Do Pasto ao Prato

 

VIAJANDO NA PECUÁRIA

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

O ditado “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé” é velho e batido, mas tem muito a ver com o propósito deste texto: repetir que viajar é preciso e, na pecuária, não é diferente.

A minha profissão (felizmente) me propiciou viajar muito nos últimos anos, dentro e fora do País. Posso dizer que comecei jornadas mais distantes em 1998, quando realizei um intercâmbio rural na Austrália e, de lá para cá, peguei gosto pela coisa e não parei mais. A convicção de que é preciso ver in loco ficou mais forte a cada viagem realizada.

Praticamente, todas as viagens internacionais que fiz foram em função da pecuária e, assim, pude ver como parecida e diferente pode ser a produção de bovinos em diferentes países.

Uma das tantas conclusões que puder tirar de tantos vaivéns foi que, quem não viaja, acaba tendo percepções bem distorcidas sobre a pecuária em outros países. Alguns exemplos recorrentes: nos EUA, o gado é todo confinado; no Canadá, todo gado é muito grande; na Argentina, só se produz o “bolita”; na Escócia, o gado Angus é bem baixinho; na Austrália, é só gado no deserto e de helicóptero. Enfim, caímos nas armadilhas de repetir as mensagens e imagens que mais se repetem acerca de um país ou uma região. Mais ou menos parecido como imaginamos que muitos veem o Brasil: carnaval, samba, praia, onça, etc.

Indo até a montanha de Maomé, pude compreender que muitas verdades que me contaram não se confirmavam na prática. Em vários países de pecuária mais intensiva (leia-se sem restrições alimentares, popular “fome”), os índices zootécnicos que aprendemos nas faculdades podem ser alcançados: altas taxas de prenhez (acima de 90%), altos pesos aos desmame (entre 250 e 300 kg), comercialização e uso de touros com um ano e mais de 600 kg, carcaças de animais jovens acima de 350 kg, combinação de alto desempenho (crescimento) em animais com baixo peso ao nascer e tamanho moderado, etc.

Entre tantas informações novas, vi Angus no calor da África do Sul (mas, sem a umidade e toda parasitoses das áreas tropicais e subtropicais) e os selecionadores de raças britânicas competindo com as continentais no mercado de touros para matrizes leiteiras no Reino Unido. Vi o “encanto” dos argentinos e canadenses pelas exposições, os sistemas de rebanhos cooperados para a produção de touros nos EUA, a clareza dos selecionadores australianos para produzir touros específicos para o mercado doméstico de carne ou para as diversas opções do mercado internacional.

Na organização dos produtores e de suas famílias também se aprende muito em outros países. O Uruguai, mesmo sendo um país pequeno, ganhou posto importante no mercado internacional da carne com o Inac (Instituto Nacional da Carne). Nos EUA, a pecuária é defendida como atividade e a carne, como produto de qualidade através do Beef Board. Na Austrália, a busca pela classificação e descrição precisas dos diferentes tipos de carnes bovina é tarefa para o MLA (Meat and Livestock Australia). Principalmente nos países ricos, a mão de obra é fundamentalmente familiar, mesmo em fazendas médias ou grandes, e a participação direta da família nas tarefas da lida muda muito a mecanização e a seleção dos animais.

Quando a montanha vem para Maomé os aprendizados são incríveis também. No carnaval de 2015, recebi um grupo de pecuaristas australianos visitando fazendas no Brasil. Nunca imaginei que era possível aprender tanto com as perguntas de quem vem de longe. Por que se faz isso aqui? Por que não se faz? Por que esse gado está magro? Por que esses bezerros são leves? Por que as pastagens estão degradadas? Por que tanta gente trabalhando em uma fazenda? Não é pouca gente trabalhando com tanto gado? Qual a produtividade? Qual a rentabilidade? Vocês têm de reservar uma área de proteção ambiental? O governo paga algo por isso? Quantos % da área? “Impossible”, impossível, diziam eles...

Coloque nos seus planos a visita a outros produtores, de outros estados, e, se possível, viaje para conhecer a pecuária de outros países. De fora pode ser mais fácil compreender porque os produtores americanos apoiaram Trump lá na América do Norte do que daqui, assistindo a Globo News no Brasil.

Tem um dito, que não lembro exatamente a redação, mas fala algo assim: viajar é a única coisa que você compra e que te deixa mais rico. Vamos fazer as malas?