Ovinos/Caprinos

 

Pesquisa usa genes que aumentam produção de cordeiros

Fernando Goss

Na ovinocultura voltada para a produção de carne, o aumento no número de cordeiros nascidos por parto de ovelhas é um dos requisitos para obter maior lucratividade. Uma das formas de conseguir isso é por meio de mutações genéticas existentes em ovinos, que ampliam a capacidade de ovulações nas fêmeas, interferindo diretamente na prolificidade dos rebanhos. Ou seja, são genes que propiciam um maior número de partos múltiplos nas ovelhas, garantindo a disponibilização de mais cordeiros para a comercialização sem a necessidade de aumentar o número de matrizes. A Embrapa Pecuária Sul vem trabalhando com duas mutações genéticas em rebanhos comerciais: Booroola e Vacaria.

A mutação Booroola foi identificada entre ovinos da raça Merino na Oceania. No começo da década de 1980, a Embrapa Pecuária Sul importou três carneiros da Nova Zelândia portadores do gene para a utilização em pesquisas. Mesmo com resultados positivos, naquele momento a tecnologia não se mostrou viável comercialmente, uma vez que a ovinocultura da região Sul era voltada prioritariamente para a produção de lã. Com a crise no setor de lã e a mudança da matriz da ovinocultura para a produção de carne, a genética, que já estava presente nos rebanhos experimentais, passou a ser uma alternativa para incrementar a rentabilidade na atividade.

Segundo o pesquisador José Carlos Ferrugem Moraes, um dos objetivos foi acompanhar a introdução do gene em pequenos rebanhos

Desse modo, foram retomados os trabalhos científicos com a mutação, e no início dos anos 2000 o pesquisador Carlos Hoff de Souza identificou o gene responsável pelo aumento da prolificidade, facilitando a realização de testes moleculares nos animais portadores. “Antes tínhamos que esperar em torno de três ciclos reprodutivos para avaliar a presença no gene em carneiros. Como a identificação precisa do gene, tornou-se necessário apenas a análise de amostra de sangue”, ressalta o pesquisador. O gene Booroola foi, então, introduzido em rebanhos das raças Corriedale e Texel inicialmente em nove propriedades familiares do estado. “Um dos objetivos foi acompanhar a introdução do gene em pequenos produtores e as adaptações para o manejo de um número maior de cordeiros nascidos”, relata o pesquisador da Embrapa Pecuária Sul José Carlos Ferrugem Moraes.

A partir da introdução nesses rebanhos iniciais, ovelhas e carneiros Booroola passaram a ser comercializados para outras propriedades, disseminando o gene em rebanhos comerciais do estado. Desde 2014 a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), em parceria com a Embrapa, passou a certificar os carneiros com a genética Booroola, proporcionando mais garantias para produtores que vendem e compram animais com o gene.

Em paralelo à disseminação da genética Booroola, os pesquisadores da Embrapa passaram a acompanhar o Serviço de Registro Genealógico dos Ovinos das principais raças comerciais criadas no Sul do Brasil. Segundo José Carlos Ferrugem Moraes, o objetivo era identificar rebanhos onde a ocorrência de nascimentos múltiplos de cordeiros acontecia com maior frequência. Nesse trabalho de prospecção, foi encontrada essa característica em criações de ovinos da raça Ile de France próximas ao município de Vacaria, na região Nordeste do Rio Grande do Sul. Depois da coleta de sangue de animais dessas propriedades e de estudos laboratoriais, foi identificado o gene responsável pelo aumento da prolificidade na raça, gene que foi batizado de Vacaria.

