O Confinador

 

PERSPECTIVA 2017

Proposta de padronização de cálculo e os custos operacionais de confinamentos

Gustavo Lineu Sartorello1, João Paulo Bastos2 e Augusto Hauber Gameiro3

Na edição de fevereiro, nós tratamos da alimentação dos bovinos, especificamente sobre o aumento dos níveis de concentrado na dieta e o comportamento dos preços do milho grão, assim como os preços do boi magro e gordo no intervalo de dez anos, entre 2005 e 2016. Nesta edição, abordaremos os chamados “custos operacionais”, que, por definição, não incluem a aquisição de animais, a alimentação e os impostos variáveis. O acompanhamento dos custos da atividade de confinamento e a sua evolução ao longo do tempo é necessário para o gerenciamento do sistema produtivo, como em qualquer atividade. As considerações dos itens de custo produtivo da agropecuária variam conforme a teoria utilizada, pois não existe método padrão previamente definido. Todavia, nas análises econômicas realizadas, alguns custos muitas vezes são subestimados, ou então desconsiderados, quando na verdade, a alocação dos custos deveria abranger todos os itens relacionados à produção.

Devido a essa diversidade metodológica, os confinadores têm dificuldades de compararem os custos de diferentes propriedades, sem, antes, entenderem a definição dos itens de custos que compõem a análise.

Nesse sentido, o Laboratório de Análises Socioeconômicas e Ciência Animal (LAE), o qual está vinculado à FMVZ/ USP, vem desenvolvendo pesquisas para auxiliar os confinadores. Recentemente, foi defendida a dissertação do primeiro autor que teve por objetivo, dentre outros, desenvolver modelo matemático para cálculo de custo de produção de bovinos de corte em confinamento em planilha eletrônica utilizando o software Microsoft Excel®.

Os resultados da alocação de todos os itens de custo do modelo de cálculo proposto seguiram os preceitos da Teoria Econômica. Essa alocação alinhou- -se com as propostas feitas pela Conab (2010), Silva et al. (2014) e Raineri et al. (2015), e também com a experiência relatada por agentes da cadeia produtiva.

A organização dos custos visou à simplicidade para permitir o fácil entendimento, a comparação e a tomada de decisão, sem, contudo, deixar de considerar os itens efetivamente necessários (Eyerkaufer et al., 2007). Desta forma, o esquema proposto consta no Quadro 1, ao lado.

Com a descrição dos itens de 1 a 17 foi possível atender, pelo menos, quatro diferentes indicadores, representados pelas letras de E a H. Os indicadores de Custo Operacional Efetivo e Total (itens E e F) são comumente utilizados pelos pesquisadores no ambiente acadêmico.

O item G, Custo Total, é a forma mais completa de análise, segundo indica a Teoria Econômica. Cabendo ao item H, referente ao Custo Operacional da Atividade, a função de atender a linguagem utilizada pelos confinadores e o qual foi utilizado na análise desta edição. Essa estrutura foi utilizada no modelo de cálculo desenvolvido e serviu para analisar os resultados a posteriori.

Para gerar os resultados de custos operacionais foram delineados dois confinamentos no Estado de São Paulo: o primeiro com capacidade de abate anual de 3 mil animais (CSPm) e outro de 27 mil animais ao ano (CSPg). Assim, apresentam-se a seguir alguns dos parâmetros utilizados nas propriedades.

A partir da definição das propriedades foi possível calcular os custos de produção e compará-los, ao utilizar o modelo de cálculo desenvolvido. A seguir foram descritos os custos operacionais para as propriedades, tendo-se levantado os preços de todos insumos utilizados no mês de janeiro de 2017.

Ao se compararem as duas propriedades, CSPm e CSPg, se identificaram Custos Operacionais (COP) distintos, apesar de diferenças nas escalas de produção. Observa-se que os confinadores de tamanho médio apresentam maiores custos operacionais do que os grandes, R$ 1,82 e R$ 1,60, respectivamente. Essas diferenças parecem não se justificar ao se analisarem apenas os gastos variáveis do sistema produtivo. No entanto, de modo geral, a relação se opõe nos demais grupos, refletindo o efeito econômico denominado de “ganho de escala”.

O item de custo de mão de obra para os grandes confinadores (CSPg) representou 17,8% dos COP, enquanto no outro confinamento o dispêndio foi de 6,53% dos COP. Quando se trata de depreciações e manutenções, houve menores despesas para a propriedade CSPg em comparação à CSPm.

Os confinadores menores, geralmente, rateiam a utilização desses itens com outras atividades que são conduzidas na propriedade, sendo que essa consideração foi feita nesta simulação, mas, mesmo assim, há menor eficiência de utilização desses bens de capital, quando comparados aos grandes. Essa desvantagem competitiva aumenta entre os confinamentos simulados ao analisar os parâmetros utilizados (Quadro 2).

Estrategicamente, em anos de margens de lucro mais estreitas, é possível que os confinadores interfiram nos seus custos de depreciação e manutenção dos bens de capital. No entanto, a consideração desses itens no custo é de importânciaimportância para a “saúde” financeira da agropecuária, de forma que se mantenha na atividade no longo prazo.

Outro item de custo que frequentemente suscita dúvidas e debates são os relacionados à renda dos fatores – ou, os custos de oportunidade associados aos fatores de produção. Para se calcular os custos de oportunidade do capital de giro, imobilizado e da terra, utilizou- se 14,12% aa (ao ano), 6,12% aa e R$ 1.328,25 ha/ano, respectivamente, para os confinamentos em análise.

Identifica-se a campo que aqueles confinadores com gestão acurada incluem todos os itens de custo em suas análises para a adequada tomada de decisão. Apesar de, em um primeiro momento, causar debate e, até, desconforto, auxilia na reflexão e na análise estratégica do negócio conduzido.

Em anos difíceis para a atividade de confinamento, como têm ocorrido desde o ano passado, os gestores mais preparados foram aqueles que não só anotaram os custos, mas também calcularam e fizeram uso dessa estratégia. Podendo, então, identificar os gargalos, ou mesmo, reduzir custos sem prejudicar a atividade como um todo, no curto e longo prazos.

Nesse contexto, devido à importância de monitoramento, o nosso grupo de pesquisa continuará levantando preços junto aos fornecedores de insumos, para que possa se monitorar o comportamento dos custos e, então, divulgar periodicamente o Índice de Custo de Bovinos Confinados (ICBC) pelos meios de comunicação.

Por isso, se você, fornecedor ou agente da cadeia produtiva, tem interesse em colaborar nos enviando informações ou de receber os informativos, por gentileza, contate-nos.

1 Gustavo Sartorello é zootecnista. Doutorando pelo Programa de Nutrição e Produção Animal, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo. E- -mail: gsartorello@gmail.com

2 João Paulo é gerente executivo do JBS Confinamentos. E-mail: joao.bastos@jbs.com.br

3Augusto Gameiro é professor do Departamento de Nutrição e Produção Animal, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia/ USP. E-mail: gameiro@usp.br. Consulte bibliografia com os autores.