Feno e Silagem

 

FENAÇÃO

Técnica está alicerçada em duas premissas fundamentais

Júlio Barcellos*, Maria Eugênia A. Canozzi** e Carolina G. Berlitz***

A pecuária de corte brasileira está alicerçada, predominantemente, em sistemas alimentares à base de pastagens, as quais têm sua produção dependente do clima e da fertilidade do solo. Períodos de excedentes de forragem, na primavera-verão no Sul ou na estação das águas na região tropical são seguidos de déficit regular no inverno ou na estação da seca, respectivamente. Assim, é imperioso que esse excedente seja transferido para cobrir o déficit em determinadas épocas, de modo a evitar prejuízos do gado ou, até mesmo, para inclusão em processos mais intensivos de produção.

A fenação é uma das técnicas mundialmente reconhecida para a conservação da forragem, por meio da desidratação do material e posterior acondicionamento para uso nos períodos de carência alimentar. O produto desse processo de conservação é chamado de feno e o seu uso é a base dos sistemas de cria nos Estados Unidos, por exemplo. Lá, é o principal item de custo da vaca durante a fase pós-desmama, coincidindo com o inverno. Isso é obvio pelo fato de que as adversidades climáticas da estação não permitem que o pecuarista abra mão do feno no seu sistema de produção. Na Europa, estratégia similar também ocorre com o uso de feno em diversas categorias do rebanho. Portanto, a cultura de utilização de forragem conservada, o feno aqui referido, está consolidada em muitas regiões.

O feno e a sua utilização estão alicerçadas em duas premissas fundamentais e importantes de serem compreendidas pelos pecuaristas: é o principal alimento para suplementação do volumoso (fibra) em períodos de escassez e pode ser usado como ingrediente complementar da dieta para melhorar o desempenho. Na primeira premissa, ao contrário da segunda, a questão da qualidade e do valor nutricional é o menos relevante. De modo geral, no primeiro caso, considera-se o feno como opção para evitar a morte dos animais por fome ou a queda na produção e, no segundo, potencializar o processo produtivo ou intensificá- lo, seja pelo aumento no ganho de peso individual ou pelo aumento de carga no sistema. Por isso, o feno pode ser considerado uma das opções mais eficientes de transferência de energia de um sistema ao outro ou entre épocas do ano.

Materiais de porte mais elevado, plantas cespitosas, brachiarias e outras gramíneas de porte ereto dão origem a fenos na forma de cilindros e com peso entre 150 e 800 kg

De maneira geral, o feno é a principal fonte de fibra e tem papel fundamental na saúde do trato digestório de bovinos, ovinos, equinos e outros herbívoros. Independentemente da qualidade, é sempre uma forragem que atua como um volumoso para manter o animal em pé, fato que não ocorreria com outro tipo de alimento isolado. Portanto, na maioria dos sistemas de suplementação alimentar com o uso de concentrados, rações comerciais ou coprodutos da colheita ou agroindústria, o fundamento que determina a sua eficiência é a presença de fibra.

Muitas situações práticas sugerem que, para auxiliar nutricionalmente o animal, é necessário incluir um suplemento concentrado, pois com pequenas quantidades é aportada a energia ou a proteína necessária ao processo produtivo. Porém, frente a isso, sempre se levanta a questão: existe volumoso suficiente? Na maioria das vezes, não, pois, geralmente, o pecuarista usa a suplementação como a última estratégia, quando a disponibilidade de pasto é mínima. Portanto, muitas vezes o que viabilizará a estratégia do uso do suplemento concentrado é a presença de forragem conservada, e o feno continua sendo a principal alternativa.

Nas condições da pecuária brasileira ainda é muito modesto o uso da fenação e da suplementação com feno, seja em períodos de escassez, seja para a intensificação da criação. Talvez a primeira limitação seja a questão do processo de confecção, pois envolve forragens de alta produção de massa, fáceis de serem cortadas, enleiradas e fenadas. Para isso, há a necessidade de que a pastagem cresça em uma época do ano para ser futuramente colhida, o que pressupõem formação de reservas – hábito desvalorizado pela maioria dos pecuaristas e até mesmo pelos profissionais que atuam na bovinocultura de corte.

Além disso, a pequena disponibilidade de máquinas especializadas, de bom rendimento e de durabilidade, também dificultam a operação. Deve-se considerar a falta de mão de obra, a logística de movimentação e armazenamento e, claro, a distribuição aos animais, fatores que são restritores de uma prática mais generalizada ao uso do feno. Também é consenso entre muitos pesquisadores que a maioria dos fenos tem baixa qualidade nutricional e alto custo, o que é uma opinião equivocada.

Na realidade, muitos pecuaristas resolvem fenar aquelas sobras de forragens ou outros materiais que, por si só, já são ruins e, obviamente, o feno também será de baixa qualidade. Portanto, lembre-se, o método de conservação de um alimento não melhora a qualidade do material original, apenas o preserva.

Segundo Júlio Barcellos, o fornecimento no sistema de autoconsumo é uma forma de contornar a carência de maquinário especializado

Nessa premissa é onde está situada a maioria das opiniões contrárias ao uso do feno. Por outro lado, quando há um planejamento prévio que define o destino de uma forragem à fenação e o cumprimento de procedimentos, como altura de corte, estádio vegetativo da planta, época de confecção do feno e armazenamento, a qualidade do feno é muito superior e os resultados são extremamente positivos.

