Entrevista do Mês

 

Nutrição em foco

Como foi o ano de 2016 para o mercado de nutrição animal e como poderá ser em 2017? Quem tenta responder é Ariovaldo Zani, vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), que estima 72 milhões de toneladas de rações e sal mineral.

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG – Qual foi o comportamento do mercado de alimentação de bovinos de corte e leite de janeiro a dezembro de 2016?

Ariovaldo Zani - A escalada do preço do milho (principalmente durante o primeiro semestre), combinada à subida do farelo de soja (notadamente no segundo trimestre), desmotivou a engorda de bois e a alimentação preparada do rebanho leiteiro, enquanto os produtores de aves e suínos continuaram incrementando o alojamento e o abate. A partir do segundo semestre, o alívio apurado no custo dos principais insumos da alimentação estimulou a retomada da pecuária leiteira favorecida pelo preço do leite pago ao produtor, muito embora insuficiente para evitar o retrocesso da reposição que inibiu ainda mais o consumo de concentrados nos confinamentos de bovinos de corte. Ou seja, considerando o gado de corte, a oferta foi restrita por causa do retrocesso nos abates e da redução no peso das carcaças, a arroba permaneceu valorizada e o patamar de preço incomodou bastante o bolso do consumidor, apesar da preferência nacional pela carne bovina. O alto custo da alimentação para os regimes de confinamento e recria/engorda e a dificuldade da reposição por causa do preço do bezerro frustraram as expectativas e redundaram na demanda de 2,54 milhões de toneladas de rações em 2016, um retrocesso de quase 7% em relação à 2015. O alívio no preço da reposição e a desvalorização da arroba do terminado divergiram do varejo, que manteve preços elevados que desestimularam o consumidor. A previsão é retomar em 2017 a quantidade produzida ainda em 2015, ou seja, montante ligeiramente acima de 2,7 milhões de toneladas.

Revista AG – E como ficou a pecuária leiteira?

Ariovaldo Zani - No caso do gado leiteiro, por sua vez, os laticínios encontraram grande dificuldade na captação da matéria-prima e enfrentaram forte concorrência, justificada pela oferta enxuta de leite cru durante o primeiro semestre, desestimulada principalmente por causa do alto custo dos fertilizantes, dos combustíveis, do milho e da soja utilizados na alimentação das vacas em lactação. Do mesmo modo, os preços recordes pagos pelo leite animaram os produtores e favoreceram a reintrodução da tecnologia a partir de julho, que incrementou a demanda por rações, que somou 5,11 milhões de toneladas. Essa retomada compensou o retrocesso apurado no primeiro semestre (apesar dos pastos parcialmente recuperados pelas chuvas sazonais), enquanto que em 2017 a previsão é produzir mais de 5,4 milhões de toneladas de ração.

Revista AG – Qual a previsão do Sindirações para a produção de rações em 2017?

Ariovaldo Zani - Para esse ano de 2017, a previsão ainda bastante preliminar é contabilizar pouco mais de 72 milhões de toneladas de rações e sal mineral, montante dependente, tanto da recuperação da economia doméstica quanto do comércio internacional e da confiança do empreendedor, bem como do consumidor brasileiro.

Revista AG – Os preços do milho e da soja estão mais competitivos, talvez esteja aí a motivação que as indústrias desejavam?

Ariovaldo Zani - No ano passado, o produtor atribuiu o protagonismo à disponibilidade/preço do milho e sua influência na erosão da rentabilidade dos produtores de proteína animal. Ao contrário, a generosa disponibilidade vindoura de 2017 (soja alcançando 117 milhões de toneladas e milho se aproximando de 385 milhões nos Estados Unidos, e condições favoráveis ao plantio/produtividade na América do Sul, apesar de perdas razoáveis na safra de soja argentina, sob influência de fortes chuvas em janeiro/fevereiro) decerto, aliviará sobremaneira a cadeia produtiva pecuária. Igualmente, a flutuação do dólar e do preço do petróleo, o arrefecimento econômico chinês, a expansão monetária, alta dos juros e adição de etanol nos Estados Unidos, a recuperação europeia comprometida por conta da saída do Reino Unido/Brexit, a amplitude de contágio do protecionismo comercial, etc., representam variáveis que podem limitar ou, ao contrário, até gerar elevações dos preços durante o ano de 2017 e, assim modular, para cima ou para baixo, a demanda da cadeia produtiva de proteína animal em todo o mundo e principalmente no Leste asiático. Nesse caso, é importante salientar que a competitividade do produto agropecuário pode ficar comprometida e o faturamento em moeda nacional diminuir, enquanto que a melhora da economia mundial poderá gerar maior demanda pelas commodities e fortalecer os preços, o que na prática, poderia compensar as perdas provocadas por um câmbio valorizado no Brasil.

