Lagartas II

As mais Severas Pragas do Milho

As principais ameaças à lavoura de milho são as pragas da ordem Lepidoptera: lagarta-elasmo, lagarta-rosca, broca da cana de açúcar, lagarta do cartucho, lagarta da espiga e lagarta militar

Ivan Cruz, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Texto e fotos

Embora haja diferentes espécies de pragas associadas ao milho, aquelas pertencentes à ordem Lepidoptera, conhecidas como lagartas, estão entre as mais severas desta cultura. Presença constante nas lavouras, o local, o modo de ataque e o grande potencial reprodutivo são características que as tornam pragas-chave não só do milho, mas também de outras gramíneas.

Pragas do colmo: Lagarta elasmo, Elasmopalpus lignosellus (Zeller, 1848) (Lepidoptera, Pyralidae) — Apesar de ser uma praga importante no Brasil, especialmente em áreas de cerrado, a literatura registra poucos trabalhos sobre a biologia da lagarta elasmo. Em nível mundial, esta praga pode ser encontrada em pelo menos 60 hospedeiros, distribuídos em 14 famílias de plantas, sendo 15 hospedeiros somente no Brasil. A presença de pessoas na área faz com que ela migre rapidamente para locais mais distantes. Os adultos são ativos à noite e as condições ideais para o acasalamento e a oviposição ocorrem com baixa velocidade do vento, baixa umidade relativa do ar, temperatura ao redor de 27oC e completa escuridão. Inicialmente, alimenta-se das folhas, descendo, em seguida, para o solo, penetrando o colmo da planta logo abaixo do nível do solo, alimentando-se no seu interior.

A lagarta, geralmente, fica associada à planta hospedeira, onde perfura e constrói um casulo, na parte externa, com restos vegetais, terra e teia, dentro do qual se abriga. Findo o período de larva (média de 14 a 20 dias, dependendo das condições ambientais), a lagarta transforma-se em crisálida, no solo, e após aproximadamente oito dias, emerge o adulto. Os maiores prejuízos para a cultura do milho são causados nos primeiros 20 dias após a germinação, ocasionando o fenômeno do “coração morto”.

Portanto, para se identificar a presença da lagarta elasmo no campo, deve-se proceder ao monitoramento das plantas, considerando o período de suscetibilidade. Quando o ataque ocorre em plantas recém-emergidas, às vezes não se tem tempo de perceber o dano da praga, devido ao secamento de toda a planta e à sua remoção por ação do vento. No entanto, em plantas mais desenvolvidas, é comum ser verificado o sintoma de dano conhecido como “coração morto”, ou seja, folhas centrais mortas, facilmente destacáveis e folhas externas ainda verdes. Esta praga compromete o estande inicial da cultura e, consequentemente, o rendimento esperado.

Lagarta rosca, Agrotis ipsilon (Hufnagel, 1766) (Lepidoptera, Noctuidae) — As posturas dessa praga são feitas na parte aérea da planta. Após o primeiro instar, as lagartas dirigem-se para o solo, onde permanecem protegidas durante o dia, só saindo ao anoitecer para se alimentar. A lagarta alimenta-se da haste da planta, provocando o seccionamento dela, que pode ser total, quando as plantas estão com a altura de até 20cm, pois ainda são muito tenras e delgadas, ou parcial, após esse período, quando então já estão mais robustas.

As lagartas, quando completamente desenvolvidas, medem cerca de 40mm, são robustas, cilíndricas, lisas e apresentam coloração variável, predominando a cor cinza-escura. Quando tocadas, as lagartas se enrolam, tomando o aspecto de uma rosca, caracterizando assim, seu nome comum. Durante o verão, a duração do ciclo larval é em torno de 23 dias. O estágio de pupa, no solo, varia entre 11 e 15 dias. A mariposa, de cor marrom-escura, apresenta áreas claras no primeiro par de asas, e coloração clara com os bordos escuros no segundo par de asas. A mariposa mede cerca de 40mm de envergadura. Esta praga também compromete o estande da cultura.

