Leite

 

Composição do leite

Veja como utilizar a nutrição a favor de seu rebanho

Liéber Garcia*

Quando falamos em leite, lembramos no mais antigo e rico alimento utilizado pelo homem. Ao nascer, nos primeiros meses de vida, utilizamos como fonte de alimento o leite materno. No entanto, com o passar dos anos, com o crescimento da demanda de alimentos no mundo, o homem passou a utilizar outras fontes para suprir a demanda de alguns nutrientes para o seu melhor desenvolvimento.

Dentre os animais domésticos, os bovinos são os principais fornecedores dessa matéria-prima tão apreciada e utilizada na indústria alimentícia. Contudo, para que o alimento leite tenha seu devido valor, devemos avaliar tanto a sua composição nutricional (proteína, gordura, minerais) quanto a sua composição sanitária (contagem de células somáticas - CCS, contagem bacteriana total - CBT, presença de água ou outros compostos químicos adicionados propositalmente), pois essa composição poderá interferir no rendimento dos produtos lácteos nas indústrias.

Focaremos na composição nutricional, sendo que o manejo nutricional influi diretamente na maior ou menor composição de nutrientes no leite produzido pela vaca.

É de conhecimento geral que a indústria láctea nacional vem gradativamente aumentando a qualidade do leite adquirido, pagando aos produtores não somente pelo volume, mas também pela composição do produto.

Quando falamos em bonificação pelas indústrias lácteas, essa varia em pagar ao produtor um valor extra sobre o preço do leite, contemplando volume, aspectos sanitários e composicionais do leite.

DENTRE OS MANEJOS, PODEMOS CITAR:

(X) baixo teor de fibra efetiva (FDNef) na dieta total e alto teor de carboidratos não fibrosos;

(X) dietas muito úmidas (>50% de umidade);

(X) fornecimento de mais do que 3 kg de concentrado por trato para os animais;

(X) fornecimento de gordura poli-insaturada acima do recomendado;

(X) animais sob estresse térmico.

Vamos supor que, em uma determinada região, o preço bruto médio do leite seria algo em torno de R$ 1,20/litro. Uma fazenda com produção média de 500 litros deseja entrar em um programa de remuneração de uma determinada indústria na região, que paga um adicional de R$ 0,12/litro para passar dos 500 para 1000 litros/dia; R$ 0,04/litro para sair dos atuais 400 mil CCS/ml e passar a produzir um leite com 200 mil CCS/ml; R$ 0,04/ litro para sair da atual CBT de 80 mil UFC/ml e passar para 50 mil UFC/ml; R$0,02 pela gordura acima de 3,6%; e R$ 0,02/litro para proteína acima de 3,1%. Se somarmos os benefícios, sairíamos dos atuais R$ 1,20/litro para R$ 1,44/litro. Um aumento de R$ 0,24/litro, ou 20% a mais somente pela composição e pelo volume do leite.

Essa bonificação pode variar de região para região, de indústria para indústria, devendo o produtor ter em mente, sempre, o seu custo de produção, para não ser pego de surpresa caso não consiga o esperado bônus. Vale lembrar que há também penalizações para aqueles que não se enquadram nos quesitos mínimos, podendo chegar a mais de 20% em descontos sobre o preço bruto do litro do leite. Essa é uma maneira de incentivar o produtor a olhar sempre com mais cautela o sistema produtivo que está sendo adotado na propriedade leiteira, para sempre oferecer um produto de qualidade e de melhor rendimento para o consumidor final. Por exemplo, geram descontos fazendas que produzem um leite com baixa qualidade composicional, como gordura abaixo de 3,0%, proteína abaixo de 2,9%, CCS acima de 500 mil CCS/ml e CBT acima de 300 UFC/ml de leite.

Conhecendo o sistema de bonificação/ penalização, o produtor deve sempre fazer alguns questionamentos: será que o benefício recebido pagará o investimento em aumento de animais objetivando o bônus por volume? Se eu investir em nutrição e genética, dará mais resultado? Qual será o custo x benefício?

Sendo assim, é de suma importância econômica para a atividade que o produtor não seja penalizado quando for receber pelo leite produzido, ou seja, fornecer um leite com níveis de sólidos abaixo do mínimo permitido.

Porém, onde a nutrição poderia ajudar? Sabemos que o leite é produzido em função da dieta ofertada aos animais e por sua digestão por todo o trato gastrointestinal do mesmo. Sabemos também que essa produção só será potencializada após os nutrientes ofertados ao animal serem utilizados para a mantença e que somente após a exigência de mantença do animal ser suprida é que o excedente de nutrientes passará a ser utilizado para a produção de leite. Portanto, o primeiro passo para potencializar a produção e a qualidade do leite é o fornecimento de alimento (matéria seca) em quantidade e qualidade compatíveis com a produção e composição esperadas. O segundo passo é entender que os alimentos deverão atender as demandas da vaca propriamente dita e dos microrganismos presentes no rúmen, pois a composição do leite depende desses dois indivíduos.

Em dietas baseadas em forragens, grãos, farelos, vitaminas e minerais, deve-se ter em mente que cada um desses ingredientes terá sua digestão e absorção realizadas no rúmen (fermentação microbiana) e os compostos e/ou parte desses alimentos terão a digestão no abomaso (estômago verdadeiro), para depois serem absorvidos nos intestinos.

