Raça do Mês

 

PARA ONDE CAMINHA O NELORE

Morfologia e avaliação genética podem seguir juntas no mesmo sentido, rumo ao Nelore 3.0

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

York Corrêa, um dos mais ferrenhos defensores das pistas de julgamento da raça Nelore, impressionou o mercado ao reconhecer possíveis erros de seleção cometidos pelos criadores de gado puro integrantes do grupo inserido na denominada pecuária seletiva. Dizia que o questionavam muito a respeito do declínio dos leilões de gado puro de origem e das tantas liquidações vistas nos plantéis ditos de Elite.

“Cheguei à conclusão que estamos pagando o preço pela equivocada maneira que selecionamos nosso plantel nos últimos anos, digo isso me incluindo também. Há uns vinte anos caímos na bobeira de selecionar gado levando em conta apenas o parentesco dos animais”, lamenta o proprietário da Fazenda São Thomaz, da marca Nelore York, em um post na página da propriedade no facebook, publicado no dia 17 de dezembro de 2016.

O criador se referia à moda das “famílias”, na qual não importava, segundo disse, se a vaca fosse aleijada ou não “tivesse cabeça”. Bastava que a rês fosse filha da fulana e neta da sicrana, valorizando a seleção dos indivíduos que trouxessem troféus. Não que a morfologia não tenha importância, mas questionava deixar-se de lado a funcionalidade e a parte reprodutiva dos animais.

Como resultado, passou-se a gerar vacas incapazes de amamentar e muitas das quais subférteis. “Deixamos de lado o melhoramento genético e as avaliações funcionais e reprodutivas e passamos a procurar apenas ‘bibelôs’ de exposição, os quais têm uma alimentação forçada e uso indiscriminado de vitaminas, entre outras coisas”, explicava nas duras linhas redigidas.

York diz não ser contra nada disso, no entanto, acredita estar se colocando a seleção em xeque ao seguir tal caminho e ainda admira-se quando batem palmas para doadoras “sem úbere” ou sem filhos ao pé aclamando-as de futuro da pecuária. “Doadoras de bibelôs”, define. Em tempos de orçamento apertado, é um caminho que pode levar o negócio a um grande desgosto.

"Vaca boa tem de parir todo ano, desmamar um bezerro pesado a um menor custo possível. O resto é história para boi dormir”, concluiu York Corrêa. Na verdade, essa é a direção desejada pelos projetos pecuários voltados à produção de carne bovina. Independentemente de quem está certo ou errado nessa história, um fato é incontestável: com as despesas no limite e a forte pressão da agricultura, os pecuaristas procuram novas ferramentas para elevar a produtividade do rebanho.

Os “números” e as provas, idolatrados por uns e odiados por outros, mostram uma pista da preferência atual do pecuarista, o responsável por consumir toda essa genética produzida, seja de Elite, prova ou Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip). Questionado pela Revista AG como está hoje a divisão na comercialização de sêmen Nelore no Brasil, Sérgio Saud, presidente da Associação Brasileira de Inseminação Artificial, respondeu que 93% das vendas são de touros avaliados geneticamente e os 7% restantes provêm de reprodutores destacados nas pistas de julgamento.

Extamente o inverso de dez anos atrás. Agora, com tamanha representatividade, estaria definido o futuro do melhoramento genético da raça Nelore? Talvez! Muita água ainda vai passar por debaixo dessa ponte. É evidente que tanto as pistas como a provas têm alguns dilemas para serem resolvidos.

PISTA

Assim como York, diversos outros selecionadores de Nelore PO criticam o rumo tomado pela seleção do gado PO, no sentido de se ter implantado defeitos antes inexistentes no zebuíno. “A seleção deve ser revista. Estamos em um momento decisivo, perdendo as principais características que colocaram o Nelore como a principal raça do País”, analisa Paulo Leonel, que junto com o pai Adir do Carmo Leonel conduz o Grupo Adir, uma das mais tradicionais seleções fechadas no Nelore POI.

