Nutrição

 

LITHOTHAMNIUM, a força vem do mar

Angelo Boarini*

Há muito tempo existe a crença de que o futuro da humanidade passa pelo fundo dos oceanos. Dentro dessa vertente ideológica, desde os tempos mais remotos na Bretanha já se utilizam os sedimentos bioclásticos (Lithothamnium sp.) na alimentação animal e na fertilização do solo em busca de melhores resultados. Textos antigos revelam que desde o século 18 os produtores rurais do Reino Unido usam o produto com excelentes resultados.

Diversos estudos atuais apresentam os resultados da aplicação do Lithothamnium na pecuária e, hoje, ele vem sendo utilizado como suplemento alimentar na pecuária de corte e leite, bem como em aves (postura e corte), suínos e em todos os setores da produção agrícola, como complemento à fertilização dos solos. O Lithothamnium sp. é uma alga marinha pertencente à família das coralinaceas que, quando sem vida, é arrastada pelas correntes marinhas e depositada no fundo do oceano. Esses granulados bioclásticos marinhos são de composição carbonática, constituídos por algas calcárias (este grupo possui entre 31 e 34 gêneros e cerca de 300 a 500 espécies).

Essas algas vermelhas precipitam em suas paredes celulares o carbonato de cálcio e magnésio, sob a forma de cristais de calcita, contendo, ainda, mais de 20 oligoelementos, presentes em quantidade variáveis, tais como B, Fe, Mn, Ni, Cu, Zn e Mo. Usada na alimentação animal, é um suplemento alimentar equilibrado, facilmente absorvido e metabolizado pelo organismo animal, característica derivada da sua origem natural e orgânica tendo em média 94% de biodisponibilidade de seus componentes.

O produto pode ser aplicado no estado natural ou após secagem e moagem. As principais características que potencializam a atuação desse produto são atribuídas a sua alta disponibilidade dos micronutrientes que se encontram adsorvidos nas paredes celulares, sendo assim facilmente assimiláveis pelas plantas e animais. Esses oligoelementos, necessários às plantas e aos animais em pequenas quantidades, são essenciais ao nível fisiológico (reações bioquímicas de base). Além disso, a elevada porosidade das algas (> 40%) propicia maior superfície específica de atuação.

Produto possui alta disponibilidade de micronutrientes

ACIDOSE RUMINAL SUBCLÍNICA

Estudos recentes realizados na USP Pirassununga pelo Prof. Dr. Ives Bueno, Professor de Nutrição de Ruminantes - Departamento de Zootecnia, em parceria com a empresa PrimaSea, mostram que o Lithothamnium sp. vem ao encontro dos anseios da produção pecuária, pois é capaz de modular o pH ruminal entre 5,8 e 6,2 mantendo o ambiente ruminal propicio à microflora capaz de promover a degradação das fibras e produzir os Ácidos Graxos Voláteis (AVGs) com a característica de não contribuir para o aumento da osmolaridade do meio, com menor produção de gases e melhor aproveitamento da fibra. Esses AVGs constituem em 70% da energia disponibilizada aos tecidos.

Nos bovinos, a Acidose Ruminal Subclínica (ARS) traduz-se em um dos maiores desafios dos rebanhos de alta produção que consomem dietas de alto teor de carboidratos não fibrosos (grãos e cereais) como fontes energéticas e, por muitas vezes, passa despercebida em função da ausência de sinais clínicos. Todavia, o quadro pode evoluir para Acidose Ruminal Aguda, tendo como consequências timpanismos, laminites e abscessos de fígado, os quais podem levar os animais à morte em casos mais severos.

A ARS é uma doença associada ao rebanho e não ao indivíduo, seus sintomas são praticamente imperceptíveis, mas suas consequências representam grandes prejuízos em toda cadeia de produção. Estima-se que a ARS pode acometer 20% dos rebanhos comerciais causando um prejuízo de até U$ 1,12 por animal/dia em queda de produção. A minimização dessas perdas passa por controles na alimentação dos animais, na escolha dos ingredientes e utilização de insumos visando a um melhor ambiente ruminal, assim como por práticas de manejo, como a adaptação alimentar dos animais, que podem ser realizadas de várias formas.

O ambiente ruminal é composto por microrganismos que realizam a fermentação dos carboidratos presentes nos alimentos. Qualquer alteração desse meio, principalmente às oscilações do pH, pode levar a um desequilíbrio na flora levando à ARS. O líquido ruminal apresenta um pH fisiológico entre 6,0 e 7,0, que é influenciado diretamente pela proporção concentrado/ volumoso da dieta que o animal recebe.

Aditivos tamponantes têm sido utilizados na intenção de estabilizar o ambiente ruminal evitando quedas abrutas no pH. Atualmente os tampões mais utilizados no Brasil são o bicarbonato de sódio, carbonato de cálcio, óxido de magnésio e a bentonita e têm sido de utilidade na adaptação a dietas com altos teores de grãos.

Estima-se que, em gado leiteiro, uma fermentação ruminal de boa qualidade pode aumentar não só a produção de leite, mas melhorar a qualidade da produção em percentuais de gordura, proteína e lactose. Não obstante a isso, em gado de corte fica obvio que uma fêmea com melhores padrões lácteos terá um bezerro de melhor qualidade à desmama e uma boiada com maior produção energética terá melhor condição do crescimento à terminação.

Vários estudos têm mostrado que, além da porção mineral de alta biodisponibilidade, a porção orgânica do Lithothamnium, cerca de 4% de sua composição, é capaz de ativar o sistema imunológico melhorando a imunidade dos animais, atuando na prevenção de enfermidades inclusive na medicina humana.

JAZIDAS EXISTENTES

Primordialmente com jazidas na costa europeia, esse sedimento foi largamente utilizado naquele continente por séculos, e agora jazidas foram encontradas, avaliadas e regularizadas na costa brasileira, principalmente no litoral do Nordeste. Com isso, está se trazendo essa verdadeira força da natureza à superfície e colocando à disposição do produtor por meio de produtos já reconhecidos pelo Instituto Brasileiro de Biodinâmica (IBD) como insumo para qualquer produção ou atividade orgânica agrícola ou pecuária.

A existência de amplas ocorrências de algas calcárias na plataforma continental N-NE foi relatada desde a década de 1960 por pesquisadores do Instituto Oceanográfico da UFPE. O potencial de exploração econômica dos depósitos dessas algas é maior do que os depósitos franceses.

O processo de mineração é feito por embarcação especialmente projetada para essa finalidade, que retira o sedimento do fundo do oceano, a aproximadamente 30 m de profundidade, seguindo os mais rígidos critérios ambientais, trazendo-o à terra onde, em uma planta industrial específica, é moído, ensacado e colocado à disposição do consumidor final.

Enfim, essa tecnologia marinha já há tanto tempo conhecida no primeiro mundo agora se encontra à disposição do produtor brasileiro que, reconhecidamente, faz uma das mais modernas e produtivas agropecuárias do mundo com um custo- -benefício excelente, uma disponibilidade segura, natural, sustentável e ecologicamente correta.

*Angelo Boarini é médico-veterinário da PrimaSea e especialista em Produção de Animal Ruminantes