Pulverização

GOTAS de ouro

Por terra ou pelo ar, não importa. Existe uma forma de pulverização agrícola mais indicada para a sua propriedade. As vantagens de um controle eficiente são muitas: da sanidade da lavoura ao lucro no bolso

José Renato de Almeida Prado

O emprego de produtos fitossanitários nas lavouras para impedir prejuízos causados por insetos, fungos e ervas competidoras é uma prática tão antiga que se confunde com a própria história da agricultura. Estima-se que, desde os tempos bíblicos, os lavradores utilizavam o enxofre, buscado em vulcões, para controle de doenças. A prática não aumenta a produção, mas evita perdas. A operação, contudo, exige técnica. A aplicação incorreta de produtos químicos é sinônimo de prejuízo, gera desperdícios, pode causar resistência e aumenta sobremaneira os riscos de contaminação das pessoas e do ambiente.

Atualmente, a grande maioria das aplicações de defensivos é realizada na forma de pulverização, por ser esta a maneira mais prática e econômica de se distribuir o produto químico sobre os alvos situados na planta. Forma prática, mas não tão simples como podem pensar alguns. Dados divulgados pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) revelam que, em média, até 70% dos produtos pulverizados nas lavouras podem ser perdidos por má aplicação, escorrimento e deriva descontrolada. Para melhorar esse desempenho, são essenciais a utilização correta e segura das caldas e a capacitação da mão-de-obra para o uso seguro dos equipamentos de aplicação.

De acordo com Thaís Maria Diehl Santiago, agrônoma e engenheira de segurança do trabalho da Andef, a pulverização é um processo físicomecânico de transformação de uma substância líquida em partículas ou gotas. Já a aplicação é a deposição de gotas sobre o alvo desejado, com tamanho e densidade adequados ao objetivo proposto. Segundo ela, quando se pensa em pulverização, deve-se ter em mente fatores como o alvo a ser atingido, as características do produto utilizado, a máquina, o momento da aplicação e as condições ambientais. A interação desses fatores é a responsável direta pela eficácia ou ineficácia do controle. Qualquer uma dessas observações que for desconsiderada, ou equacionada de forma errônea, poderá ser a responsável pelo insucesso da operação.

A tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários, segundo o precursor de estudos sobre o tema no País, o agrônomo Tomomassa Matuo, é o emprego de todos os conhecimentos científicos que proporcionem a correta colocação do produto biologicamente ativo no alvo, em quantidade necessária, de forma econômica, com o mínimo de contaminação de outras áreas.

Considerado uma referência mundial quando o assunto é pulverização, Matuo fez parte de um comitê da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 1997, convocado especificamente para elaborar normas para pulverizadores. A intenção, na época, era estabelecer requisitos mínimos para os equipamentos, de forma a uniformizá- los e elevar o padrão de qualidade, que seria atestado por um selo concedido pela própria FAO, por meio de centros credenciados espalhados por todo o mundo. “A idéia era equiparar, em padrão, os pulverizadores fabricados nos países em desenvolvimento com os dos países de Primeiro Mundo”, conta o pesquisador. O selo de aprovação acabou não sendo adotado, mas muitas das normas preconizadas pelo comitê foram implantadas por alguns fabricantes de importância mundial.

Tecnologia de ponta - Hoje, conforme Tomomassa Matuo, o Brasil não fica a dever a nenhum outro país quando o assunto é qualidade de equipamentos para pulverização. Para ele, atualmente o maior problema, quando se fala em pulverização, não são os equipamentos, mas o uso inadequado que, por vezes, se faz deles e a falta de critérios nas aplicações. Um olhar mais atento vai observar que há duas realidades bem distintas na agricultura brasileira, segundo o professor Matuo: a das grandes culturas de exportação, que utilizam tecnologias de pulverização bastante avançadas; e parte da fruticultura e olericultura, que ainda se encontra num estágio pouco desenvolvido, em que há muito desperdício de produtos. “São segmentos onde há uso excessivo de produtos fitossanitários, perda considerável de calda, chegando a 50%, grande contaminação do ambiente, do operador e presença de resíduos nos produtos colhidos”, comenta. “Aplicam, por exemplo, de 20 a 30 litros por árvore de laranjeira, quando dá para fazer o mesmo trabalho com 10% dessa quantidade e obter o mesmo resultado”, prossegue. “Nesses dois setores, estamos longe de dar um passo em direção à racionalidade.”

Prática exige cuidados - A aplicação de defensivos por meio da pulverização exige a observância de uma série de detalhes e requer planejamento por um profissional habilitado para esse fim, principalmente pela utilização de produtos agrotóxicos. Antes de tudo, deve-se verificar se há necessidade de sua utilização, analisando-se outras possibilidades. Caso seja imprescindível a aplicação, os cuidados fundamentais são: escolha da época e momento de uso para realizar um controle eficaz; escolha correta do produto fitossanitário, preferindo os menos tóxicos; colocar o produto no alvo para alcançar os objetivos esperados, dando segurança aos aplicadores e obedecendo aos períodos de carência para fornecer um alimento seguro aos consumidores e protegendo o meio ambiente, com a utilização em conformidade com as recomendações técnicas.

