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Bezerros recém-nascidos

5 cuidados simples que garantem bons resultados

Juliana Camargo e Larissa Salles Teixeira*

Brasil alcançou a marca de 215,2 milhões de cabeças de gado no ano de 2015, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse feito somente foi possível com práticas de manejo cuidadosas ao longo dos anos em todo o sistema e fases de criação, inclusive com o bezerro, peça-chave para alcançar resultados expressivos. Afinal, para ser eficiente não basta ter um bezerro por ano, é preciso que esse bezerro sobreviva.

Os dados mostram que cerca de 70% das mortes ocorrem nos primeiros 30 dias de vida e são decorrentes, em sua maioria, de problemas fáceis de evitar, diminuindo assim a mortalidade na fase mais crítica na vida dos animais.

Cuidados e práticas como a cura de umbigo, colostragem e vacinação são fundamentais no controle de problemas do rebanho e merecem atenção especial por parte dos pecuaristas. A seguir são apresentados os principais cuidados que se deve ter após o nascimento dos animais.

LIMPEZA DAS VIAS AÉREAS

Após o parto, é comum a vaca lamber sua cria, como uma forma de limpeza das vias aéreas superiores, facilitando a respiração do neonato. Porém, em casos em que isso não ocorre, o tratador deve estar atento e limpar a boca e narinas do animal com cuidado, se necessário, certificando-se que o mesmo está respirando adequadamente. Após esse primeiro manejo, a cura do umbigo e a colostragem devem ser realizadas.

CURA DO UMBIGO

A cura do umbigo deve ser feita o mais rápido possível, de preferência, imediatamente ao nascimento com solução de álcool iodado (5% a 10%) ou produto similar próprio para esse fim, evitando infecções bacterianas que causam as onfaloflebites, responsáveis por mortes e queda no desempenho de até 25% nos sobreviventes. Vale lembrar que ter um ambiente limpo para o parto e para a cura do umbigo é indispensável, evitando levar o animal ao curral, que é um dos locais mais contaminados da propriedade.

O procedimento correto deve garantir que todo o coto umbilical seja imerso na solução de 30 segundos a 1 minuto, de uma a duas vezes por dia durante, no mínimo, 3 a 4 dias seguidos após o parto e até que o coto esteja totalmente cicatrizado. Se a cicatrização ocorrer conforme o esperado, o coto umbilical cairá por volta do nono dia.

Em alguns animais mais sensíveis, a solução iodada pode irritar a pele e causar algumas fissuras. Produtos antiparasitários com ação larvicida devem ser utilizados para evitar as famosas “bicheiras”, pois nessas situações existe o risco de deposição de larvas na ferida através de moscas Cochliomyia hominivorax (mosca-da-bicheira).

A cura de umbigo, embora seja uma prática simples, ainda é negligenciada pelos produtores e quando feita sem os mínimos cuidados pode causar sérios prejuízos. Um grande exemplo disso é o desenvolvimento do tétano neonatal, decorrente de corte e cura realizados com utensílios contaminados, o que favorece a penetração dos esporos do Clostridium tetani. O tétano é uma doença complicada e de difícil tratamento, em que não raramente, o animal vem à óbito.

COLOSTRAGEM

O colostro é fundamental para os recém- nascidos por conter a primeira forma de imunização que será transferida da vaca para o bezerro, através da transferência passiva de anticorpos. O recém- -nascido deve mamar de 4 a 6 litros de colostro nas primeiras 6 horas de vida. Esse é o período no qual as vilosidades do intestino possuem maior capacidade de absorção das imunoglobulinas (células de defesa). A absorção diminui com o passar do tempo, cessando por completo após 24 horas do nascimento.

Além de manter o animal junto à mãe nas primeiras horas de vida, o tratador deve observar se o recém-nascido realmente conseguiu mamar. Caso a observação direta não seja realizada, é possível notar se os tetos da vaca encontram- se repletos de leite e se a barriga do bezerro está cheia ou não. Esse é um sinal indireto e que pode fornecer informações importantes sobre a colostragem.

Caso o animal não tenha conseguido mamar por alguma dificuldade ou fraqueza, o tratador pode auxiliar o bezerro direcionando o teto na boca do recém- -nascido, após contenção da vaca. E se, por algum motivo, a vaca rejeitar sua cria, ter um banco de colostro para essas situações pode ser uma boa saída.

Em algumas propriedades, onde o colostro é fornecido através de mamadeira, deve-se respeitar o mesmo tempo e quantidade necessária para a colostragem, ou seja, de 4 a 6 litros nas primeiras 6 horas de vida.

Outra função muito importante do colostro é facilitar a expulsão do mecônio (primeiras fezes pós-parto), devido ao seu poder laxativo.