Gene aumentou ovulação em 60%

A partir daí, os pesquisadores da Embrapa Pecuária Sul realizaram diagnósticos, por meio de técnicas de biologia molecular, viabilizando a identificação de animais portadores dessa mutação genética. Segundo Ferrugem, exames de genotipagem indicaram a mutação genética em cerca de 10% dos ovinos dessa raça que foram analisados. Após sua identificação, a mutação genética foi introduzida no rebanho experimental da Embrapa Pecuária Sul. A introdução do alelo Vacaria no rebanho resultou em um aumento de cerca de 60% na taxa de ovulação das ovelhas acasaladas. Já em relação ao número de cordeiros nascidos e desmamados, o incremento verificado foi em torno de 30%. Para o pesquisador, esses resultados apontam que a mutação genética Vacaria pode ser utilizada como uma estratégia interessante para o aumento da produtividade de cordeiros e, consequentemente, da renda do ovinocultor.

No caso da produção de cordeiros, os pesquisadores da Embrapa recomendam a utilização de animais de apenas um sexo com a mutação genética – ou na ovelha ou no carneiro. Isso porque quando tanto o carneiro como a ovelha forem portadores da mutação, haverá a geração de fêmeas homozigotas, com dois alelos iguais, o que as torna estéreis. “Nas avaliações feitas em fêmeas homozigotas foi detectado que elas apresentavam ovários reduzidos, com comprometimento reprodutivo. Por isso, a recomendação básica é usar apenas genitores portadores de mutação Vacaria de um sexo até a obtenção da prolificidade almejada para o sistema de produção”, ressalta Ferrugem.

Para os produtores que desejarem introduzir a mutação Vacaria em seus rebanhos, um dos caminhos é adquirir animais que já foram testados em exames laboratoriais. A Embrapa realizou a genotipagem de 1,6 mil animais Ile de France, quando foi identificada a mutação em cerca de 10% da amostragem, e os dados deste trabalho, com identificação dos animais e também dos produtores, está disponível no site da associação dos criadores da raça.

Cuidados especiais

Para se obter sucesso com a utilização dessas tecnologias que aumentam a prolificidade, é preciso ampliar os cuidados no período perinatal dos cordeiros. As maiores perdas econômicas dos produtores de ovinos na região ainda são causadas pela baixa taxa de desmame de cordeiros. Atualmente a taxa média de desmame de cordeiros na região Sul fica entre 60% e 70%. Ou seja, o número de mortes dos animais recém- -nascidos é muito elevado, acarretando em prejuízos para a propriedade.

De acordo com Ferrugem, as principais causas de morte dos cordeiros são em decorrência de hipotermia e inanição, o que pode ser revertido com cuidados relativamente simples pelos produtores. “Se quando só há um nascimento por ovelha ainda temos muitas mortes de cordeiros, com partos duplos e triplos, os cuidados têm que ser intensificados”, alerta Ferrugem. Nesse sentido, um acompanhamento do desenvolvimento dos cordeiros após o parto é fundamental, assim como manter uma boa oferta de alimentos para as ovelhas prenhes e no período pós-parto.

Mais venda de cordeiros

Para o produtor de ovinos Guilherme Bernardes, que trabalha com a genética Booroola desde 2011 no município de São Martinho da Serra/RS, o uso dessa tecnologia é um dos fatores que o motiva a permanecer na atividade. Bernardes adquiriu dois carneiros portadores da mutação de um dos produtores que integraram o grupo em que a Embrapa iniciou a disseminação. Atualmente ele tem em média uma taxa de desmame de 150%, ou seja, consegue criar 1,5 cordeiro por ovelha matriz de seu rebanho. “Antes de introduzir o Booroola, a minha taxa de desmame era pouco superior a um. Se mantivesse essa média, acho que não estaria mais trabalhando com ovinos”, relata.

Com um rebanho de cerca de 170 matrizes, o produtor consegue entregar no mercado em média 300 cordeiros por ano. Bernardes disse que a mão de obra é maior com o uso da tecnologia, mas que o retorno financeiro vale a pena. “Além de termos mais cordeiros, eles nascem um pouco mais fracos com o uso da genética. Por isso é preciso mais cuidado nos períodos pós-parto”. Com os resultados obtidos, ele pretende ampliar o seu rebanho, com o objetivo de chegar a 300. Além da venda de cordeiros, Bernardes também está comercializando reprodutores portadores da mutação, gerando uma renda extra para a propriedade.