Broca da cana de açúcar, Diatraea saccharalis (Fabricius, 1794) (Lepidoptera, Pyralidae) — O inseto conhecido vulgarmente como broca da cana de açúcar é hoje uma grande preocupação na cultura do milho. Quando atinge o completo desenvolvimento, a lagarta constrói uma câmara dentro do colmo da planta, alargando a própria galeria, onde corta uma seção circular, que fica presa com fios de seda e serragem, e em seguida se transforma em pupa, permanecendo nesse estádio por um período variável de nove a 14 dias, até emergir o adulto. As lagartas de D. saccharalis ocasionam no milho danos semelhantes aos que provocam na cana de açúcar, como o “coração morto”, a quebra de colmos, o decréscimo do desenvolvimento da planta, a redução do tamanho do colmo e do número e tamanho das espigas. A queda no rendimento de milho devido ao ataque da praga tem sido relacionada com a diminuição do número e do tamanho das espigas.

Os prejuízos diretos causados pela lagarta, através da penetração e da alimentação no interior do colmo, aparentemente não são importantes, quando o ataque ocorre em plantas mais desenvolvidas, pois a planta atacada produz normalmente, mesmo sob condições de forte infestação natural. No entanto, quando o ataque ocorre mais cedo, através das galerias, a broca torna a planta bastante suscetível à queda por ação do vento, prejudicando a colheita mecânica das espigas ou o corte mecânico da silagem. Prejuízos indiretos são elevados, pois,quando a planta cai, os grãos da espiga, em contato com o solo, sofrem ataques de microrganismos ou iniciam a germinação. Quando o ataque ocorre no início da implantação da cultura, os prejuízos são maiores ainda, devido ao perfilhamento ou ao tombamento das plantas, ou à morte das plântulas.

Pragas da parte aérea (fase vegetativa):
Lagarta do cartucho, Spodoptera frugiperda (Smith, 1797) (Lepidoptera, Noctuidae) — A lagarta do cartucho é a principal praga da cultura do milho, por sua ocorrência generalizada e por atacar todos os estágios de desenvolvimento da planta. A redução nos rendimentos de grãos devido ao ataque dessa praga varia de 17,7% a 55,6%, de acordo com o estágio de desenvolvimento e dos genótipos de milho. As larvas recémeclodidas iniciam sua alimentação pelas partes mais tenras das folhas, deixando um sintoma de dano característico, pois se alimentam apenas da parte verde, sem, no entanto, ocasionar furos nas folhas, ou seja, “raspam” a folha, deixando apenas a epiderme membranosa.

As plantas que estão sendo atacadas são, portanto, facilmente reconhecidas pelas inúmeras pontuações transparentes. Quando a lagarta passa para o segundo instar, ela começa a furar as folhas, indo em direção ao cartucho da planta, local onde permanece até próximo ao estágio de pupa. Durante o período larval, em torno de 18 a 20 dias, a lagarta consome grande quantidade de área foliar, geralmente alimentando-se das folhas mais tenras. A lagarta pode também penetrar no colmo, através do cartucho, fazendo galerias descendentes, até danificar o ponto de crescimento, ocasionando o sintoma denominado “coração morto”.

Outro dano provocado pela lagarta do cartucho é através do seccionamento na base do colmo, que pode ser parcial ou total, nesse último caso, finalizando com a morte da planta. O ponto de inserção da espiga pode também ser atacado, ocasionando a perda total da produção da planta atacada, devido à não-formação de grãos ou pela queda da espiga com grãos ainda em formação. O dano direto, devido à praga comer o grão em formação, ou indireto, pela facilidade de penetração de microrganismos, tais como fungos e bactérias na espiga, são muito comuns. Nesse caso, a qualidade do grão, e consequentemente da própria silagem, é reduzida.

