Brasil de A a Z

 

Experiências de Montana/EUA

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brasil com Z® – Zootecnia Tropical

Frio, gado bom, pasto farto e uma pecuária competente

Amigos produtores, outubro foi mais um mês de muito trabalho de curral, principalmente com acasalamentos dirigidos. Embora algumas fazendas visitadas no início do mês ainda estivessem clamando por chuva, em outras sujei a botina de lama. Perto do final do mês, parece que já havia chovido em todos os nossos clientes, mas ainda faltava recompor o nível das aguadas naturais: algumas delas que nunca vi secarem, minguaram.

Nesse mês, fiz uma coisa diferente da minha “rotina” de trabalho pelo Brasil. Passei uma semana no estado de Montana, nos EUA, para ver o que os gringos têm feito em termos de sistema de produção e seleção. Se é para falar da experiência nessa viagem, vamos lá que a conversa é longa.

Essa empreitada surgiu de uma conversa com o Sr. Luciano Borges (Rancho da Matinha), que me dizia que gostaria de se atualizar sobre o que os americanos estão fazendo. De imediato, concordei em ser companheiro para uma viagem dessas e, assim, no dia 5 de outubro, parti com meu amigo Fabiano Araújo para o hemisfério Norte. Lá encontraríamos o Sr. Luciano perto de Nova York e, três dias depois, nos encontramos com Helder Hofig, Frederico Bessa e Vasco Neto para completar o grupo que iria dar um giro de imersão sobre pecuária. Todo o roteiro, por sinal muito bom, foi organizado por Vasco Neto, gerente da ABS Global para raças taurinas, que vive nos EUA já há alguns anos. Vasco, além de grande conhecedor de gado, entre uma cuia e outra de chimarrão, fala sobre história e das experiências em morar na Nova Zelândia e nos EUA- gaúcho de boa prosa e muito conhecimento.

No programa organizado pelo Vasco, fomos a várias fazendas selecionadoras de genética, propriedade de gado comercial, central de inseminação e associação do Simental, que roda avaliações genéticas para várias outras raças. Fomos também ao Midland Bull Test, um centro importante de avaliação para touros que realiza um grande leilão anual.

Montana é um estado pecuário, a economia gira em torno do petróleo, carvão mineral e gado de corte. É grande em extensão, com cerca de 90% da área formada por cadeia de montanhas e o restante por pradarias.

Outro ponto a ser abordado é o mito de que a pecuária daquele país é totalmente dependente do cocho: não é bem assim. Em Montana, as pastagens são bem manejadas, sendo boa parte delas natural. Vale lembrar que estávamos no Norte dos Estados Unidos, perto da divisa com o Canadá, região com fauna original composta por grandes manadas de bisão americano, além de cervídeos de grande porte.

A manutenção das vacas de muitas fazendas, durante uma boa parte do ano, é nas montanhas, em grandes extensões de pastagens naturais com suplemento de sal mineral e um tipo de proteinado ministrado em pellets maiores.

Se aqui nós temos uma seca severa, lá também chove pouco, além disso, o inverno é muito mais rigoroso. Com isso, eles se planejam e produzem muito feno para passar o inverno. Apenas uma das fazendas que visitamos não utilizava essa estratégia. A recria geralmente é feita na parte baixa, com pastagens bem manejadas, até situações com pastejo rotacionado com cerca elétrica embaixo de pivô.

Depois de parte da recria ser a pasto, aí sim a terminação ou o preparo de touros para venda é suplementada no cocho.

Com mão de obra bem mais valorizada que no Brasil, na grande maioria das fazendas quem toca a operação é a família, com ajuda de poucos funcionários. Com isso, a estrutura de maquinário, equipamentos, etc., tem que ser boa para o serviço render.

Sobre critérios de seleção, uma das características mais focadas é peso ao nascer, pensando em facilidade de parto, pois eles desafiam as novilhas em idade precoce e não devem ter o trabalho de puxar os bezerros. Outra característica de importância para eles é o marmoreio, já que existe uma classificação eficiente de carcaça na indústria, e uma remuneração bastante diferenciada por qualidade. No índice econômico de seleção para carcaça, é ponderada a área de olho de lombo, o marmoreio e a gordura de cobertura – que entra como negativa.

Outra característica muito focada, hoje a bola da vez, é a eficiência alimentar. O investimento em estruturas de growsafe para se medir a característica vem sendo ampliada nos selecionadores e nos locais de testes de performance de touros. Aliás, essa é uma tendência de toda pecuária que foca em eficiência econômica, já que a nutrição é um componente muito significativo nos custos de produção e performance para uma pecuária sustentável.

Claro que devemos considerar todas as particularidades de Montana, lembrar que a base da pecuária por lá é composta basicamente pela raça Angus e que com todas as nossas diferenças precisamos estar de cabeça aberta para aprender mais sobre pecuária e sobre a vida. Obrigado aos companheiros de viagem pela excelente experiência. Valeu amigos leitores, até a próxima!