A primeira coisa a ser levada em conta é a condição climática e a velocidade do vento. Segundo o agrônomo Marcelo da Costa Ferreira, do Departamento de Fitossanidade da Unesp/Jaboticabal/SP, ventos ou brisas leves (3,2 a 6,5 km/h) favorecem a aplicação, propiciando a melhor deposição das gotas. Ventos acima de 10 km/h prejudicam a pulverização, porque acabam arrastando as gotas para locais fora do alvo, gerando deriva e contaminações. Com ventos inferiores a 2 km/h, as gotas menores podem não ser depositadas, principalmente em dias quentes e de poucas nuvens e com baixa umidade relativa do ar, quando ocorre elevada taxa de evaporação e as gotas perdem-se com as correntes de ar ascendente, podendo ocasionar contaminação por chuva tóxica em lugares imprevisíveis.

O pesquisador científico Hamilton Humberto Ramos, do Centro de Engenharia e Automação, do Instituto Agronômico de Campinas/SP (IAC), costuma comparar o defensivo na agricultura a um bisturi na medicina. “Desde que bem utilizado por pessoas treinadas para isso, representa uma ferramenta muito importante na manutenção da vida, entretanto, quando usado de forma inadequada, se torna arma e pode torturar ou matar”, atesta. A aplicação eficaz de produtos fitossanitários começa, segundo ele, na seleção de um equipamento de qualidade e adequado às condições da cultura (tamanho da área, espaçamento de plantio, topografia, distância do ponto de reabastecimento), que proporcione o máximo rendimento ao menor custo.

Uma observação extremamente importante no momento da aquisição é verificar se o tamanho da barra e o espaçamento entre bicos estão adequados ao espaçamento da cultura, evitando assim a necessidade de modificação em um pulverizador novo. Ramos toma como exemplo um pulverizador com barra de 12 metros e 24 bicos espaçados de 0,5 m, sendo utilizado no tratamento fitossanitário de 500 ha de milho plantados com espaçamento de 0,90 m e realizando três pulverizações por ciclo da cultura.

“Nessas condições, a faixa efetivamente tratada seria 12 m (24 bicos x 0,5 m), enquanto a considerada seria 11,7 m (13 linhas x 0,90 m). Assim, a cada passada do pulverizador, uma faixa de 0,30 m seria tratada sem necessidade.” Em conformidade às dimensões da área a ser tratada, condições de topografia, mão-de-obra e, naturalmente, o poder aquisitivo do agricultor, o mercado oferece diversos modelos. Há pulverizadores costais manuais, costais motorizados, tratorizados com mangueira e pistola de pulverização, pulverizados tratorizado de barras, turbopulverizadores e a pulverização com aviões.

O importante, seja qual for o equipamento escolhido, é estar atento à regulagem e à calibração, para que a pulverização seja realizada a contento. A regulagem nada mais é do que ajustar os componentes da máquina às características da cultura e produtos a serem utilizados, tais como o ajuste da velocidade, tipos de ponta, espaçamento entre bicos, altura da barra, entre outros. Já a calibração consiste na verificação das pontas, com a determinação do volume de aplicação e a quantidade de produto a ser colocada no tanque.

O primeiro passo na regulagem de qualquer pulverizador, segundo Thaís Santiago, da Andef, é saber se o sistema de agitadores funciona adequadamente. No caso dos pulverizadores tratorizados, a tomada de potência (TDP) é que aciona a bomba e o sistema de agitação mecânico. Deve-se trabalhar com uma rotação de 540 rpm na tomada de potência (TDP), por ser esta a rotação para o qual o sistema normalmente é dimensionado. Já para os pulverizadores autopropelidos, ela é variável de 1.600 a 2.200 rpm, conforme o fabricante. “É muito comum que os aplicadores ignorem a regulagem e façam apenas a calibração”, declara. “A observância de coisas simples, como acertar o espaçamento da cultura com o dos bicos, trocar a mangueira que está furada, leva a economia de até 70% da calda”, diz ela.

Tamanho das gotas - Definidas a marcha e a rotação de trabalho, devese avaliar a adequação das pontas de pulverização, o que será feito em função do alvo químico selecionado, da cobertura desejada e da formulação do agrotóxico a ser utilizado. De acordo com o pesquisador Hamilton Ramos, há vários modelos de pontas disponíveis, cada uma produzindo um espectro de tamanho de gotas diferente, larguras e padrões diferentes de deposição. As pontas defletoras ou de impacto, utilizadas a baixa pressão, são indicadas para a aplicação de herbicidas ao solo por proporcionarem gotas grandes e podem ser posicionadas mais próximas ao alvo, reduzindo a deriva.

