Na Varanda

 

Um novo patamar para eventos agropecuários

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira [email protected]

D esde o final dos anos 1990 estou participando, organizando e observando os principais eventos do setor. Recentemente arrumei meu escritório e assisti novamente dezenas de palestras que foram gravadas nos congressos internacionais da Feicorte, entre 2008 e 2012. É quase inacreditável o salto qualitativo dado pelos simpósios e workshops em apenas uma década. Assim, vale a pena analisar com mais profundidade o caminho dessa importante ferramenta da modernização da produção de carne.

A principal mudança de paradigma foi a evolução do formato didático dos eventos. Tradicionalmente foram chamados os detentores da ciência e os pesquisadores para explicarem ao público do campo as inovações nos diversos domínios da bovinocultura. Com o tempo, consultores, técnicos de empresas e, ultimamente, cada vez mais pecuaristas de referência passaram a ocupar os palcos do conhecimento.

Em termos do perfil temático dos programas, o ponto inicial foi o foco na melhoria da genética, envolvendo também os delicados assuntos das raças e do cruzamento industrial. Nos meados da última década, as matérias do confinamento e da suplementação ocuparam um espaço cada vez maior. Por incrível que pareça, somente na terceira onda surgiu o tópico pastagem. Na verdade, a lógica deveria ter sido o contrário, mas vá lá ensinar à história como ela se deve desdobrar. Em paralelo surgiu a necessidade de incluir nos programas de um ou dois dias a problemática da gestão do negócio rural. Antes de olharmos para o futuro, aqui faremos uma avaliação de performance da atividade. Em resumo, a organização de eventos de conhecimento e de encontros entre os representantes de empresas, pesquisadores, produtores e a mídia avançou de forma impressionante em todas as frentes. Desde o número de participantes até a abordagem e a integração de temas relevantes, além do aperfeiçoamento didático, os encontros regionais e nacionais mudaram da água para o vinho. É só olhar para os slides dos professores e o linguajar sofisticado, quase hermético, do passado e ver como os mesmos assuntos são apresentados quase em formato de entretenimento nos grandes eventos de hoje. Tudo é mais claro, imagens substituem números, a fala dos apresentadores está alinhada com o perfil cognitivo do produtor (e de seus filhos) e criou-se uma maior interação entre o palco e o público. E não são necessariamente pessoas novas. Muitos dos veteranos adaptaram e aperfeiçoaram suas apresentações. Hoje não existe mais o tradicional hiato entre o púlpito e a plateia. Vários palestrantes carregam seus microfones para dentro das fileiras do auditório. Toda essa transformação qualitativa e visual se deve ao fato do avanço da comunicação em geral. Aliás, foi essa uma preocupação que tivemos na organização dos eventos em torno de 2010. Pensava-se que congressos, simpósios e workshops teriam seus dias contados pela presença cada vez mais eficiente e dominante das diversas mídias do setor. Afinal, o Brasil conta com 3 canais exclusivos para a produção rural. Porém, ocorreu o contrário. O número de participantes cresceu ano após ano. Além da considerável melhoria da qualidade de todos os eventos, houve outro fator que poderia explicar esse fenômeno. O produtor ficou mais preocupado com o futuro do seu negócio. A combinação do salto tecnológico em todas as frentes da produção com a divulgação diária de notícias e comentários qualificados nas diversas mídias elevou o nível de consciência empresarial do pecuarista. Será exatamente essa nova realidade de informação instantânea e universal, bem como a crescente penetração tecnológica de todos os componentes do processo produtivo, que deve moldar o próximo salto qualitativo dos eventos. O pecuarista entendeu que a amplitude do seu negócio ultrapassa sua capacidade de ser expert em todos os assuntos. No passado, o dono entendia da cerca, sabia o necessário para definir seu modelo de cria e engorda, fazia a gestão financeira baseada nos picos do fluxo de caixa e focava na negociação da compra de bezerros e insumos e na venda para o frigorífico. Hoje, tudo isso é mais complexo, mas ao mesmo tempo mais transparente. A tendência, como na agricultura e nos outros setores da economia, evolui em direção da gestão de processos e pessoas, e menos na aquisição do conhecimento técnico. Face a essa transformação, as palestras devem orientar sobre novas soluções, seus impactos, condições para serem (ou não) usadas e como procurar orientação confiável sobre cada perspectiva de modernização. Poderíamos chamar essa trajetória de “a mudança do modelo patriarcal” para a “prática da terceirização sistêmica”. Usando uma metáfora da moda, iremos contratar o Uber da genética, o Uber da nutrição e o Uber da gestão e monitoração do processo produtivo, inclusive drones e aplicativos, para ficarmos naquilo que nos dará e trará dinheiro. Focaremos na formulação estratégica do nosso negócio em franca transformação e na gestão e motivação de pessoas. Esse novo conceito transformará a pecuária tradicional, que cresceu também com ganho patrimonial, na nova empresa rural que obterá seus resultados principalmente através do lucro operacional. Quanto mais conseguirmos delegar as questões técnicas para os especialistas, provavelmente em diversos formatos de programas de fidelização, maior a capacidade e disponibilidade de tempo para orientar e motivar o pessoal que terá que implementar essa enormidade de novas tecnologias e técnicas que caracterizarão a chamada “pecuária inteligente”. Cooperativas, pools de compra e venda, programas de fidelização e novas soluções da gestão a distância são apenas algumas das soluções que ocuparão a atenção do produtor que tem muito chão (e muitos desafios) pela frente para se manter competitivo e crescer em um cenário de margens cada vez mais estreitas.