OBSERVAÇÃO DIÁRIA

Após os cuidados iniciais, é importante manter a visitação diária aos bezerros para acompanhar o desenvolvimento e os primeiros sinais de uma possível doença. Animais fracos, desnutridos, guaxos, com diarreia ou qualquer outro sinal merecem atenção especial.

Nesse primeiro momento, deve-se evitar transportar os bezerros junto com animais de mais idade em currais e bretes para que não se machuquem.

VACINAÇÃO E VERMIFUGAÇÃO

Dentre as principais causas de mortalidade em bezerros, algumas doenças e problemas possuem papel de destaque, como é o caso da diarreia. Ela pode ser causada por inúmeros fatores e agentes infecciosos, dentre eles, as bactérias (Salmonella sp, Escherichia coli, Clostridium perfringens), os vírus (rotavírus e coronavírus), protozoários (eimeriose e coccidiose) ou vários desses fatores e agentes simultaneamente, agravando ainda mais o quadro clínico do animal acometido e aumentando as chances de morte e perdas significativas.

A junção desses fatores é o que acaba desencadeando a doença e predispondo, inclusive, a infecções secundárias. Um exemplo de situação em que ocorre um desequilíbrio nutricional e se torna fator de risco é quando o bezerro, em um dia, recebe muito leite e, no outro, a quantidade ingerida cai drasticamente.

Esse desequilíbrio pode ser facilmente driblado por alguns animais, mas por outros, não. Casos que ocorrem quando a Escherichia coli, por exemplo, se aproveita para proliferar e ocasionar o que chamamos de colibacilose. Outros microrganismos também podem encontrar assim situações favoráveis e benéficas à multiplicação. O Clostridium perfringens pode causar a enterotoxemia hemorrágica e a Salmonella sp causa a doença conhecida como paratifo dos bezerros.

No Brasil, tem-se encontrado ainda o rotavírus como causador de grande parte das enterites em rebanhos bovinos e surtos dentro da produção, sendo que a maior frequência ocorre em bezerros muito jovens, entre 16 e 20 dias de idade.

Dentre as diarreias causadas por protozoários, são as mais comuns: a coccidiose e a eimeriose (curso negro dos bovinos). Nessas ocasiões, o animal apresenta sinais inespecíficos e diarreias com ou sem muco, sangue e odor fétido.

O grande problema que se tem é que, quando um animal suscetível infecta-se e começa a apresentar o sinal da diarreia, ocorre uma perda muito grande de líquidos e eletrólitos, com isso, a desidratação instala-se rapidamente, dificultando a recuperação e não raramente levando à morte. Além disso, a carga infecciosa (bactérias, vírus ou protozoários) eliminada pela maior frequência de fezes no ambiente acaba contaminando as pastagens, predispondo outros animais a também terem a doença. Por isso, as condições higiênico-sanitárias da propriedade são absolutamente importantes no manejo.

E quando falamos de doenças virais e bacterianas, uma forma de prevenção que possui uma excelente relação custo- -benefício é a vacinação das vacas cerca de 30 dias antes do parto, melhorando assim, a qualidade do colostro.

Outro grupo de enfermidades no rebanho brasileiro que preocupa bastante são as clostridioses, sendo as mais conhecidas a “manqueira”, o botulismo e o tétano. Contra essas doenças, os bezerros podem ser vacinados a partir dos 4 meses de idade com duas doses em intervalos de 30 dias, e reforços anuais ou de acordo com o médico veterinário.

Com relação às endoparasitoses, o produtor dificilmente as enxerga como um prejuízo, exceto quando o animal morre. Porém, o prejuízo já vem ocorrendo desde muito antes quando o bezerro deixa de ganhar peso e abre portas para outras doenças infecciosas. A partir dos 3 meses de idade, portanto, é o momento de se atentar às verminoses que atrapalham o desenvolvimento dos animais.

Um bom esquema de controle parasitário pode ser feito no inverno, quando os animais estão mais intensamente parasitados. Normalmente os tratamentos são feitos no início, meio e fim da seca. A desverminação feita no final da seca e no início do período das águas pode coincidir com a vacinação contra aftosa e clostridioses em novembro, o que facilita o manejo do rebanho.

CONCLUSÃO

Essas cinco práticas devem ser vistas como um cuidado especial que tem potencial para evitar futuros problemas e prejuízos econômicos, não somente durante o início da vida do animal, mas também depois de adulto.

Um animal bem cuidado desde cedo garante melhores resultados e maiores lucros ao pecuarista, mantendo assim a posição de destaque da produção brasileira frente aos rebanhos do mundo inteiro. Conhecer o negócio e como ele funciona é, sem dúvidas, a base do sucesso.

*Juliana e Larissa são médicas-veterinárias e, respectivamente, gerente técnica e analista técnica da Venco Saúde Animal


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