Entrevista

Não recebi apoio!

Responsável por acalorar os debates na eleição presidencial da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Carlos Viacava surpreende o mercado ao pedir renúncia ao cargo de vice-presidente e conta os motivos para os leitores da Revista AG. O experiente criador reforça ainda a importância da genética, gestão e adoção de práticas sustentáveis para se chegar ao sucesso na pecuária.

Erick Henrique
erick@revistaag.com.br

Revista AG – Recentemente, o senhor abriu mão da vice-presidência da Associação de Criadores de Zebu (ABCZ). Quais motivos o levaram a desistir do cargo diretivo?

Carlos Viacava - Aceitei participar das eleições na expectativa de que pudesse trazer uma contribuição positiva para os destinos da ABCZ, buscando atrair novos criadores e incrementar o número de registros e de animais controlados e avaliados. Acreditando na importância do melhoramento genético, busquei orientar o Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ) na direção de avaliar animais ainda não registrados e na sua participação entre os programas de certificação e avaliação genética aprovados pelo Mapa. Também julguei conveniente a participação do PMGZ na criação de DEPs genômicas e na constituição de um índice bioeconômico, a exemplo do que outros programas vêm desenvolvendo. Acreditando que a ExpoGenética deva ser um evento com participação efetiva de todos os envolvidos no Brasil com o melhoramento genético, busquei reunir todos os programas existentes e aprovados pelo Mapa para promover a união de mais criadores e dos diversos programas em torno da ABCZ.

O objetivo seria transformar a ExpoGenética na exposição dos programas de melhoramento e não apenas na exposição da associação. Também procurei o entrosamento maior e em alto nível com a Embrapa para transformar a entidade em um polo de fomento da Integração Lavoura Pecuária-Floresta, mostrando aos nossos associados as vantagens dessa importante nova reforma da agricultura brasileira. Busquei envolver a ABCZ no programa da carne Nelore Natural, da ACNB, que, a meu ver, deveria receber amplo apoio financeiro e institucional de nossa associação. Por não ter encontrado o apoio dessa presidência e da diretoria à maioria dessas inovações, acreditei ser dispensável a continuidade de minha permanência nesse colegiado.

Revista AG - Uma dessas controvérsias seria em relação à proposta de campanha que prometia aproximar a ABCZ dos demais programas de avaliação genética. Isso não deve acontecer mais?

Carlos Viacava - Tudo é uma questão de “timing”. Essa aproximação vai ocorrer mais cedo ou mais tarde. Nos dias 6 e 7 de março foi realizado em Araçatuba/SP um encontro dos principais programas de melhoramento genético do Brasil, capitaneado pela Neogen/Deoxi. Foi um encontro fantástico, que propiciou uma importante troca de informações entre os participantes.

Revista AG – Então, como o senhor disse recentemente, a ABCZ segue por um caminho e a pecuária por outro. Mas isso não seria nocivo, inclusive, para o aumento do número de animais registrados?

Carlos Viacava - Exatamente. É essa visão distorcida do que está acontecendo com a pecuária no Brasil que está afastando os criadores da ABCZ. A pecuária brasileira está atrás de resultados produtivos e pouco importa se o Parque Fernando Costa, em Uberaba/MG, está bem iluminado para o Natal ou se as exposições de gado naquela cidade voltarão a contar com shows musicais sertanejos.

Revista AG – E em relação ao Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip), não existe interesse da ABCZ em ingressar nessa certificação? Esse foi um dos projetos negados?

Carlos Viacava - Nesse campo minha opinião coincide com a do corpo técnico, tanto que foi deliberação da maioria do grupo criado para orientar o PMGZ. É preciso entender que o Ceip é um atestado de desempenho, enquanto o registro da ABCZ é um atestado de genealogia, atribuído a animais enquadrados nas características raciais. São informações complementares, ambas importantíssimas, que não se chocam de maneira nenhuma.

Revista AG – Aliás, o senhor acredita que as ações são muito mais voltadas à raça Nelore do que para as demais raças zebuínas?

Carlos Viacava - Pelo contrário, as ações da ABCZ primam pela igualdade de tratamento dispensada às diversas raças, até em prejuízo para a Nelore, que recebe proporcionalmente menos subsídios de uma verba de marketing, calculada sobre o número de registros efetuados.

Revista AG – Pelo andar da carruagem, a proposta de criação de um índice bioeconômico também pode não sair do papel? Quais seriam os benefícios para os pecuaristas, em geral?

Carlos Viacava - Índices econômicos já existem em vários programas de melhoramento e deverão existir em todos futuramente. A ABCZ também vai ter o dela. São controversos, pois dependem do tipo de atividade: cria, recria, engorda, produção de reprodutores ou embriões. Em suma, esse indicador permite conferir a rentabilidade entre as progênies de vários touros ao fim do ciclo de produção e aprimorar a seleção de animais que possam garantir maior lucro à atividade, expressando as características genéticas em reais.

