Santo Capim

 

REALIDADE INCONVENIENTE O processo de degradação das pastagens brasileiras (parte 1)

Adilson de Paula Almeida Aguiar é zootecnista, investidor nas atividades de pecuária de corte e leite, professor de Forragicultura e Nutrição Animal e Consultor Associado da Consupec - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda.

Quando os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil, no ano de 1.500, aqui encontraram uma vegetação natural composta por 89% de formação florestal e apenas 11% de formação campestre, a qual poderia ser denominada por “pastagens nativas”. Cinco séculos depois, 20,26% do território brasileiro estão ocupados por pastagens, constituindo-se na quarta maior área de pastagens do mundo. Essa conversão se deu a partir do início do século 19, em um intenso processo de “africanização” das pastagens, o qual pode ser dividido em três fases. A primeira ocorreu entre os anos de 1812 e 1920, e ficou conhecida como “fase de introdução acidental”, quando quatro gramíneas foram introduzidas como “cama” em porão de navios negreiros; e como alimento, na forma de fenos, para alimentar animais trazidos do continente africano. Em uma segunda fase, conhecida como “fase das importações de cultivares de forrageiras”, a qual se estendeu entre 1920 e 1979, aproximadamente 31 introduções de gramíneas africanas foram importadas da África, da Austrália, dos EUA e de Porto Rico, e aproximadamente 13 introduções de leguminosas nativas da África, Ásia e América Latina, muitas coletadas no Brasil, e selecionadas, principalmente na Austrália. Desde 1980 iniciou-se a fase atual ou “fase de lançamentos” de cultivares de gramíneas africanas e de leguminosas nativas do Brasil, e que têm sido selecionadas e lançadas por instituições públicas brasileiras, tais como a Embrapa, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Instituto de Zootecnia (IZ), da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo; e a partir da década de 90 também por empresas privadas. Nesta atual fase já foram lançados aproximadamente 35 cultivares de gramíneas e cinco de leguminosas. Com esse processo de “africanização” das pastagens e o seu povoamento pelo processo de “indianização” do rebanho (importações de raças zebuínas da Índia), o Brasil se tornou o segundo maior produtor e o maior exportador de carne bovina do mundo (desde 2003), cuja produção é baseada em pastagens, nas fases de cria e recria, e 89 a 95% na fase de engorda (na última década, apenas 5 a 11% dos animais terminados foram engordados em confinamento), enquanto na produção de leite o País se destaca entre o quinto e o sexto maior produtor mundial. Não existe um levantamento de qual proporção do leite produzido no Brasil é proveniente de sistemas cuja alimentação do rebanho baseia-se em pastagens. Porém, é possível arriscar dizer que é mais de 90%. Apesar dessa posição de destaque da pecuária nacional, é sabido que as pastagens brasileiras têm sido exploradas de forma extensiva/ extrativista, sem condições, no médio-longo prazo, de atender as dimensões técnico-econômica, social e ambiental do conceito de sustentabilidade. Dos 190 milhões de hectares de pastagens (Embrapa, 2011), estima-se que aproximadamente 80% se encontram em processo de degradação, demandando altos investimentos anuais em sua recuperação ou renovação, além dos impactos econômicos (menores produtividades, receita e lucro; baixa rentabilidade da atividade), sociais (empobrecimento de regiões de pecuária tradicional, desemprego e empregos com baixos salários, etc.) e ambientais (compactação e erosão do solo, assoreamento e contaminação de cursos d’água e emissão de gases de efeito estufa). Além desses impactos a atividade pecuária ainda tem sofrido pesadas críticas e acusações por parte da sociedade e de ONGs do País e do exterior pelo seu modelo de exploração extrativista. Na segunda parte deste artigo será feita uma abordagem de como os produtores entendem a persistência das pastagens, será dado o conceito de pastagens perenes e serão relacionadas as causas da degradação das pastagens brasileiras.