Confinador

 

VITAMINA E

Suplementação que garante maior desempenho e carne de melhor qualidade

Vinicius Gouvêa*

Vitaminas são substâncias orgânicas com estruturas químicas e funções variadas no organismo. O termo vitamina (“vita” = vital ou vida; “amina” = composto nitrogenado) foi utilizado inicialmente em 1911 pelo cientista polonês Cashmir Funk para designar um grupo de compostos vitais para os organismos e que continham na sua composição um componente nitrogenado comum conhecido até então como aminas. O fornecimento de quantidades adequadas de vitaminas garante que os animais sejam capazes de utilizar eficientemente outros nutrientes da dieta, uma vez que muitos dos processos metabólicos que ocorrem no organismo animal (crescimento, reprodução, resposta imune) são especificamente controlados por esses compostos.

De maneira geral, as vitaminas podem ser classificadas de acordo com a sua solubilidade em dois grupos: lipossolúveis, ou seja, solúveis em solventes orgânicos ou nos lipídeos – vitaminas A, D, E e K; e hidrossolúveis, solúveis em água – vitaminas C e do complexo B (ácido nicotínico, ácido pantotênico, ácido fólico, biotina, colina e ácido ascórbico). Uma grande diferença entre esses dois grupos está no fato de as vitaminas lipossolúveis, depois de ingeridas, serem armazenadas no organismo nos mesmos locais de armazenamento das gorduras. Essas vitaminas são excretadas, em grande parte, nas fezes dos animais. Por outro lado, as vitaminas hidrossolúveis (exceto para a vitamina B12) não são armazenadas no organismo e, no caso dos ruminantes, a sua produção diária em quantidades adequadas é necessária para o ótimo funcionamento das atividades metabólicas. As vitaminas hidrossolúveis, ao contrário das lipossolúveis, são, em grande parte, eliminadas pela urina (Zeoula e Geron, 2006).

Os animais ruminantes, diferentemente de outros mamíferos, são capazes de sintetizar as vitaminas K, C e do complexo- B (tiamina, riboflavina, niacina, ácido pantotênico, piridoxina, ácido fólico, biotina e cobalamina) durante a degradação e fermentação ruminal dos nutrientes dietéticos, entretanto, precisam receber suplementação diária das vitaminas A, D e E, pois não as conseguem sintetizá-las.

Vinicius Gouvêa afirma que produzir mais e com qualidade deve ser o foco do produtor

O conceito de suplementação vitamínica para ruminantes tem mudado bastante nos últimos anos devido principalmente ao avanço das pesquisas científicas e das determinações químicas. Nos últimos anos, o conceito inicial de suplementação com o objetivo de suprir as exigências mínimas dos animais e de se evitar carências nutricionais tem sido substituído pelo conceito da suplementação ótima para maximização do desempenho e também melhora na qualidade dos produtos finais.

Essa mudança de conceito vem ocorrendo devido à evolução natural dos sistemas de produção animal, que investem cada vez mais em boas práticas de manejo, melhoramento genético, bem-estar dos animais e no ajuste das dietas para aproveitar ao máximo a aptidão produtiva dos rebanhos. Nesses casos, maiores ganhos de peso ou produção de leite somente podem ser obtidos com ajustes finos na dieta que garantam o atendimento adequado

das exigências dos animais. A vitamina E é sintetizada naturalmente pelas plantas e sua atividade é derivada principalmente de compostos conhecidos como tocoferóis. O a-tocoferol, o mais biologicamente ativo desses compostos, é a forma ativa predominante de vitamina E nos alimentos e a mais utilizada comercialmente para suplementação dietética dos animais (Scherf et al., 1996). A concentração de vitamina E nos alimentos é bastante variável. Nas forragens, por exemplo, dependendo do estágio vegetativo (“idade” da planta), pode variar de 80 a 200 UI/kg de matéria seca (MS) – para a vitamina E, uma unidade internacional (UI) representa 1 mg de acetato de a-tocoferol. Além disso, a concentração de a-tocoferol reduz rapidamente após o corte da planta, ou seja, silagens conservadas e fenos utilizados nas dietas de ruminantes geralmente apresentam de 20 a 80% menos tocoferol que a mesma planta “verde”. De maneira geral, ingredientes concentrados como os grãos cereais (milho e sorgo) também apresentam concentrações muito baixas de vitamina E, podendo a suplementação dietética exógena trazer benefícios aos animais.

Arnold et al. (1992), pesquisadores da Universidade de Wisconsin – Madison, EUA – avaliaram a concentração de a-tocoferol em diferentes tecidos de bovinos confinados que receberam suplementação de vitamina E. A suplementação dessa vitamina na dieta resultou na elevação da sua concentração em todos os tecidos analisados (Figura 1), que incluíram o sangue (plasma), músculo (contrafilé)

e fígado, um dos locais onde essa vitamina é armazenada. Isso evidencia o fato de que fontes dietéticas exógenas de vitamina E são capazes de atingir os tecidos alvos e exercer suas importantes funções. Dentre as principais funções na vitamina E, o papel antioxidante é o que mais ganha destaque. Quando o assunto é qualidade da carne, a vitamina E atua reduzindo a oxidação de lipídios, o que melhora a qualidade da cor da carne e contribui para uma maior vida de prateleira (Descalzo e Sancho, 2008), que representa o potencial da carne em manter suas caraterísticas físicas e químicas (coloração, maciez e suculência, além de valor nutricional) durante o período de armazenamento sob refrigeração.