Revista AG – Decerto, há um grande contingente de animais zebuínos sem registro genealógico na pecuária brasileira. Sua ideia era trazê-los para dentro da ABCZ de que forma?

Carlos Viacava - A maneira de ajudar nossa pecuária é divulgar a importância das técnicas do melhoramento genético para apoiar o criador brasileiro. Existem muitos programas, abertos ou fechados, que são baseados em tecnologias voltadas a incrementar a eficiência da nossa atividade. Animais não precisam de registro genealógico, mas criadores podem ser beneficiados pela adoção de programas de melhoramento. O programa de melhoramento genético deve ser visto como uma ferramenta para incrementar o desempenho e o resultado econômico de uma fazenda, de um sistema de produção. Não devem ser confundidos com estratégias de marketing para valorizar este ou aquele animal.

Revista AG – O senhor continua atuando como vice-presidente da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores. Esse programa anda no mesmo sentido da pecuária nacional?

Carlos Viacava - Participo desse programa desde a sua criação e reconheço que tem me ajudado bastante. Gosto tanto dessas técnicas que mais recentemente decidi também participar do Paint da CRV Lagoa.

Revista AG - Quais as últimas novidades lançadas pela entidade na avaliação genética dos zebuínos?

Carlos Viacava - O ponto mais relevante dos avanços dos programas da ANCP é o aprofundamento das técnicas da seleção genômica. É um processo em permanente evolução, e que está encurtando bastante o tempo para a melhoria da pecuária brasileira.

Revista AG – A CV tem promovido há 30 anos a seleção do Nelore Mocho. Após esse período, qual o estágio atual da genética do plantel?

Carlos Viacava - Os resultados vão aparecendo aos poucos. Atualmente, com a melhoria da nutrição propiciada pela adoção da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), temos avançado muito na precocidade sexual e de acabamento do plantel. Pretendemos constituir uma base de matrizes 100% superprecoces. que possam ser trabalhadas a partir de um ano de idade.

Revista AG – O senhor levanta a bandeira do desenvolvimento sustentável da fazenda, por meio da ILPF. Entretanto, essa seria uma técnica acessível a qualquer pecuarista?

Carlos Viacava - Posso dizer que é um caminho que estou aprendendo para tentar melhorar o resultado da atividade pecuária. É preciso devolver à terra o que tiramos dela e esse parece ser um caminho eficiente para isso. Existem muitas facetas para a integração lavoura- -pecuária-floresta. Algumas até sem floresta. Outras incluem a soja, mas pode ser milho, sorgo, girassol, milheto, aveia e inúmeras combinações de variedades de capim e de leguminosas que se alternam em diferentes consórcios. Características regionais de clima, solo, topografia, vão oferecer uma enorme variedade de alternativas.

Revista AG – No seu caso, esse trabalho é realizado no estado de São Paulo, que apresenta, em boa parte do território, solo arenoso e de baixa produtividade. Quais têm sido os resultados por hectare/ano?

Carlos Viacava - Em resumo, a ILPF tem propiciado dobrar o faturamento global da fazenda, sem reduzir a arrecadação da pecuária. Pelo contrário, estamos aumentando a lotação animal, com o objetivo de, em dois ou três anos, alcançar a média anual de 1.000 touros e 500 matrizes comercializadas, além da venda de embriões. Como resultado, superamos na última estação de monta a inseminação de 3.000 fêmeas. Também iniciamos em março a colheita de mais de 70 mil sacas de soja. Tudo isso na mesma área, onde prosseguimos com nossos pomares de laranja, que propiciaram uma colheita de 143 mil caixas na última safra.

Revista AG - Há um entendimento que a ILPF é um sistema caro e trabalhoso para o pecuarista adotar, pois exige mais colaboradores, técnicos e gerenciamento contínuo. Esse ponto de vista é correto?

Carlos Viacava - Temos que cair na real. O criador que não investir em melhorias vai vender ou arrendar a propriedade para quem deseja trabalhar e tenha disposição para encarar novos riscos. Ficar parado é o caminho para o fim. Novos desafios deverão ser encontrados, como provavelmente a instalação de projeto de irrigação parcial e muita pesquisa na área da genética animal e das lavouras. Felizmente, contamos com o apoio da Embrapa e de parcerias no melhoramento genético. Ali encontramos pesquisadores, professores e técnicos altamente competentes, homens dedicados às suas convicções de orientar e ensinar, patriotas e merecedores das maiores homenagens. De muitos deles nos tornamos grandes amigos, entre os quais não posso deixar de mencionar o professor Raysildo B. Lobo, João Klutchkousky e Claudio Ulhôa Magnabosco, claro que cometendo algumas injustiças pela omissão de tantos outros companheiros.

Revista AG – Os criadores de zebu, predominantes no País, deveriam assumir o protagonismo sobre a produção de carne de qualidade e não somente como produtores de gado?

Carlos Viacava - Claro, temos de trabalhar com os olhos no conjunto da cadeia produtiva. Saber exatamente o que estamos fazendo e para quem. Não adianta produzir algo que o mercado não deseja comprar.