O principal dos defeitos apontados por Paulo Leonel é o fato de o Nelore estar muito exigente, dependente do grão e da mão de obra humana para sobreviver, distanciando-se da grande realidade brasileira. “Bezerro grande ao nascimento, piora da conformação de carcaça e falta de padronização são alguns dos problemas gerados. Estão desenvolvendo gado para outro país, não para o Brasil”, critica o criador, que, por outro lado, mostra-se contra a seleção das chamadas “precocinhas” – as novilhas superprecoces que emprenham aos 14 meses de idade – pelo fato de grande parte do país ficar seis meses do ano sem chuva, inviabilizando o programa nutricional para essa prática.

Em carta aberta, York Corrêa reconhece erros de seleção no Nelore PO

A busca exagerada pelo ganho de peso é outra característica destacada de forma negativa pelo produtor. “Hoje, falam muito em desempenho, mas o boi não acaba. Tem muito osso, bastante barriga, umbigo grande e pouca carne no dianteiro. Tudo isso gera desempenho no peso vivo e não proporciona rendimento no abate. Gera prejuízo para pecuarista e indústria”, adverte Leonel. Ou seja, não serve para a pecuária moderna o boi gigante sem acabamento nem o pequenino musculoso, é preciso encontrar o equilíbrio. Traduzindo para o plano real, seria um animal com 20 arrobas de peso aos 20 meses de idade e espessura de gordura subcutânea entre 4 mm e 6 mm.

Apesar de esse ser o biotipo desejado ao produto destinado ao abate atualmente, Leonel não enxerga tanta importância na avaliação genética e suas estimativas das diferenças esperadas na progênie (DEPs). “Um touro tem de ter raça, produtividade, aprumos perfeitos, linha de dorso plana, equilíbrio e muita consistência genética. Sem raça, ele não transmite suas qualidades às progênies”, defende.

Entende que a avaliação genética é subjetiva porque trata apenas de probabilidades, as quais muito têm errado, ao seu ver. “As bases de dados são diferentes e um mesmo touro possui várias interpretações nos diferentes programas, não chegando a uma conclusão de qual o melhor”, aponta Leonel, que procura produzir um Nelore puro e produtivo.

PROVAS

Por outro lado, a grande massa de quem aderiu às DEPs para selecionar não enxerga esse futuro para o melhoramento genético da raça Nelore. Apostam cegamente nos softwares avançados que rodam os programas de avaliação genética para identificar, matematicamente, o Nelore ideal para os pastos brasileiros. E há também o time que aprova a avaliação genética com ressalvas, procurando preservar as qualidades fenotípicas do animal.

Um exemplo de criador de gado PO que vê as provas com bons olhos é José Luiz Niemeyer dos Santos, à frente dos trabalhos da Fazenda Terra Boa. Para ele, quem insistir nessa divisão entre provas e raça vai ficar para trás. Cita como exemplo alguém da própria Associação Brasileira de Criadores de Zebu defendendo a ideia de que, se o animal tem registro, é Nelore e, se não o tem, é boi de boiada. “Mas conheço muito animal cara limpa melhor que PO e vice-versa”, contesta.

“Eu faço PO, registro há muitos anos, porque acho importante, mas, gente, não vamos desmoralizar os trabalhos de avaliação genética que estão sendo feitos. Eles são muito importantes. Os números fazem ser cada vez mais importantes e vão surgir cada vez mais ferramentas para melhorar o gado. Tudo vai caminhar junto”, pontua o experiente criador da Fazenda Terra Boa.

O detalhe é que Niemeyer já esteve dos dois lados do balcão, e até hoje é assim, pois tem parte do gado cara limpa avaliado pelo Programa Qualitas e há 12 anos já participa do Nelore Brasil, da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP). A propriedade registrou seu primeiro PO em 1º de setembro de 1965 e, como ele mesmo diz, vem de uma época que quanto mais alto o Nelore mais valorizado era.

“O Nelore que eu selecionei em um momento da minha vida era grande e alto. Selecionava-se para peso. E todo mundo queria. O selecionador foi competente em fazer isso e Bitelo foi o melhor exemplo. Atualmente, já entrou na cabeça de todos que temos de trabalhar a precocidade”, explica. Ele se refere não só à precocidade de acabamento de carcaça, mas também à sexual, pois afirma que o principal atributo da vaca Nelore é ser uma máquina de produzir bezerro a campo. Uma característica que não se pode perder.

