Sobrevoando

Ultrablack

Toninho Carancho
carancho@revistaag.com.br

Aeroporto de Charlotte, na Carolina do Norte, junho de 1990.

Desembarco vindo do Texas. Vem me buscar Mr. Joe Reznicek, gerente geral da Cow Creek, fazenda dedicada à criação de Brangus de alta genética.

Trabalhei lá por mais de um mês. Bela experiência e aprendizado.

Três anos mais tarde, em 1993, Joe começa a cruzar algumas vacas Brangus com touros Angus, no intuito de fazer alguns touros com maior percentual de sangue Angus do que o habitual do Brangus, levado pela procura do mercado por animais Brangus mais britanizados.

Em 1998, a Cow Creek transforma em Trade Mark o nome Ultrablack®, ficando de posse desse nome.

Em 2005, o nome Ultrablack é negociado com a International Brangus Breeders Association (IBBA), em troca de isenção de valores de registros e também é criada a UltraredTM. Nos Estados Unidos, utilizam os prefixos UB e UR respectivamente.

A IBBA está chamando 2017 de "o ano do Ultrablack", Year of Ultrablack®, devido ao sucesso da raça e do seu desenvolvimento entre os criadores americanos.

E agora temos o Ultrablack no Brasil, trazido pela Associação Brasileira de Angus, ABA, vide reportagem na Revista AG do mês passado.

Na minha opinião, que não sei se vale alguma coisa, foi um golaço. Acho que tem tudo para dar certo e funcionar muito bem em algumas partes do Brasil e em algumas condições de clima e manejo específicos.

O Ultrablack pode ser feito de duas formas: uma, utilizando touros Angus em vacas Brangus; e outra, no jeito inverso, touros Brangus em vacas Angus. Sempre com animais registrados.

No Sul, existem muitos rebanhos de Angus que acho que vão entrar no Ultrablack por alguns motivos: choque de sangue (heterose), continuar com padrão Angus, menos pelo, e, por consequência, menos carrapato. Acredito em uma maior venda de touros Brangus e sêmen por esses motivos. Com a padronização Angus de muitos rebanhos, com o passar do tempo, o choque do Angus foi perdendo o vigor, ficando praticamente um animal puro, o que não é o ideal para um sistema comercial de criação de gado. Agora, o Ultrablack pode mudar esse cenário.

No restante do País, acho que a grande vantagem do Ultrablack será com o uso destes touros em lugares em que o Angus não vai bem por conta do calor e que talvez o Brangus seja um pouco zebuíno demais. Pode ser uma boa ideia usar os Ultrablacks nas ½ sangue Angus, que são milhões de vacas/novilhas.

O Brangus segue a grande raça (junto com outras) para a maioria dos locais sempre quentes do Brasil, mas vejo espaço para o Ultrablack.

Muitos criadores gostam de umbigos "limpos" e orelhas menores e, inclusive, na escolha de touros Brangus, tenho observado que, tanto para cobertura a campo no Sul do Brasil, quanto para venda de sêmen a ser utilizado em sua grande maioria no Sudeste, Centro-Oeste e Norte, os touros escolhidos têm um jeitão mais europeu, mais Angus, porque parecem ou tendem a funcionar melhor em vacas brancas ou meio-sangue Angus e também nas Brangus do Sul para ficarem mais "europeias".

No remate da GAP, no ano passado, o touro de preço recorde foi o Brangus de nome Whatsapp, valorizado em quase R$ 100.000,00. Eu vi esse touro. Fiquei um bom tempo olhando ele, lindíssimo, mas demorei para identificar se era Angus ou Brangus, eu sou meio lento mesmo. Pouca orelha, mais baixo que um Brangus tradicional, umbigo corretíssimo, cabeça bem pequena, muita carne e comprimento. Pelo jeito, é isso que o mercado deseja. Pelo menos, parte do mercado.

Finalizando, vi uma frase interessante sobre o assunto em uma propaganda de uma fazenda australiana: "Ultrablacks, Tropical Angus, not Brangus". Gostei!