Trigo

 

Desafios do controle químico da BRUSONE

São poucos os produtos químicos registrados para o controle da doença e os que existem não são muito eficientes, sobretudo em casos de epidemias severas

Flávio Martins Santana, flavio.santana@embrapa.br, Gisele Abigail Montan Torres, gisele.torres@embrapa.br, e João Leodato Nunes Maciel, joao.nunes-maciel@embrapa.br

Abrusone do trigo, causada pelo fungo Pyricularia oryzae Sacc. (teleomorfo: Magnaporthe oryzae (T.T. Hebert) M.E. Barr), é uma das principais doenças da cultura, constituindose em fator limitante para a produção de trigo no Brasil, especialmente no norte e oeste do Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal. Os sintomas no campo podem ser confundidos com giberela, mas há algumas diferenças básicas, que se caracterizam pelo modo de infecção do fungo. Na brusone ocorre uma necrose quase pontual na ráquis, que é o local de infecção do fungo. Na giberela, o sítio de infecção do fungo é o grão. Em infecções severas, a giberela pode causar necrose da ráquis, mas de maneira generalizada, e não pontual como a brusone. Na brusone, a espiga torna-se descolorida, desde o ponto de infecção na ráquis até o ápice. No caso de giberela, pode haver descoloração de toda a espiga ou de algumas espiguetas, ao acaso, de forma descontínua.

Para o controle da doença, indica-se a adoção das seguintes medidas: a semeadura de cultivares com maior nível de resistência; a utilização de sementes sadias; a escolha da melhor época de semeadura, evitando a coincidência de condições favoráveis à doença por ocasião do espigamento da cultura; e o uso de fungicidas nas sementes e na parte aérea. Entretanto, é pequena a disponibilidade de produtos químicos registrados para o controle da brusone, com o agravante de serem pouco efetivos, principalmente em casos de epidemias severas da doença (Reunião, 2013). Estimase que a eficiência do controle químico seja de, no máximo, 50% (Maciel, 2011). Apesar da pouca disponibilidade de opções de controle da brusone de trigo, a demanda por soluções viáveis é intensa, pois limita o cultivo do trigo em regiões de grande potencial produtivo, como o Centro Oeste (Torres et al., 2009).

Atendendo às demandas dos produtores quanto ao controle químico, no final de 2010 foi estabelecido um grupo de trabalho com o objetivo de planejar e executar ensaios padronizados para avaliar a eficiência de fungicidas registrados, ou em fase de registro, no controle de doenças de espiga em trigo. A partir de então, foram constituídos ensaios cooperativos para a avaliação do controle químico de brusone e de giberela no Brasil. Dados obtidos nos dois primeiros anos dos ensaios para controle de brusone mostram que os danos em rendimento de grãos são variáveis, em função do quão favorável esteja o ambiente ao desenvolvimento da doença em cada ano/local. Igualmente variável tem sido o nível de controle obtido em cada ano/local/produto químico (Santana et al., 2013, 2014).

Os rendimentos de grãos, nos dois locais com maior ocorrência de brusone de trigo, com incidências de 95% e 100%, foram de 165 quilos/hectare e 487 kg/ha, respectivamente. Nesses casos, com nenhum dos tratamentos fungicidas considerados nos estudos foi possível, sequer, obter-se média de rendimento de grãos próxima da estimada para a cultura de trigo (Conab, 2013). Por outro lado, em local com maior rendimento, obtido em parcela sem tratamento fungicida (4.066 kg/ha), a redução de 40 pontos percentuais na incidência, em função do melhor tratamento fungicida, resultou em ganho de 17% no rendimento de grãos (Santana et al., 2013, 2014).

Parceria internacional — Ainda existe uma lacuna de conhecimento científico sobre o patossistema Magnaporthe oryzae x trigo no Brasil. A Embrapa Trigo iniciou em 2009 projetos de abrangência nacional com o intuito de investigar o controle genético da resistência. Atualmente, a equipe de pesquisadores dedicados ao estudo da brusone em trigo desenvolve ações, inclusive com parceiros de diversas instituições estrangeiras, para melhor entender e, consequentemente, enfrentar a doença pela identificação de estratégias mais eficientes para o controle da doença.

Em um estudo preliminar realizado no Laboratório de Fitopatologia da Embrapa Trigo demonstrou-se que em testes in vitro de germinação de esporos e crescimento micelial, dois isolados de P. oryzae (provenientes de diferentes regiões do Brasil) reagiram como sensíveis a propiconazol e azoxistrobina (veja tabela). Aparentemente existe uma diferença de sensibilidade entre os isolados. Novos testes estão em andamento para que tal hipótese seja verificada. Os resultados de Castroagudin et al. (2013) observaram que genes associados à resistência ao grupo químico das estrobilurinas estão amplamente difundidos na população do patógeno no Brasil.

Resultados como esses demonstram a necessidade de se investir em pesquisa e avaliar a importância do local, consequentemente do patotipo, em relação ao controle químico da doença, com o objetivo de obter melhores resultados no controle químico da brusone no Brasil. Talvez o grande mérito da obtenção de soluções viáveis para cultura do trigo frente à brusone seja o fato de o Brasil Central, região de maior ocorrência da doença, ser uma região de grande apelo para a cultura. Esta é uma região com potencial de altos rendimentos de grãos e é também livre de giberela do trigo.