Caprinovinocultura

 

Benefícios com sistemas integrados

Manejo com rebanhos ovinos e diferentes espécies de plantas pode representar alternativa interessante de renda e diversificação

Denise Saueressig
denise@revistaag.com.br

Mais conhecidos pelos resultados com rebanhos bovinos, os sistemas integrados de produção também representam alternativa interessante para os criadores de ovinos e caprinos.

Experiências bem sucedidas vêm sendo realizadas por pesquisadores e produtores em diferentes regiões do País. Os projetos envolvem, por exemplo, o consórcio de lavoura de grãos com braquiária cultivada para o pastoreio dos animais, áreas que comportam rebanhos e pomares de frutas e até propriedades voltadas à olivicultura e onde os ovinos ajudam a limpar o terreno das plantas daninhas.

Cada sistema de integração deve obedecer as próprias regras de manejo que são fundamentais para a sustentabilidade das atividades envolvidas. O desafio é adotar práticas que possam extrair o máximo de benefícios da produção. As vantagens surgem ao longo do tempo de adoção e revelam aspectos positivos do ponto de vista ambiental e econômico.

Produtores que pretendem investir em sistemas integrados podem acessar recursos por meio das linhas de crédito oficiais que financiam a atividade, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa de Agricultura de Baixo Carbono (ABC).

A adoção da integração lavoura- -pecuária (ILP) ou lavoura-pecuária- -floresta (ILPF) não está restrita a grandes áreas ou a empreendimentos mais sofisticados. Em regiões onde predominam as pequenas propriedades, a integração demonstra uma importante capacidade de promover a intensificação sustentável dos sistemas.

Desde os anos 1990 a Embrapa mantém experimentos agrossilvipastoris em localidades do semiárido nordestino. A Região Nordeste concentra os maiores rebanhos de caprinos e ovinos do Brasil, com mais de 90% e 57% do total, respectivamente. Os estudos são financiados por recursos da Rede de Fomento ILPF. A iniciativa tem projetos em todo o País e conta com a parceria do setor privado.

Pesquisador Rafael Tonucci: integração resulta em benefícios como diversificação dos negócios, obtenção de novas fontes de renda e redução de riscos

Manejo diferenciado

Por meio dos resultados percebidos nos experimentos e dos treinade mentos nos dias de campo, os produtores recebem informações sobre manejo, características do solo, qualidade de sementes, lotação animal por hectare, planejamento alimentar do rebanho, controle de pragas em culturas agrícolas e mecanização. “São situações de maior complexidade, mas que resultam em muitos benefícios, como otimização da área, diversificação dos negócios, obtenção de novas fontes de renda e diminuição dos riscos inerentes à atividade”, destaca o zootecnista Rafael Tonucci, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos e membro da Rede ILPF. “A integração favorece todo o ambiente em que está inserida a propriedade, colaborando para a reciclagem dos nutrientes e o melhor aproveitamento dos recursos”, acrescenta o especialista.

Modelos silvipastoris adotados no Nordeste colaboram para o bem-estar dos animais e para a recuperação de áreas com pastagens degradadas

Coordenando trabalhos no Ceará e no Rio Grande do Norte, Tonucci conta que os projetos envolvem principalmente a recuperação de áreas com pastagens degradadas, onde são introduzidas espécies de árvores para a produção de madeira, como o sabiá (ou sansão-do- -campo) e plantas como feijão-guandu e capim-massai. Em áreas novas de caatinga, a integração é conduzida em paralelo com a conservação da vegetação natural, com a introdução de milheto ou sorgo, além do capim-massai para o pastejo dos animais. “Em manejos com árvores, além de haver a possibilidade de renda com a comercialização de madeira, carne e grãos, os produtores percebem melhoria do bem-estar animal com áreas de sombreamento que ajudam no ganho de peso e saúde do rebanho”, descreve o pesquisador. Tonucci ainda lembra que a árvore sabiá (Mimosa caesalpiniifolia) é de múltiplos usos, com grande potencial comercial na região, além de folhas que contêm alto valor nutricional para a dieta dos animais.

Orientação no Centro-Oeste

Em Mato Grosso, onde a ovinocultura vem crescendo tanto nas pequenas quanto nas grandes propriedades, os modelos silvipastoris também vêm recebendo atenção especial pelas possibilidades em sistemas que visam à produção de carne especialmente com a raça de ovinos Santa Inês. “São animais de fácil manejo e que se adaptam bem a esse tipo de consórcio”, observa a zootecnista Marilene de Moura Alves, pesquisadora da Empresa Mato- -grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer).

O projeto mais recente está sendo realizado no município de Poconé, em torno de 100 quilômetros de Cuiabá. Os recursos são da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat) e foram utilizados para a construção de instalações, recuperação de pastagens e de nascentes e aquisição de animais. O trabalho envolve o atendimento a oito produtores e terá duração de 24 meses. “A integração vem sendo realizada com árvores frutíferas e espécies voltadas à produção de madeira”, explica Marilene, lembrando que os produtores recebem orientação dos técnicos da Empaer sobre o manejo mais adequado às características de cada propriedade. “Além de demonstrar que é possível obter renda extra com esse tipo de diversificação, conseguimos evitar a abertura de novas áreas e práticas como o uso da queimada nos terrenos”, descreve a pesquisadora. Segundo ela, daqui a um ano, quando o projeto for avaliado, a intenção é ceder os animais reprodutores para outra comunidade.