Já as pontas de jato plano (tipo leque) são utilizadas para aplicar agrotóxicos em superfícies relativamente planas. As pontas de ângulo maior, conforme Ramos, oferecem um leque maior, mas produzem gotas menores. Há, ainda, pontas de jato cônico, que são utilizadas na pulverização de alvos irregulares, como as folhas de uma cultura.

O pesquisador recomenda que gotas grossas a muito grossas devem ser selecionadas quando o alvo for de fácil visualização, como o solo ou na dessecação de uma pastagem com herbicida sistêmico; gotas finas a médias devem ser utilizadas em pulverizações onde a penetração na planta ou tante, como na aplicação de fungicidas de ação preventiva com baixa redistribuição; e gotas médias a grossas devem ser utilizadas em situações intermediárias, como no controle de insetos, por exemplo, onde a cobertura pode ser inferior à necessária, para o controle de um fungo, uma vez que o inseto anda e, portanto, tem maior probabilidade de entrar em contato com o produto.

Testes - Uma vez selecionado o bico de pulverização, com tamanho de gota e vazão definidos, deve ser feito o primeiro teste. Marcelo de Costa Ferreira, da Unesp, exemplifica tomando por base uma cultura como a soja, na qual comumente se trabalha com barras de pulverização com 20 a 25 metros de comprimento. Ele afirma que é preciso checar como ficou a distribuição das gotas na cultura, o que pode ser feito com papéis sensíveis à água (hidrossensíveis), que, originalmente amarelos, se tornam azuis ao contato das gotas de água, permitindo a visualização da cobertura. “Nesse ponto, vamos avaliar se a cultura ficou coberta a contento, e está pronta nossa calibração, independentemente da velocidade com que passamos, do volume que aplicamos e do estágio de desenvolvimento da cultura.”

Durante a aplicação, deve-se manter o equipamento nas condições em que foi feita a calibração. Em alguns equipamentos modernos, há controladores eletrônicos que emitem algum tipo de sinal (sonoro ou visual), que vai demonstrar alguma alteração durante o ato da pulverização, que pode ser um entupimento de bico, alguma falha na barra. Nos equipamentos mais simples, a verificação é visual, tem de checar mesmo. “Nos intervalos da pulverização, na parada do operador, é interessante ele dar uma checada no equipamento, nos filtros, para ver se não tem nenhuma sujeira, se não está entupido ou estragado, uma olhada no aspecto geral, se não tem nenhuma mangueira amassada, ver se a velocidade do trator está normal, se não tem jatos pulsantes, o que pode ocorrer por causa de defeito em alguma das válvulas da bomba do pulverizador.”

Qualquer que seja o alvo selecionado, o sistema de pulverização deverá ser capaz de produzir a cobertura adequada do mesmo. A cobertura nada mais é do que o número de gotas por unidade de área, obtida na pulverização e representa, na realidade, o objetivo final da operação. Para Thaís, da Andef, a cobertura necessária para o controle de um inseto, por exemplo, deverá ser menor do que aquela necessária para o controle de um fungo, visto que o inseto, por se locomover, terá maior chance de entrar em contato com o produto fitossanitário. Marcelo Ferreira diz que, para avaliar se uma pulverização foi bem-feita ou não, primeiramente é preciso ver se o objetivo foi atingido (controlar pragas, doenças e plantas daninhas). “E se não poluímos o ambiente, colocando a maior quantidade possível de gotas em nosso alvo e ainda se protegemos de forma adequada o aplicador.”

Pulverização aérea - Houve um tempo, no início da aviação agrícola, que a pulverização chegava a ser desumana. Existia a necessidade de uma ou duas pessoas permanecerem sinalizando as linhas por onde o avião deveria passar, e elas acabavam invariavelmente tomando um banho de agrotóxicos. Atualmente, os aviões agrícolas contam com sistemas de posicionamento por satélite, que podem seguir um planejamento de vôo, composto por linhas projetadas que recobrem a área a ser pulverizada.

O início da aviação agrícola no Brasil se deu entre os anos de 1946 e 1948, quando uma incalculável nuvem de gafanhotos invadiu lavouras em Pelotas/ RS, segundo conta o agrônomo José Maria Fernandes dos Santos, pesquisador científico do Instituto Biológico. De lá para cá, as aeronaves e os equipamentos evoluíram bastante, proporcionando maior rapidez nas operações. Santos toma como exemplo um avião Ipanema, de porte médio, aplicando um volume de calda de 20 litros. “Dependendo da extensão dos ‘tiros’, comprimento e distância da pista à área de aplicação, poderá aplicar de 60 a 100 ha/hora”, calcula. “Já um pulverizador terrestre autopropelido, com barras de pulverização de 27 metros, velocidade operacional de 18 km/hora e volume de calda de 100 litros/ ha, em áreas não acidentadas, alcançará um rendimento aproximado de 30 ha/hora.” Conforme o pesquisador, a pulverização aérea teve um incremento depois do surgimento da ferrugem asiática na soja. Há três anos, o País tinha uma média de 700 aeronaves agrícolas, número que saltou para 1.100, considerando aviões e helicópteros.