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Gargalos atuais na correção e na adubação do solo da pastagem

Adilson de Paula Almeida Aguiar*

Tratando do tema manejo da fertilidade do solo da pastagem, o principal gargalo ainda atual é a baixa adoção das práticas de correção e adubação por parte dos pecuaristas. Quando se analisa o crescimento da adoção dessas tecnologias, encontram-se alguns aparentes paradoxos. Por ocasião do último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2006), de 2005, publicado em 2006, foi levantado que naquele ano apenas 7,95% dos estabelecimentos agropecuários aplicou calcário (imagine somente em pastagens?), e apenas 2,41% dos estabelecimentos pecuários adubaram.

Pergunta-se: será que desde então esse cenário mudou? Parece que não, pois analisando os dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos sobre o mercado de fertilizantes em 2014 (Anda, 2015) observa-se que apenas 1,48% de todo o fertilizante comercializado naquele ano teve como destino as pastagens, quantidade que foi suficiente para aplicar em apenas 1,22% da área total de pastagens (estimativa feita por CUNHA; RIBEIRO, 2014).

Apenas cinco culturas agrícolas, soja, milho, cana, café e algodão, consumiram 91% do total de fertilizantes comercializado. Aqui está um primeiro paradoxo: a área cultivada com culturas agrícolas ocupa apenas 22% da área agricultável do País, mas consumiu 98,52% do total de fertilizantes comercializados em 2014, enquanto as pastagens ocupam 78% da área agricultável.

Por outro lado, quando se analisam os dados do ultimo Rally da Pecuária (2015), parece haver outro paradoxo, pois segundo o relatório 54% dos entrevistados afirmaram corrigir, adubar suas pastagens e, pelos cálculos ponderados, 17,5% da área de pastagem eram corrigidos e adubados. Extrapolando-se esses resultados para a área de pastagens do País, Lima Filho e Cunha (2015) estimaram que 8,79% do total de fertilizantes comercializados poderiam estar tendo pasto como destino. Mesmo assim, essa relação ainda é baixa.

Mas é preciso entender as causas da baixa adoção das tecnologias de manejo da fertilidade do solo por parte dos pecuaristas brasileiros.

Para o professor Adilson Aguiar, antes de serem oferecidas ao mercado, tecnologias de adubação e correção deveriam ser validadas por instituições imparciais

As causas são muitas e sua avaliação é complexa, pois envolve desde questões culturais (hábito extrativista), falta de conhecimento das respostas potenciais da pastagem e dos animais à correção e à adubação do solo e sua relação de benefício:custo; baixa adoção de assessoria técnica; dificuldades em manejar pastagens com elevado nível de fertilidade do solo (frequência, intensidade e duração do pastejo, etc.), pela programação das adubações no tempo e nas horas adequados para a melhor resposta do insumo e, principalmente, pela falta de planejamento para equilibrar a produção de forragem com a demanda do rebanho.

Completam a lista a falta de um projeto com visão estratégica (de longo prazo), burocracia para contratação de financiamento, por causa do excesso de exigências; falta de garantias para contrair financiamentos; termos de trocas desfavoráveis entre os valores dos fertilizantes e do produto animal (arroba, leite); impossibilidade de o produtor utilizar capital próprio para investir no segmento produtivo, em virtude de a atividade pecuária operar com margens estreitas ou até mesmo negativas porque o nível de exploração é extensivo na maioria das propriedades.

Deve-se considerar também que o aumento na taxa de lotação resultante do uso de fertilizantes implica em custos adicionais com compra de mais animais, suplementos, vacinas, etc. Um aspecto importante para ser destacado nestes projetos de intensificação é que os custos com a compra de animais pode representar entre R$ 5 (nos ciclos de baixa) e R$ 8 (nos ciclos de alta) para cada R$ 1 investido no programa de correção e adubação do solo da pastagem. Por isso se diz: “o caro não é corrigir e adubar, mas sim comprar o excedente de animais para ajustar a taxa de lotação à capacidade de suporte da pastagem, que é aumentada significativamente por meio da correção e adubação do seu solo”.

Em determinadas situações são necessários investimentos em infraestrutura (redivisão da área da pastagem em mais piquetes, mais bebedouros e cochos para suplementação) para o manejo mais eficiente. Devido ao maior tempo de retorno do capital investido, é comum observar fluxos de caixa pouco positivos ou até mesmo negativos nos primeiros anos depois da implantação do projeto. É preciso também levar em consideração que a idade média dos pecuaristas brasileiros está avançado e eles não têm, na maioria, sucessores interessados em continuar a atividade, o que limita a adoção de sistemas mais intensivos, e, portanto, mais complexos.

Ainda é preciso também diferenciar os verdadeiros pecuaristas daqueles “pecuaristas” que entram na atividade buscando reserva e ganho de capital, sonegando impostos ou lavando dinheiro. Entendendo agora esse contexto da baixa adoção das tecnologias de correção e adubação do solo da pastagem, se analisam os erros cometidos por aqueles que já as adotam, tais como:

– Erros na medida exata da área cujo solo será corrigido e adubado, levando a consequentes furos nos orçamentos do tempo gasto em operações, da demanda de mão de obra, dos investimentos e dos custos necessários para a execução do programa.

