Na Varanda

 

O quebra-cabeça estratégico “Mais com menos” ou “Menos com mais”?

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira prismapec@gmail.com

O curioso incidente de um enredo de Carnaval incendiou um debate confuso, porém, interessante, que nos permite aprofundar algumas reflexões. Há anos um sindicato me convidou para organizar um evento anti-MST. O movimento estava ameaçando os produtores da região. Respondi que nunca tinha feito algo “contra” alguém e minha sugestão seria transformar o chamado “Abril Vermelho” em um megaencontro com um nome mais emblemático que seria o “Abril Verde”. Com forte apoio de um antigo ministro da Agricultura, reunimos mais de 1.200 produtores de quatro Estados e, para meu espanto, arrecadamos muito dinheiro. Bem mais dos bolsos de agropecuaristas do que de empresas ou entidades de classe que normalmente bancam campanhas.

A partir dessa experiência, apoiei um grupo de produtores do Sul na montagem de uma campanha de outdoors através dos quais o produtor falaria diretamente com o consumidor, e não com os chamados “líderes de opinião”. Pois, anos de pesquisa com cidadãos comuns me levaram à conclusão de que, fora alguns intelectuais ou ideólogos, todos gostam do agro. Ao falar com taxistas ou vendedoras de loja, eles frequentemente se lembram de histórias sobre a vida mais feliz no campo que seus avôs ou tios contavam. Por consequência, grande parte dos urbanos sonha com o regresso à beleza da natureza, à limpeza do ar e das águas e à paz de uma comunidade no interior que hoje já não sofre mais com a distância geográfica como antigamente.

As infraestruturas, independentemente de todas as falhas, são bem melhores do que no passado e, através da Internet e das mídias sociais, a comunicação tornou-se universal e instantânea. Dentro da realidade nova das cidades estressantes, as vantagens do campo ganham novamente em atratividade. A campanha por anúncios em outdoors teve grande repercussão através da Voz do Campo; uma rede de mais de 50 rádios com ouvintes em oito Estados. Agora fico curioso em saber quantos produtores efetivamente estão contribuindo para o movimento “O Agro é Tudo”. Interessa menos o volume do dinheiro arrecadado do que o número de produtores que se envolveram na causa.

O Agro, como se chama a nova âncora da sociedade brasileira, é forte e só esse setor possui a rara característica de ser 100% nacional e estar presente em todo o território. Aliás, com a criação da Agricultura Tropical, o Brasil não apenas mostrou sua criatividade, mas catapultou o País do patamar de tradicional importador para um dos principais exportadores globais de alimentos, energia renovável e fibras.

Existem muitos motivos para se sentir orgulhoso. O setor pode e deve assumir um papel de protagonista no processo da reestruturação do novo modelo de convivência republicana que precisa ser encontrado urgentemente para os 200 milhões de brasileiros. Dito isso, podemos com tranquilidade, mas com cautela, encarar os desafios. Todavia, vale lembrar que potencial não é garantia de potência.

Aqui entra a metáfora do “mais com menos” contra o “menos com mais”. Naturalmente, trata-se de um jogo de palavras. Afinal, não queremos colocar em questão a validade da filosofia do aumento contínuo de produtividade por hectare ou hora máquina. São conquistas que, de forma eficiente, combinam os aspectos da rentabilidade com a sustentabilidade. A ideia do “menos com mais” eleva o conceito da produtividade (que deve ser nosso foco na fazenda) para a racionalidade mercadológica e macroeconômica do setor.

O que isso quer dizer? Existe uma força quase visceral na natureza do empresário rural que o empurra para produzir cada vez mais (e naturalmente melhor no sentido de sanidade, qualidade, etc.). As estatísticas mostram que, desde que não tenha ocorrido uma trava climática relevante, seja por excesso de chuva ou seca, o volume de produção aumentou ano após ano. Isso certamente é bom para o consumidor. Mas será benéfico também para o produtor que reclama de margens cada vez menores? Paralelamente a isso, observa- -se uma lenta, mas constante, mudança de hábitos relativamente à diminuição de desperdícios desde a estocagem na fazenda, passando pelo transporte e terminando em um “manejo” mais racional dos alimentos por parte da dona de casa. Ou seja, além do aumento de produção em volume (maior oferta), concorre uma segunda tendência de redução relativa da demanda através da diminuição do índice de desperdício dos atuais 30% para um patamar facilmente atingível em torno de 20%. Ganha-se 1/3 da comida (a custo zero) e perde-se o equivalente potencial de crescimento da demanda, ou seja, espaço para o crescimento da oferta. Nesse contexto, a exportação ganha cada vez mais importância.

Tudo isso não é bom? Bom para o consumidor. Pois, se a demanda cresce menos do que a oferta o que acontece? Correto, o preço não aumenta. E, ao mesmo tempo, a produção envolve cada vez mais insumos sofisticados, parte deles importados, o que faz com que a produção fique mais cara. Certamente, já acompanhou o cálculo e percebeu que a ideia de produzir cada vez mais precisa ser bem articulada com a capacidade de absorção da demanda, com a estratégia de estoques globais e com as perspectivas de câmbio.

Mesmo a previsão de que 40% dos 5 milhões de produtores rurais irão deixar a atividade nos próximos 15 anos proporciona pouco alívio, pois esse grupo não representa mais de 10% do volume dos alimentos. Ou seja, está na hora de as lideranças do setor se articularem de forma mais eficiente para iniciar um diálogo sobre como melhor orientar os produtores antes de eles tomarem suas decisões. Assim, produzir menos pode dar mais lucro no fim. E é para gerar resultados que todos trabalham, arriscam e procuram preservar seu legado e competitividade para as futuras gerações. Vamos voltar com mais rigor científico ao assunto da programação da produção mais inteligente quando abordarmos o chamado “ciclo do porco” ou a imagem bíblica dos anos de “vacas gordas” em uma próxima oportunidade.