Uma das práticas correntes na pecuária de corte brasileira é o uso de palhadas do cultivo de cereais para armazenamento na forma de feno. Na realidade, esse processo não é a fenação, mas sim uma forma de aproveitamento de palhas como um “fardo” ou “rolo”, semelhante ao feno, para futuro aproveitamento com o gado. Contudo, é uma estratégia de “guardar” forragem para períodos estratégicos e tem sido muito importante em várias regiões do Brasil. Essas palhadas têm sido utilizadas como fonte de fibra em confinamentos, mas especialmente com aquelas categorias menos exigentes do rebanho, como vacas de cria na fase pós-desmama. Apesar de, geralmente, essas palhas terem baixo valor nutricional, quando agregadas de aditivos, como sal proteinado, tem sua digestibilidade melhorada e os resultados produtivos, maximizados.

De forma semelhante é o que ocorre quando os pecuaristas vedam um piquete de pasto para acumular forragem para uso na escassez, sem, no entanto, confeccionar o feno, pois eles consideram isso como “feno em pé”. Situação muito comum no Centro-Oeste e Norte do Brasil, com as brachiarias na estação da seca, ou com os campos naturais, no inverno na Região Sul. Em ambas as situações, é um equívoco comparar isso com o feno, pois esses materiais são plantas que envelheceram, perderam qualidade e ainda são de difícil consumo durante o pastejo dos animais. São sim opções de reserva de forragem, mas que carecem de maiores fundamentos de manejo, técnicos e nutricionais.

O feno pode ser apresentado em “rolos” cilíndricos ou em “fardos” retangulares dependendo da máquina utilizada. Geralmente, materiais de alta qualidade e pequeno porte, como a alfafa, são fenados e confeccionados em formatos retangulares, com 25-30 kg. Já materiais de porte mais elevado, plantas cespitosas, brachiarias e outras gramíneas de porte ereto, dão origem a fenos na forma de cilindros e com peso entre 150 e 800 kg.

Uma questão importante na pecuária de corte são as dificuldades logísticas no fornecimento de feno para animais mantidos a pasto. Por essa razão, muitos pecuaristas são avessos a essa tecnologia, pois, diferentemente dos alimentos concentrados, em que implementos de distribuição são altamente variados e eficientes, para o feno, por se tratar de volumes maiores, ainda há uma carência de implementos especializados. Para superar essas dificuldades, a prática mais corrente é o fornecimento no sistema de autoconsumo, de modo que os animais têm livre acesso ao feno e consomem à vontade, com o uso de rolos cilíndricos de grande porte.

Além desses aspectos, o armazenamento do feno exige grandes espaços devido à baixa densidade do material fenado. Assim, galpões específicos, coberturas de telhados ou até mesmo o uso de lonas têm sido empregados para proteger o feno. Porém, fenos no formato de rolos cilíndricos e que recebem grande compactação durante a fenação podem ser armazenados diretamente ao ar livre, já que a penetração da água da chuva se dá em uma camada inferior a 10 cm, ocasionando perdas mínimas. Trabalhos conduzidos pelo Nespro comprovam que as perdas pelas intempéries climáticas, monitoradas durante o período de um ano, são irrelevantes sob o ponto de vista nutricional e não justificam investimentos em sistemas de armazenamento. Portanto, esse tipo feno pode ser armazenado ao ar livre próximo ou no próprio local onde será consumido pelos animais.

O custo do kg de matéria seca do feno ou da unidade de energia depende da produtividade do material fenado e do valor nutricional. Geralmente, os serviços de fenação estão baseados no rendimento em feno/hectare e na facilidade com que a máquina forma os fenos (fenos/hora). A partir disso, o prestador de serviço estabelece o custo final. Esse custo, adicionado aos custos de formação ou vedação do pasto a ser fenado, dividido pelas toneladas de material fenado, resultará no custo/kg de feno. Ainda deve ser acrescentado o custo de distribuição aos animais. O custo de um feno de boa qualidade, de maneira geral, aproxima-se ao custo de uma ração comercial básica e, na maioria das vezes, o feno é uma alternativa viável economicamente, especialmente para gado de cria.

Independentemente da qualidade, o feno é sempre uma forragem que atua como um volumoso

Os estudos sobre a utilização do feno e a sua viabilidade nos sistemas de produção de bezerros constituem uma das principais linhas de pesquisa aplicada que o Nespro vem conduzindo ao longo dos anos. Com isso, surgem resultados animadores que poderão servir de base para a intensificação dos sistemas de produção. Além dessas informações, nos próximos números da Revista AG, teremos uma sequência de textos que tratarão dos mais diversos aspectos do feno para gado de corte e neles o Nespro aportará o que há de mais atual e aplicado à bovinocultura de corte brasileira.

*Júlio Barcellos é médico-veterinário e doutor – Nespro/UFRGS **Maria é médica-veterinária e doutora – PosDoc-Capes/PNPD – Nespro/ UFRGS ***Carolina é graduanda em Medicina Veterinária – Nespro/UFRGS Contato: julio.barcellos@ufrgs.br