Revista AG – A política protecionista do presidente estadunidense Donald Trump também pode afetar os preços no mercado de nutrição animal?

Ariovaldo Zani - Exercitando a futurologia e considerando as medidas protecionistas/nacionalistas que têm pautado o início do republicano eleito, a revisão de acordos comerciais dos EUA com tantos parceiros pode favorecer o Brasil, já que ambos os países concorrem no fornecimento de produtos agropecuários em âmbito global. A extinção do TPP (Tratado Transpacífico) pode ampliar oportunidades para milho, soja e carnes brasileiras alcançarem pelo menos uma dezena de países, dentre eles Japão, Malásia, Vietnã e Brunei. Além disso, a expansão monetária prometida e o continuado aumento da taxa de juros pelo Federal Reserve pode voltar a desvalorizar o Real, cuja consequência é produto brasileiro mais competitivo no cenário internacional.

Revista AG – Recentemente, o Sindirações esteve articulando com o Mapa propostas que ajudem a combater a resistência aos antimicrobianos em animais. Qual o objetivo dessa parceria e quais serão suas diretrizes?

Ariovaldo Zani - Os antibióticos vêm sendo utilizados em Medicina Veterinária há décadas para combater eficazmente infecções e melhorar o desempenho zootécnico dos animais de produção. A fim de mitigar o fenômeno da pressão seletiva que naturalmente favorece o desenvolvimento de bactérias resistentes nos animais, os produtores e médicos-veterinários administram esses agentes antimicrobianos de acordo com os protocolos modulados pela análise do risco quantitativo. Certamente, pela importância e ainda insubstituíveis, os antibióticos tornaram-se centro de opiniões polêmicas e de desdobramentos distintos. Por exemplo, a Agência Sanitária do Reino Unido declarou recentemente: “a resistência antimicrobiana enfrentada pela humanidade é primariamente resultado do uso dos antibióticos nas pessoas, mais do que seu uso em animais”. O contrário da União Europeia, que desde 2006 proíbe o uso dos melhoradores com base no princípio da precaução, insistindo atribuir exclusiva causalidade aos antibióticos usados na produção animal à resistência bacteriana nos seres humanos. A questionável campanha que insiste que o uso “racional” significa usar “menos” foi bem sucedida quando mirou diversas agências reguladoras mundo a fora, muito embora e, contrariamente, o adjetivo atribuído remete à razão do tratamento e não ao racionamento. Ou seja, “racional”, nesse caso, não deve significar usar menos (sob precaução), mas sim facultar ao juízo (sob preceito médico). O Sindirações tem envidado esforços no intuito de fazer prevalecer o “uso racional dos antimicrobianos”, modelado pela análise do risco quantitativo e, sobretudo, promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do agronegócio em benefício da sociedade brasileira.

Revista AG – A adoção de tecnologias para nutrição de bovinos de corte ainda é privilégio de poucos produtores ou está acessível a qualquer pecuarista?

Ariovaldo Zani - A qualquer produtor, sem distinção, desde que compreenda que tecnologia não deve ser encarada como despesa e sim como investimento (para maior ganho de peso e encurtamento do tempo de engorda, e menor emissão de CO2-equivalente/quilo de carne produzida).

Revista AG – A propósito, de que modo a automação pode contribuir ao melhor aproveitamento da ração animal pelos bovinos?

Ariovaldo Zani - No passado a contribuição tecnológica desbancou o temível “princípio geral da população” formulado pelo inglês Thomas Malthus. O mentor daquela revolução verde, Norman Borglau, já afirmava que a paz global sequer seria construída com estômagos vazios. A segurança alimentar global somente estará assegurada com uma “nova” revolução verde através da expressão máxima do melhoramento genético, da mobilização maciça da robótica e da Internet (automação) e do avanço da nanotecnologia.

Revista AG – O desemprego no Brasil segue em uma crescente sem precedentes e pode afetar o hábito de consumo de carne vermelha da população brasileira. Seria uma ameaça ao setor de alimentação animal?

Ariovaldo Zani - A perda de capacidade de compra do consumidor brasileiro (menor renda/ desemprego) tem diminuído o consumo da carne bovina, proteína substituída pelas carnes suína e principalmente de frango. Por sua vez, a indústria de alimentação animal pode ser considerada refratária porque a menor demanda por rações para gado de corte tem sido compensada pela maior procura por rações para frangos e suínos.

Revista AG - Vimos chegar ao mercado uma nova opção de suplementação para bovinos à base de algas marinhas ou de sais marinhos. Qual sua opinião sobre essa tecnologia?

Ariovaldo Zani - Apesar de ainda incipiente, acredito que a novidade vai integrar crescentemente o conjunto de alternativas complementares e prosperar, inclusive por conta do apelo sustentável.