As forragens, quando fermentadas pelas bactérias no rúmen, resultarão em ácidos graxos voláteis, sendo o principal resultante o ácido acético e, em menor quantidade, o ácido butírico. Por sua vez, grãos ricos em amido resultarão em ácido propiônico. Por outro lado, farelos proteicos e/ou ureia serão as fontes de nitrogênio e aminoácidos para o crescimento dessas bactérias, que, por sua vez, servirão de fontes de proteína ao animal hospedeiro.

Para que se obtenha a gordura no leite, o organismo animal se utiliza principalmente de 50% do ácido acético resultante da fermentação das fibras e 50% dos lipídeos oriundos da dieta ou lipídeos circulantes na corrente sanguínea. Portanto, para potencializar a produção de gordura no leite, devemos lançar mão de alguns cuidados nutricionais e de manejo, para que essa fermentação da fibra não fique prejudicada, podendo assim ocasionar queda nos níveis de gordura no leite.

Todos esses fatores podem deprimir o teor de gordura no leite, seja porque causam acidose e o animal não consegue o equilíbrio ruminal desejado para a máxima fermentação e crescimento microbiano, seja porque algumas reações de bio-hidrogenação de gorduras poli-insaturadas produzem metabólitos que inibem a síntese de gordura na glândula mamária.

Dessa forma, se quisermos aumentar o teor de gordura no leite, basta respeitarmos esses fatores supracitados, balanceando fibras e carboidratos não-fibrosos, dietas com umidade adequada, dividir em maior número de vezes o trato ofertado aos animais, respeitar os limites de gordura adicionada na dieta (especialmente as de origem dos grãos de soja e algodão) e, principalmente, dar conforto térmico (sombra, ventilação e aspersão) aos animais.

Segundo Liéber Garcia, para que se aumente o teor de proteína, basta melhorarmos o aporte de aminoácidos nas dietas ofertadas

Quando falamos em teor de proteína no leite, devemos saber que é o constituinte com menor modificação pela dieta. Mudanças muito significativas, dependendo do mercado, deverão lançar mão de material genético, pois há raças que produzem maiores teores de proteína no leite do que outras. No entanto, pode ser potencializado pela nutrição.

A proteína do leite, dentre os alimentos consumidos pelo homem, é a que apresenta um dos melhores perfis de aminoácidos. Portanto, para que se aumente o teor de proteína, basta melhorarmos o aporte e a relação de aminoácidos nas dietas ofertadas. Deve- -se tomar cuidado para que, pensando somente na proteína do leite, não se aumente uma fração chamada de nitrogênio ureico (NU) do leite. O NU elevado, ou seja, acima de 16 mg/dL de leite, significa excesso de proteína alimentar degradável no rúmen e NU abaixo de 12 mg/dL significa déficit de proteína alimentar degradável no rúmen em relação aos carboidratos não fibrosos, como o amido. O NU elevado pode significar problemas reprodutivos no rebanho.

A principal fonte de aminoácidos – e a que mais se compara com o perfil aminoacítico do leite, são as bactérias ruminais. Dessa forma, tudo o que for feito para potencializar o máximo crescimento microbiano ruminal tende a melhorar os níveis de proteína no leite. Outra forma é o fornecimento de aminoácidos específicos, protegidos da degradação ruminal, que complementarão os aminoácidos fornecidos pelas bactérias. Dentre esses aminoácidos protegidos, podemos citar a metionina e a lisina.

Para que haja melhor crescimento e melhor aporte de proteína microbiana ruminal, podemos controlar o pH, evitando a acidose, que prejudica o crescimento dessas bactérias. Processar a fonte de amido faz com que o mesmo se torne mais eficiente como fonte de energia para essas bactérias. Por fim, a quantidade e a qualidade das fibras da forragem ofertada também impactam no crescimento dessas bactérias.

Quando o desafio nutricional é alto, ou seja, animais de elevada produção com alimentos de média a baixa qualidade, podemos lançar mão de aditivos que promovem maior crescimento de microrganismos benéficos no rúmen. Dessa forma, haverá maior digestão fibrosa (aumentando o teor de gordura) e, consequentemente, maior aporte de aminoácidos oriundos dos próprios microrganismos. Dentre os aditivos, podemos citar os tamponantes e os compostos de probióticos, óleos essenciais e funcionais que deprimem as bactérias metanogênicas (melhorando a produção leiteira) e aumentam as celulolíticas que produzirão mais ácido acético (melhorando os níveis de sólidos).

Finalizando, se cuidarmos do rúmen para que o mesmo trabalhe com a máxima eficiência, levando em consideração os alimentos disponíveis na região, com certeza a qualidade do produto final, nesse caso, o leite, será recompensada. Sem falar que podemos enriquecer o produto final naturalmente com DHA, CLA e Selênio, dentre outros compostos que melhoram a qualidade de vida da população, com a Zootecnia trabalhando a favor da produção.

*Liéber Garcia é mestre em Zootecnia e coordenador de Pecuária Leiteira da Premix