Figura 1 - Efeito da suplementação de vitamina E na concentração de a-tocoferol dos tecidos de bovinos terminados em confinamento

Fonte: Adaptado de Arnold et al. (1996). Controle: não suplementados. Vitamina E: 2000 UI/animal/dia. ab - Letras diferentes significam diferenças estatísticas entre as médias (P<0,05) na comparação dentro de cada tipo de tecido analisado.

Nesse mesmo estudo, Arnold et al. (1992) também avaliaram as características da carne dos animais (contrafilé) suplementados com vitamina E. Dentre as variáveis analisadas, a coloração da carne durante o período de armazenamento recebeu grande atenção. Os autores observaram que a carne dos animais suplementados com vitamina E na dieta apresentaram uma melhor coloração durante os oito dias de avaliação em que foram mantidas nos painéis de refrigeração (que nós conhecemos como as “gôndolas” dos supermercados, onde as carnes são armazenadas nas bandejas de isopor revestidas com papel filme).

As carnes dos animais suplementados com vitamina E se mantiveram por mais tempo com a coloração avermelhada característica de carne fresca (vermelho cereja – Figura 2), enquanto a carne dos animais não suplementados (grupo controle) apresentou coloração vermelho escuro, característico de carnes que entram em processo de deterioração. Esse fato está relacionado com o grande efeito antioxidante da vitamina E, que reduz a oxidação dos lipídios e das proteínas que compõem a carne, garantindo, assim, que suas características físicas sejam preservadas por mais tempo.

Diferentes doses de vitamina E na dieta dos animais (0, 250, 500 ou 2000 mg/ animal/dia) e seus efeitos na qualidade da carne de bovinos confinados também foram estudadas por Liu et al. (1996), pesquisadores da Universidade de Wisconsin – Madison, EUA. De acordo com os resultados obtidos por esses autores, o aumento da dose de vitamina E na dieta dos animais durante o período de confinamento proporciona um aumento na vida de prateleira da carne (Figura 3). Novamente, o efeito antioxidante dessa vitamina se mostrou capaz de trazer benefícios para a qualidade do produto final.

Figura 2 – Efeito da suplementação de vitamina E na coloração da carne de bovinos confinados

Fonte: Adaptado de Arnold et al. (1996). Coloração: 3 = moderadamente vermelho cereja / 4 = vermelho cereja / 5 = moderadamente vermelho escuro / 6 = vermelho escuro. Controle: não suplementados. Vitamina E: 2000 UI/animal/dia.

De maneira geral, o efeito positivo da suplementação de vitamina E no aumento da vida de prateleira da carne está relacionado com a redução na oxidação da mioglobina e com a formação da metamioglobina, responsável por conferir a coloração marrom/vermelho escuro à carne, além da redução na oxidação dos lipídios presentes na carne.

Figura 3 – Efeito da suplementação de vitamina E na vida de prateleira da carne bovina

Fonte: Adaptado de Liu et al. (1996). ab – Letras diferentes significam diferenças estatísticas entre as médias (P<0,05).

Além de todos os benefícios apresentados em relação à qualidade da carne, a suplementação de vitamina E na dieta de ruminantes já mostrou que mais ganho de peso também pode ser obtido devido a sua utilização.

Secrist et al. (1997), pesquisadores da Universidade de Oklahoma (EUA) realizaram uma extensa revisão de literatura sobre os efeitos da suplementação de vitamina E na dieta de bovinos confinados e seus efeitos no desempenho e na saúde geral dos animais. Nessa revisão, foram analisados, em conjunto, os resultados obtidos em 21 pesquisas diferentes. Os autores concluíram que, de maneira geral (média de todos os estudos – 841 UI/ animal/d), a suplementação de vitamina E na dieta de bovinos confinados aumenta o ganho de peso diário (GMD – Figura 4) e o peso final dos animais (Figura 5).

Ainda nesse estudo, os autores puderam isolar os efeitos da suplementação de vitamina E para bovinos recém-chegados no confinamento, que passaram pelo estresse do transporte. De acordo com os autores, a suplementação de vitamina E para animais durante o inicio do confinamento, período de grande estresse principalmente devido ao transporte e à formação dos lotes, tende a melhorar a eficiência alimentar dos animais. Segundo os autores, a suplementação de vitamina E aumenta a resposta imune e, com isso, a capacidade do organismo animal de se defender de doenças e patógenos, além de outros distúrbios que podem comprometer o desempenho durante o período de confinamento.

Figura 4 – Efeito da suplementação com vitamina E no ganho de peso diário de bovinos confinados

Fonte: Adaptado de Secrist et al. (1997). Controle: não suplementados. Vitamina E: 841 UI/animal/ dia. ab – Letras diferentes significam diferenças estatísticas entre as médias (P<0,05).

Figura 5 – Efeito da suplementação com vitamina E no peso final de bovinos confinados

Fonte: Adaptado de Secrist et al. (1997). Controle: não suplementados. Vitamina E: 841 UI/animal/dia. ab – Letras diferentes significam diferenças estatísticas entre as médias (P<0,05).

Todos esses resultados de pesquisas comprovam que a suplementação de vitamina E, quando realizada em níveis adequados, pode favorecer o melhor desempenho dos animais e, também, a maior qualidade da carne. Produzir mais e com mais qualidade: esse deve ser o foco do produtor que pretende ser competitivo e se destacar na atividade pecuária, agregando valor ao seu negócio e ao seu produto final.

*Vinícius Gouvêa é médico-veterinário, doutor em Nutrição Animal e supervisor de Inovação e Ciência Aplicada para Ruminantes Latam – DSM