A lagarta quando completamente desenvolvida sai da planta e dirige-se ao solo, penetrando alguns centímetros, onde constrói uma célula, transformando- se em pré-pupa, com duração de cerca de um dia, findo o qual se transforma em pupa, cujo período dura cerca de onze dias. O ciclo completo desta praga dura cerca de 30 dias. Os machos apresentam manchas mais claras nas asas anteriores, enquanto as fêmeas são totalmente cinzas.

Lagarta militar ou curuquerê-doscapinzais, Mocis latipes (Guennée, 1852) (Lepidoptera, Noctuidae) — Esse inseto, de ocorrência esporádica na cultura do milho, quando ocorre, ocasiona danos severos. Sua presença nesta cultura se deve, provavelmente, a um desequilíbrio biológico, pois sua população inicialmente é muito alta e com grande poder destrutivo em um curto período de tempo. Os maiores prejuízos causados por esse inseto ocorrem em pastagens ou outras gramíneas nativas. No entanto, a praga tem sido observada, nos últimos anos, com frequência mais elevada no milho, pela migração de lagartas oriundas de hospedeiros próximos a esta cultura. Geralmente, são populações de lagartas mais desenvolvidas e, portanto, com grande capacidade de destruição.

A mariposa, conhecida na fase de larva como curuquerê dos capinzais ou lagarta militar, é de coloração pardo-acinzentada e mede cerca de 40mm de envergadura. O inseto pode ser facilmente identificado na cultura do milho pela presença de lagartas de coloração verde-escura, com estrias longitudinais castanhoescuras, limitadas por estrias amarelas. As lagartas fazem movimentos do tipo “mede-palmo”. Como não ocorre o canibalismo, comum na lagarta do cartucho, várias lagartas de mesma idade podem ser encontradas em uma só planta. É interessante observar que esse inseto não se alimenta dentro do cartucho da planta, como o faz a S. frugiperda.

Pragas da parte aérea (espiga): Lagarta da espiga, Helicoverpa zea (Boddie, 1850) (Lepidoptera, Noctuidae) — A lagarta da espiga, H. zea, é considerada uma das mais importantes pragas do milho nos Estados Unidos, causando danos mais significativos do que qualquer outro inseto, especialmente quando o ataque ocorre em milho doce destinado à indústria. No Brasil, a importância da praga para a cultura de milho pode ser verificada com incidência média relatada de até 96,8% de infestação. Além do dano direto da praga, consumindo os grãos em formação, o dano indireto também é significativo e inclui a ausência da segunda espiga, deficiência na fertilização de grande parte dos óvulos das espigas tardias, bem como a falha de grãos na extremidade livre das espigas.

O ataque da lagarta da espiga também favorece a infestação de outras pragas, principalmente as espécies Sitophilus zeamais (Motschulsky) e Sitotroga cerealella (Olivier). No Brasil, também tem sido verificado um aumento na incidência desta praga, especialmente em função do desequilíbrio biológico, através de aplicações de inseticidas de amplo espectro de ação, que eliminam os seus inimigos naturais, como as vespas do gênero Trichogramma.

Métodos de prevenção — Existem diferentes estratégias de manejos dos insetos fitófagos em milho, pois cada espécie demanda técnica específica. No entanto, para todas elas, é fundamental o monitoramento da lavoura na época provável da ocorrência de cada uma para que a tomada de decisão sobre a necessidade de controle seja em tempo hábil e seja a mais correta possível. Métodos químicos (produtos seletivos, de baixa toxicidade e de baixo impacto ambiental) ou biológicos, através do uso de outros insetos, como predadores e parasitoides e/ou uso de agentes microbianos causadores de doenças, e atualmente plantas geneticamente modificadas (milho Bt), podem ser utilizados no manejo destas pragas, desde que aplicados rigorosamente dentro das técnicas recomendadas pela pesquisa.