Sobrevoando

 

Mensageiro

Eu estava pensando em outros temas para a coluna quando fui atingido, como todos nós, por uma verdadeira tsunami, a tal da Operação Carne Fraca. Muito ruim. Pensava em temas para ir para frente quando fomos puxados para trás, com muita força. Não consigo entender direito a nossa facilidade em estragar tudo que nós mesmos fazemos. Talvez Freud explique, eu não. Como, de um lado, conseguimos ser os maiores exportadores de carne de gado do mundo, termos um dos maiores rebanhos, uma cadeia produtiva que consiga abastecer o planeta com alimento de alta qualidade, em um esforço de milhões de pessoas, por muitos anos, e de, outro lado, fazer o que foi feito, de uma forma totalmente irresponsável, misturando assuntos, pessoas, empresas e tipos de carne, dando a entender à população em geral, tanto a PF quanto a mídia urbana (sem cuidado algum), que a carne brasileira tem problema? Por que fizeram isso? Será um prazer em destruir? Será que não têm noção das coisas? Vão jogando “notícias” sem compromisso? Uma coisa é o problema com alguns ladrões que estão roubando de nós por terem muito poder há muito tempo e se utilizando de cargos para se beneficiarem e aos seus partidos e cupinchas. São problemas pontuais aqui e ali referentes a carnes fora do prazo, carnes de frango e embutidos, diga-se de passagem. E, para isso, temos de punir exemplarmente a todos os culpados. Agora, outra coisa é darem a entender que as carnes estavam misturadas com papelão. É só escutar o áudio e ver que se tratavam de embalagens. Dizer que tinha carnes de cabeça de porco nas salsichas... é claro que pode ter. Será que esse pessoal é tão “urbano” assim... (eu disse urbano e não burro). E também dar a entender que se trata de um problema de grandes proporções, quando é um pequeno problema circunscrito a pouquíssimas pessoas e empresas. E essas informações, todas misturadas,

sem crivo algum, são “vazadas” para a grande imprensa que, também, sem qualquer zelo ou bom senso, as publica na íntegra e gera todos esses problemas, em nível mundial, que estão acontecendo agora. Não dá para entender. Tem gente achando que só pode ser coisa dos nossos concorrentes. Eu gostaria de achar isso, mas não. Somos nós mesmos nos puxando para baixo, nos detonando. Somos um bando, não uma equipe. Nunca achei que o culpado pudesse ser o mensageiro e sim a mensagem. Mas nesse caso o mensageiro pisou feio na bola. Não se deu ao trabalho de checar o material. Era da PF, tinha de ser bom. Até no nome eles erraram. No afã de fazer um nome legal e “inteligente” usaram o termo Carne Fraca que realmente é legal, uma boa sacada, porém, quando falamos simplesmente carne o que vem na nossa cabeça não é frango ou salsichas, é carne de gado mesmo. Mas para eles isso não fez diferença, não deram muita importância ou não imaginaram no que podia acontecer. Ferrou. Acredito na PF e na sua vontade de acertar e de fazer um serviço bem feito, mas pelo menos, desta vez, parece que erraram feio. E a nossa grande mídia, que de agro não tem nada, a não ser a vontade de faturar com as empresas do setor, foi na onda.

Mas temos uma salvação, nossos clientes externos não são tão “urbanos” quanto a PF e a nossa grande mídia. Vão perceber o que realmente aconteceu e dar o peso real nesse caso. Eles também precisarão fazer o jogo de cena, mostrar para as suas populações que estão preocupados e fazer as suas retaliações, restrições, etc. É, do jogo. Nós é que erramos feio na comunicação. E, graças ao bom Deus (que é brasileiro), nossos clientes internos, nossa população em geral, que consome uns 80% de todas as carnes produzidas, já está tirando de letra. Brincando com papelão e comendo carne. Aliás, se você tiver medo da “carne estragada” aí no seu freezer, manda para mim.