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CAPIM-RUZIZIENSIS x MILHO SAFRINHACAPIM-RUZIZIENSIS x MILHO SAFRINHA

Semeadura dentro da janela de plantio garante aproveitamento da aplicação de nitrogênio

Karina Batista*

A pecuária brasileira é mundialmente conhecida pela produção do “boi verde”, e o cenário que marca essa atividade são áreas extensas de pastagens a perder de vista. Entretanto, essa prática que se utiliza excessivamente de uma mesma área sem o manejo adequado dos capins, principalmente no que diz respeito à reposição de nutrientes, tem causado a redução na produção da forragem e consequentemente em seu abandono.

Em resumo, o “boi verde” é resultado do trabalho de gerações que atravessaram décadas com a produção de carne em grandes propriedades com áreas marginais quando comparadas as áreas utilizadas para a produção de grãos, pois apresentam relevo irregular e baixa fertilidade e se baseia na produção de carne com animais livres a pasto.

Por outro lado, uma cena muito comum na agricultura brasileira na qual se utiliza o sistema de plantio direto na palha para a produção de grãos é a colheita da soja seguida do plantio do milho safrinha, sendo que em uma mesma área e na mesma hora, é possível se ver a colheitadeira de soja e a plantadeira de milho trabalhando. Essa prática conhecida como sucessão soja-milho safrinha já chamou a atenção de agropecuaristas no mundo inteiro. Entretanto, o seu uso contínuo ao longo dos anos tem levado à redução nas produtividades de milho e soja, em decorrência de alterações significativas nas propriedades química, física e biológica do solo, isso porque a falta de rotação adequada entre as culturas em uma mesma área promove sempre o mesmo efeito sobre o solo.

Nesse contexto, tem-se que o sistema de plantio direto na palha é resultado de um esforço conjunto de agricultores e técnicos em busca de melhores condições de produção e se baseia principalmente na manutenção permanente da cobertura do solo através da diversificação de espécies utilizadas.

Com o passar dos anos, diante da queda de produtividade de grãos, os produtores rurais que sempre utilizaram a sucessão soja-milho safrinha se viram obrigados a procurar alternativas para o seu sistema de produção, surgindo assim o consórcio de milho safrinha com o capim-ruziziensis (Brachiaria ruziziensis cv. comum), sendo que o capim- -ruziziensis é semeado na entrelinha do milho safrinha e não recebe adubação em momento algum.

As características que levaram o capim-ruziziensis a ser destaque no consórcio com o milho safrinha são seu fácil manejo e dessecação. Os resultados observados com a adoção do consórcio pelos produtores rurais saltaram aos olhos dos pecuaristas, que começaram a enxergar no capim-ruziziensis uma fonte de alimentação nos períodos de escassez de pasto, visto que esse ficava disponível no solo entre os meses de agosto e setembro, período em que há um estrangulamento na produção de boi a pasto devido à falta de forragem cuja produção foi afetada pelo inverno. Dessa forma, surgiu a oportunidade da adoção dos sistemas integrados de produção agropecuária, com destaque para a integração lavoura-pecuária.

Nitrogênio na quantidade certa garante aumento de massa

O uso dos sistemas integrados, principalmente no que diz respeito ao consórcio de milho safrinha e capim-ruziziensis, tem resultado em melhorias na qualidade do solo, mas ainda é necessário cuidar do valor nutritivo do capim-ruziziensis sem interferir na produtividade do milho safrinha, visto que o nitrogênio fornecido para o capim no consórcio é muito limitado, e pesquisas têm demonstrado que a maior causa da degradação das pastagens é a falta de nitrogênio, pois esse faz parte de moléculas de aminoácidos e proteínas e sua falta interfere na produção da pastagem e consequentemente no ganho de peso dos animais.

O nitrogênio, quando em quantidade adequada para os capins, promove aumento na produção de massa, e se os demais nutrientes também estiverem disponíveis na quantidade adequada o capim “explodirá” em produção. Se em um primeiro momento a adoção do consórcio parece ser a solução para produtores e pecuaristas, cuidado deve ser tomado se ele for adotado em áreas de pastagens degradadas, pois como se sabe essa prática é possível graças ao sistema de plantio direto na palha.

