ e o pula de Botswana.

Quanto vale um pula de Botswana? Sugiro ao leitor que procure na Internet e pule de alegria se o pula valer menos que o real. O Deserto de Kalahari ocupa 70% do território de Botswana. No Kalahari, quanto maior o traseiro mais cobiçada é a mulher, que tem “reserva de gordura” para aleitar alimentando os filhos nos inevitáveis períodos de escassez.