Brasil de A a Z

Pecuarista, é fundamental ser um bom “agricultor” de capim

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brasil com Z® – Zootecnia Tropical

Amigos da lida, depois de dois anos de seca que castigou boa parte do Brasil agropecuário, as chuvas melhoraram de uma maneira geral, embora, em algumas regiões, continuem irregulares. Para atrapalhar ainda mais o consumo de carnes, que devido ao cenário econômico do País não anda bem, estoura a operação da Polícia Federal denominada “Carne Fraca”, que investiga fraudes envolvendo fiscais do Ministério da Agricultura e empresas que processam proteína animal.

A notícia toma proporções globais, a mídia supervaloriza o tema, não esclarece que é uma pequena minoria atuando de forma irregular, e assim teremos que dar explicações para muita gente, tanto no mercado interno como externo – vale ressaltar que os produtos sob suspeita são basicamente embutidos que nada têm a ver com a carne in natura que utilizamos nos churrascos de comemoração ou no bife do dia a dia. Tenho convicção de que o Brasil pode e deve reverter esse fato inicialmente negativo, se punir de maneira exemplar todos os condenados por falcatruas e divulgar para o brasileiro e para o mundo a força da cadeia produtiva da proteína animal do País. Pelos números divulgados, o percentual de indústrias e agentes da fiscalização é ínfimo em relação ao todo, ou seja, a grande maioria faz o certo, e com altos padrões de qualidade, e mesmo assim investigamos, punimos e vamos chegar a patamares ainda melhores do que os atuais. Já pensou que bonito seria transformar um fato negativo em oportunidade para uma campanha que mostre o tamanho e o profissionalismo do segmento pecuário no Brasil? O fato é que sempre aparecerão fatores externos que fogem ao controle do pecuarista e que podem realmente impactar seu negócio.

Cabe ao bom gestor não ficar reclamando e, sim, planejar e controlar tudo o que for possível, tudo o que estiver ao seu alcance para antecipar tendências nos temas que podem impactar seu negócio. Como sempre, procuro expor nesta coluna: não adianta ficar de chororô, o negócio é arregaçar as mangas, como faz o valente produtor brasileiro, e pensar nas soluções promissoras ao seu alcance. Por exemplo, minimizar as chances de passar maiores percalços na seca, que acontece todo ano com maior ou menor intensidade. Claro que existem extremos climáticos sem solução, mas vale entender que nesses casos geralmente a região apresenta históricos que podem ser estudados e, assim, estimar as margens de risco.

Falo de regiões do Nordeste, por exemplo. Particularmente tenho acompanhado a seca na Bahia e lá mesmo pude observar oportunidade em momento de crise. Neste mês, estava em uma fazenda no Sul do estado, que implementou um pivô em uma área em que muitos considerariam loucura. Pois bem, dominada a tecnologia, hoje a propriedade colhe 3 safras de milho, com produtividades altíssimas; consegue volumoso de alta qualidade para terminação estratégica de produtos destinados ao abate e um lucrativo produto para venda a terceiros. A revolução da pecuária no País nos últimos anos é evidente. Isso por inúmeros fatores, tais como maior produtividade média das pastagens, genética de melhor qualidade, maior utilização de sal mineral e suplementos proteinados e energéticos.

Essas medidas possibilitaram sistemas de produção a pasto que vieram a transformar a pecuária nos trópicos, bem como confinamentos que se estruturaram com tecnologia de ponta, aproveitando a fartura das safras gigantescas de grãos e seus produtos e subprodutos para utilizá- -los na nutrição animal. Com tudo isso, analisando as médias nacionais, ainda temos muita oportunidade de melhorar nossos índices zootécnicos, através de ciência, bom senso e uma boa fatia de gestão. Voltando ao assunto sobre a próxima seca, tenho visto fazendas que mudaram completamente sua capacidade de suporte através da integração lavoura-pecuária e contam com pastagens em plena produção no momento de seca mais forte. Silagem de capim tem sido o plano “B” para outra fazenda que visito, outras conseguem uma boa estratégia de reservar pastagens maduras, o popular “feno em pé”.

No entanto, assistimos muitos ainda pegos de “surpresa”, que não planejam reformas de pastagens e perdem capacidade de suporte até que uma seca um pouco mais severa leva ao comprometimento do resultado produtivo e financeiro. A adaptação às novas tecnologias e tendências, ou seja, inovar o negócio, fazer diferente do que vinha sendo feito, é o caminho para ser mais competitivo e, com isso, ter maiores chances de sucesso. Não esquecer que alimentação é o maior custo de produção e que o capim é o insumo mais barato que podemos produzir para alimentação básica do gado. De toda a prosa de hoje, o principal recado é que, se você é um pecuarista, para colher uma boa safra de bois, também tem de ser um agricultor de capim!