Para o proprietário da Terra Boa, o fator precocidade é um problema nos zebuínos de modo geral, entretanto, reconhece que já existem muitos produtores selecionando para esse propósito. Ele mesmo é um dos criadores que desafiam novilhas Nelore à prenhez entre os 14 e 16 meses. “Não podemos esperar fêmeas que vão emprenhar apenas aos dois anos e meio ou três anos de idade”, ressalta Niemeyer, que lembra da importância de melhorar a longevidade das matrizes, atributo essencial para aumentar a produção de bezerros.

Uma curiosidade é que, quando ele iniciou esse trabalho, se espantou com a quantidade de partos distócicos, na faixa de 10%, e menciona ainda caso de fazendas com elevadas taxas, em torno de 25%, além de ocorrências da morte de bezerros. Com o problema tornando-se frequente, decidiu pesar os bezerros ao nascer, algo que não fazia desde 1980, por achar o curral um ambiente inapropriado para a cria. Para o espanto do criador, o PN (peso ao nascer), que oscilava entre 28 e 30 kg subiu para uma faixa entre 39 e 42 kg. “O que levou a isso foi a seleção para peso. Precisamos voltar a selecionar um peso ao nascer mais adequado ao nosso tipo de manejo. Esse é um problema que a precocidade vai ter de corrigir, porque é sério”, atesta Niemeyer.

Paulo e Adir do Carmo Leonel procuram fazer um Nelore PO funcional e produtivo

DILEMAS

Tanto de um lado como de outro, há decisões difíceis para serem tomadas. Dentro das pistas existe uma variabilidade morfológica enorme na raça Nelore. Já tem gente lembrando, inclusive, importância de se definir um modelo animal eficiente do ponto de vista econômico, no que tange a realidade do sistema de produção praticado no Brasil. E que ao mesmo tempo seja harmônico no conjunto, respeitando-se as proporções corporais. O problema da pista está em entender a curva de crescimento dos animais.

“Muitas vezes um animal de frame (tamanho) moderado vai bem no Campeonato Bezerro, no Junior Menor e no Junior Maior, mas vai perdendo velocidade de crescimento e quando chega no Touro Jovem é superado por outros concorrentes com curvas de crescimento mais tardias. Mas, afinal, com qual idade e peso devemos abater nossos animais?”, questiona William Koury Filho, zootecnista, jurado e colunista da Revista AG. Em outras palavras, os animais mais precoces são penalizados nos julgamentos.

Agora, pelo lado das provas, uma barreira a ser enfrentada é a busca incessante pelo touro melhor em mil na base genética do sumário. “É óbvio que o touro ser o melhor avaliado é um bom indicador, mas, nem sempre o animal Top 0,1% é a solução para qualquer realidade”, resume o colunista de Brasil de A a Z.

Niemeyer relata que muitas vezes o touro Top 0,1% engana e já viu casos de reprodutores bem fracos em DEPs importantes, como habilidade materna. “Prefiro pegar o sumário e conferir, separadamente, aquelas DEPs que estou interessado. Se eu estou mais tranquilo em habilidade materna, posso ser mais condescendente com essa característica e olhar touros top 20 ou 30%”, explica o criador, que também reclama da incipiência no emprego de características de carcaça e desdenha os índices resumidos dos sumários, como MGT (Mérito Genético Total, da ANCP), IGQ (Índice Geral de Qualificação do PMGZ/ABCZ), etc. – exatamente aqueles responsáveis por ranquear os touros dentro de um sumário.

Para encerrar, William relembra a importância da questão funcional dos animais, como aprumos, características sexuais secundárias e proporções corporais adequadas, além do enquadramento no padrão racial. “Os marcadores moleculares vão aperfeiçoar essas ferramentas que existem. Cada vez mais raça e provas terão de caminhar juntos”, emenda Niemeyer.

Com ajuda dos índices bioeconômicos, genômica, índices mais sólidos de carcaça e características raciais que permitam ao reprodutor desempenhar sua função plenamente, quem sabe o caminho esteja aberto para a chegada do Nelore 3.0, o zebuíno do futuro.

“O animal necessita de aprumo bom, precisa ter umbigo corrigido, qualidade de musculatura. Não acho que só o número basta. É bom existir um pouco da observação pessoal”, relembra o titular da Terra Boa.