Produção orgânica de leite: saiba quais são os riscos econômicos dessa atividade

A discussão sobre a produção de alimentos orgânicos traz em seu bojo desconhecimento, idealismo e romantismo. É preciso discutir o assunto profissionalmente, sem paixões, ideologias e teorias que beiram a insanidade. A produção de alimentos de forma convencional ou de maneira orgânica deverá ter como premissa a eficiência ao longo do processo. Não há espaço para a produção de alimentos de modo ineficiente em um planeta que precisa alimentar 220.000 pessoas a mais a cada final de dia (balanço populacional entre os que nascem e morrem no planeta Terra).
As Instruções Normativas número 46 de 6 de outubro de 2011 e a de número 17 de 18 de junho de 2014, ambas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, regulamentam a produção de alimentos em Sistemas Orgânicos de Produção, devendo ser lidas para quem desejar ingressar neste universo.
As técnicas para a produção orgânica não podem ser resumidas a simples substituição dos insumos não permitidos por aqueles que têm seu uso autorizado. Nem tampouco os interessados devem ser seduzidos, apenas, pelo maior valor de mercado obtido na venda do produto. Elas envolvem conceitos antigos que vêm se perdendo ao longo do tempo pelos produtores/agricultores “modernos”. As técnicas convencionais de produção atuais trazem facilidades operacionais indiscutíveis, porém, perde-se a capacidade de observação, a sensibilidade para uma análise mais profunda e sistêmica do que, de fato, ocorre em cada uma das áreas de produção. O aparecimento de determinadas plantas que não são as de interesse comercial, as chamadas daninhas, não leva a um questionamento do porquê desse surgimento indesejável, se seria um problema físico do solo (compactação), um desbalanço químico, com excesso e/ou falta de determinados nutrientes. O mais prático é o seu extermínio com a utilização de herbicidas. Pronto! Fim do problema. Será?
A simples produção de leite em um modelo extrativista não pode ser considerada como produção orgânica por ser ineficiente do ponto de vista econômico, tecnicamente indefensável, socialmente injusta e ambientalmente insustentável. No caso da atividade leiteira, chega-se ao absurdo de achar que soltar vacas em uma pastagem cheia de cupins, formigas, assa-peixes, leiteiros e sulcos de erosão, deixando-as, literalmente, “caçar” seu próprio alimento, possa ser caracterizado como uma produção orgânica de leite. Ter 200 hectares de terra e 200 vacas em lactação e delas extrair 1.000 litros diários, não há nada de orgânico nisso e sim uma ineficiência brutal e uma agressão ao ambiente que se esconde atrás do slogan de produção “natural” ou “orgânica”. Quem produz desse jeito é tudo, menos orgânico. É um sujeito desmazelado que encontrou uma forma de transformar seu desleixo em “negócio”, tendo como aliados leigos que cultuam esta forma de produzir como se natural fosse, repetindo este discurso como mantra.
Segundo o trabalho intitulado “Caracterização da produção orgânica de leite em algumas regiões do Brasil”, de Aroeira e colaboradores, publicado pela Revista Isto É em 2005, os pesquisadores da Embrapa levantaram dados em dez propriedades produtoras de leite orgânico. O rebanho médio era constituído por 76 vacas, sendo que destas, 41 estavam em lactação, ou seja, 54% de vacas em lactação, quando o índice a ser buscado é de 83%. O rebanho total era composto por 164 cabeças, o que significava que havia apenas 25% de vacas em lactação no rebanho, quando o índice deveria ser de, no mínimo, 50%. A produção média levantada foi de 9,2 kg de leite na época das chuvas, caindo para 8,2 kg de leite na época seca do ano. Com esses dados é possível calcular o quanto o produtor médio estaria deixando de ganhar, sem que fosse mudada a estrutura do rebanho e a média de produção, apenas alterando a proporção entre vacas em lactação e vacas secas. Veja a íntegra na seção "Leite", edição de setembro da AG.

Data: 06/09/2018
Fonte: Revista AG

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