Entretanto, quando da adoção do sistema de plantio direto, pesquisas têm demonstrado, em resumo, que nos primeiros cinco anos de sua implantação o que se tem é baixo teor de matéria orgânica e alta exigência de nitrogênio. Pensando nisso é que se desenvolveu um experimento para determinar a influência da adubação nitrogenada de cobertura, para o consórcio de milho safrinha com o capim-ruziziensis em sistema de plantio direto adubando-se as linhas do milho safrinha e do capim-ruziziensis.

O experimento foi realizado em área do Instituto de Zootecnia na cidade de Nova Odessa-SP (latitude 22º 42’ S, longitude 47º 18’ W e altitude 570 m) em um Argissolo Vermelho Amarelo, no período de 10/09/2014 à 19/09/2016. Durante o período experimental, no verão, adotou- -se o plantio da crotalária spectabilis em toda a área experimental com espaçamento entre as linhas de semeadura de 0,45 m com a finalidade de se ter produção de matéria orgânica e garantir a proteção do solo. A semeadura do consórcio de milho safrinha com o capim-ruziziensis foi realizada no período da safrinha através de uma semeadora-adubadora para o sistema de plantio direto intercalando-se uma linha de milho safrinha com uma linha de capim-ruziziensis na mesma operação de plantio.

Regulagem do plantio no consórcio realizado

O espaçamento entre as linhas de semeadura de capim e de milho foi de 0,45 m tomando-se o cuidado de não fornecer adubo para as linhas de plantio do capim. Quando o milho safrinha estava no estágio de cinco a seis folhas realizou-se a adubação nitrogenada de cobertura com quatro doses de nitrogênio (0, 30, 60 e 90 kg/ha) aplicadas nas linhas do milho safrinha e do capim-ruziziensis. As avaliações experimentais foram realizadas em função dos estágios fonológicos do milho safrinha e do capim- -ruziziensis. No capim e no milho safrinha foram realizadas avaliações com relação à nutrição mineral e à produção de massa seca. Foram avaliados ainda parâmetros agronômicos da crotalária e do milho safrinha, bem como dos atributos químicos do solo. Toda a colheita do milho safrinha foi realizada mecanicamente e não houve problemas nessa operação devido à presença do capim.

As variações climáticas não esperadas (veranicos e geadas) na safrinha de 2016 interferiram diretamente no aproveitamento da adubação nitrogenada de cobertura pelas culturas do milho safrinha e do capim-ruziziensis, e com base nessa observação, não se recomenda a adubação nitrogenada de cobertura para o consórcio se não houver previsão de condições climáticas adequadas.

Como toda atividade agrícola e pecuária, o consórcio de milho safrinha com o capim-ruziziensis também exige cuidados por parte de quem o adota. Os resultados da safrinha 2015 demonstraram que a produção de massa seca do capim-ruziziensis, na ocasião da sua dessecação, aumentou na medida em que se aumentou o fornecimento de nitrogênio em cobertura, enquanto que na safrinha 2016 não houve respostas a adubação nitrogenada de cobertura. Entretanto, a análise de outras variáveis indicou que é necessária a dose mínima de 40 kg/ ha para que não haja comprometimento da produção do capim-ruziziensis na ocasião da sua dessecação e que, quando essa dose é aplicada, há um aumento médio de cerca de 42% de produção de massa seca do capim na sua dessecação.

Os resultados demonstraram também que ocorreu aumento na produção de massa seca do capim do estágio de florescimento do milho até a sua dessecação. É importante ressaltar que esses resultados ainda são preliminares e que outras análises estão sendo realizadas, visto que há muitos dados que ainda precisam ser melhor explorados, pois durante o desenvolvimento do experimento foram realizadas várias avaliações visando sempre chegar o mais próximo possível das condições vividas pelos produtores e pecuarista.

Considerações A semeadura das culturas dentro da janela de plantio no decorrer do ano agrícola é o que vai garantir o aproveitamento da aplicação de nitrogênio em cobertura no consórcio de milho safrinha com o capim-ruziziensis em sistema de plantio direto. Desse modo, o planejamento é primordial para que as atividades da safra verão não interfiram negativamente na safrinha ou vice-versa.

*Karina é pesquisadora APTA/ Instituto de Zootecnia, doutora em Solos e Nutrição de Plantas. Confira bibliografia e agradecimentos com a autora.