– Não ter análise de solo para fazer as recomendações de correção e adubação. Apesar de ser uma tecnologia simples, relativamente barata e de importância estratégica, não é utilizada por mais de 20% dos agricultores brasileiros (imagine no universo dos pecuaristas!). Quando o pecuarista decide corrigir e adubar, busca “receitas” com os vizinhos ou com um “amigo”.

– Amostragem de solo de forma incorreta (épocas e profundidades inapropriadas, número de amostras simples insuficiente para compor a amostra composta enviada para o laboratório).

– Análise de solo incompleta, faltando textura, micronutrientes, entre outros.

– Análises de solos feitas por laboratórios não credenciados ou que não participam de programas de controle de qualidade de análise laboratorial.

– Interpretação das análises de solos e recomendações de correção e adubação feitas por técnicos que não são especialistas em pastagens, que não conhecem com profundidade as particularidades das exigências nutricionais da planta forrageira e nem da dinâmica dos nutrientes em sistemas pastoris, principalmente, por não considerar a influência do componente animal nos ciclos dos nutrientes no ambiente.

Tabela 1 - Intervalos de variação mais comuns das eficiências parciais dos componentes determinantes da Uberaba (Fazu) produção animal em pastagens adubadas com nitrogênio (N) e metas a serem buscadas no sistema de produção.

– Aplicação de corretivos e fertilizantes em excesso (é menos frequente) ou em subdosagem (bem comum). Nesse contexto, é imprescindível que a agricultura e a pecuária adotem as boas práticas de manejo no uso de corretivos e fertilizantes (BPM). BPM podem ser definidas como ações aplicadas aos recursos que tenham sido validadas pela pesquisa para proporcionar a melhor combinação entre desempenho econômico, social e ambiental. Para o manejo da fertilidade do solo, BPM se constituem na aplicação em campo dos quatro Cs (4 Cs): aplicação da fonte de nutrientes Certa, na dose Certa, no lugar Certo e na época Certa.

– A correção e adubação de pastagens já em estágios avançados de degradação. Nesse sentido, o pecuarista, orientado por um especialista, deve escolher os piquetes que reúnem as melhores condições, tais como solos profundos e bem drenados, com bom stand da planta forrageira, sem plantas invasoras e pragas de solos (cupinzeiros, formigueiros, etc.). Além dessas características, é importante adubar aqueles piquetes que já apresentam solos corrigidos e com teores de fósforo, potássio e enxofre adequados para que as respostas às adubações sejam maximizadas.

– Não saber manejar o pastejo de forma que a forragem produzida seja colhida com eficiência (Tabela 1).

– Não ajustar as taxas de lotação à capacidade de suporte da pastagem, o que resulta em condições de super ou de subpastejo (Tabela 1).

– Colocar animais de baixo potencial genético para pastejar em pastagens adubadas (Tabela 1).

Todos esses erros levam a frustrações e desânimo em relação à adoção da tecnologia de manejo de fertilidade de solos de pastagens.

Outro gargalo, e este mais atual, é a enxurrada de novas tecnologias para correção (cal virgem em doses dez vezes menores que as de calcário, calcário líquido, gesso para construção...) e adubação do solo (fontes de fósforo com polímero, fertilizantes de liberação controlada), como também para nutrição direta da planta (bioestimulantes de solo e de planta, fixadores biológicos de N para gramíneas, adubação foliar, hormônios), que têm sido oferecidas para os pecuaristas nos últimos anos.

Os agentes das indústrias que desenvolvem essas soluções sabem que a última “nova fronteira” para a adoção crescente de tecnologias é o setor da pecuária brasileira, digo aqui, as pastagens, já que os principais cultivos agrícolas já adotam pacotes tecnológicos que os colocam em situação de destaque internacional na adoção de tecnologias (café, cana-de- -açúcar, citros, eucalipto, frutíferas, hortaliças, milho, seringueira, soja), enquanto a adoção de tecnologias na pecuária, particularmente para o manejo da fertilidade do solo, ainda é baixíssima. Assim, qualquer nova tecnologia adotada pela pecuária é representativa já que a área de pastagens tem sido estimada com valores entre 172 e 200 milhões de hectares, ou seja, é um verdadeiro e grande “pote de ouro ao final do arco-íris”.

Entretanto, as ditas “novas soluções tecnológicas” que vêm sendo oferecidas pela indústria que as desenvolvem e pelas empresas que as comercializam têm de, antes de vendidas, serem, primeiro, validadas em pesquisas de longo prazo realizadas por instituições de pesquisa e ensino independentes para serem recomendadas para situações específicas. De fato, em uma série de experimentos realizados nas dependências da Fazenda Escola das Faculdades Associadas de Uberaba (Fazu), avaliando algumas daquelas novas tecnologias, em nenhum deles houve diferença significativa na resposta aos parâmetros avaliados com pastagens. Resultados semelhantes têm sido obtidos em trabalhos realizados em outras instituições de ensino e pesquisa.

Agora, admitindo-se que o programa de manejo da fertilidade do solo da pastagem seja orientado, planejado e executado corretamente, pergunta-se: é economicamente viável corrigir e adubar o solo da pastagem para a pecuária? Prometo que esse será um tema para um próximo artigo.

*Adilson Aguiar é zootecnista, consultor associado da Consupec e professor de Forragicultura e Nutrição Animal no curso de Agronomia, de Forragicultura e de Pastagens e Plantas Forrageiras no curso de Zootecnia das Faculdades Associadas de Uberaba (Fazu)