Feno e Silagem

 

IRRIGAÇÃO POR GOTEJAMENTO

Técnica ajuda a melhorar a qualidade do feno e economizar água

Rafael Martins*

A pecuária brasileira dobrou seu rebanho nos últimos 36 anos, passando de 102,5 milhões de cabeças para 204 milhões. No mesmo período, as pastagens diminuíram 8%, ou seja, no passado tínhamos 165,7 milhões de hectares, enquanto que hoje temos em torno de 152 milhões hectares em pastagens. Isso comprova que melhoramos muito nossa eficiência. Exportamos carne para mais de uma centena de países, entramos em processos de certificação e até rastreabilidade. São muitos motivos para comemorarmos pela nossa pecuária.

Ainda assim, o agro brasileiro tem também suas deficiências: há muito para evoluirmos na adesão às tecnologias, bem como a própria comunicação do setor: que não conta exatamente os “ovos que as galinhas botam”. Por isso, ainda há mitos e até desconfiança sobre a produção vegetal e animal em nosso País.

Pois bem, por isso é necessário saber valorizar e vender nossos produtos. E nossa imagem. O Brasil enfrentou uma forte crise hídrica em 2014/2015. Os homens do campo foram injustamente criticados, a agricultura e a pecuária tornaram-se vilãs no consumo de água. A sociedade urbana ainda acha que o produtor é um jeca-tatu. Não, não! É preciso esclarecer que a classe está cada vez mais profissionalizada, tanto nos aspectos sociais quanto ambientais e de boas práticas agrícolas para que tenham fazendas sustentáveis.

Foi nesse sentido que surgiu a necessidade da tecnologia de irrigação por gotejamento para pastagem. A tecnologia de origem israelense já é famosa nos campos de café, citrus, cana-de- -açúcar e grãos em geral.

Esse sistema proporciona ao pecuarista mais eficiência no uso da água (uma redução de 30% a 50%), não desperdiça e aplica de forma regular, bem como possibilita a técnica de nutrirrigação, já que o gotejador aplica os nutrientes direto na raiz, formando uma solução nutritiva para a planta. Dessa forma, ela alimenta-se mais vezes e em menores quantidades. É, amigo, assim como nós, as plantas preferem comer de forma parcelada.

Segundo Rafael Martins, o custo do sistema depende do tipo de solo, da topografia, da distância do ponto de captação de água e do tamanho da área

Em uma das nossas primeiras áreas de produção de feno (Tifton 85), a fazenda conseguiu produzir 400 fardos de 16 kg por hectare por corte, 33% a mais que o método antigo que tinha uma produção na faixa de 300 fardos. Somado ao ganho de produtividade por corte, o novo sistema possibilitou uma idade de corte menor de 45 para 35 dias, podendo chegar a até oito cortes por ano. Isso acontece por se tratar de irrigação por gotejamento em que trabalhamos com uma alta frequência de aplicação e em baixos volumes de água, com isso, temos uma melhor eficiência no aproveitamento dos recursos hídricos.

O manejo da irrigação nessas áreas está sendo utilizado através de duas formas: a primeira é seguindo o balanço climático – os dados são obtidos da estação meteorológica mais próxima (Chuva, Temperatura, ET0) e, com isso, estima-se a evapotranspiração da cultura de acordo com a fase fenológica que a mesma se encontra, ou seja, qual a quantidade de água que está sendo “perdida” desse sistema.

Já a segunda é através da tensiometria, uma ferramenta prática que mensura a umidade do solo. A tensiometria é feita com o uso do tensiometro, um equipamento simples composto por um tubo, geralmente de PVC. Na ponta desse tubo temos uma cápsula de cerâmica porosa. Esse tubo é enterrado nas profundidades de interesse, na qual desejamos medir a umidade do solo. O tubo deve ser completado com água e tampado, e após, entrar em equilíbrio com a solução do solo, medimos a pressão negativa que é gerada internamente ao tubo. Com isso, temos uma medida da umidade desse solo. Tendo em base a capacidade de armazenamento de água do solo, a evapotranspiração da cultura e mensurando a umidade do solo, conseguimos realizar um manejo de irrigação com alta precisão.

O fornecimento pontual de água e fertilizantes diretamente na região de interesse, ou seja, nas raízes das plantas, tem proporcionado uma grande economia na utilização da água e uma eficiência muito maior na utilização dos fertilizantes, principalmente quando falamos do nitrogênio. O fertilizante mais utilizado como fonte de nitrogênio é a ureia, uma fonte barata e com uma boa concentração desse nutriente. Porém, alguns cuidados devem ser tomados em sua aplicação.

A maioria das pastagens brasileiras está sob solos com baixo teor de argila, baixa CTC e pouco teor de matéria orgânica. Quando aplicamos a ureia de forma superficial, a perda desse fertilizante pode chegar a mais de 50%, ou seja, metade do que estou aplicando está sendo perdido pela volatilização. A urease é uma enzima presente no solo que tem esse papel de quebrar a molécula de ureia transformando-a em amônia, gás carbônico e água, causando altas perdas de N para a atmosfera. As principais alternativas para se reduzir a perda por volatilização são: incorporar a ureia no solo; ter uma quantidade adequada de umidade no solo ou irrigar após a aplicação desse fertilizante. Tendo isso em mente, podemos imaginar a diferença da eficiência de uma aplicação nitrogenada de forma convencional e via gotejamento subterrâneo.

Esse aumento da produtividade dá-se pelo fato de termos água e nutrientes disponíveis para as plantas durante todo o ano, o que proporciona que a cultura expresse o seu máximo potencial genético. Devido à facilidade operacional do sistema, podemos fracionar as aplicações de fertilizantes de acordo com marcha de absorção de cada nutriente, fornecendo assim o que a planta necessita em determinado momento do seu desenvolvimento. Outro benefício também é a menor incidência de pragas e doenças. Como não estamos molhando e adubando a planta inteira, mas sim a região de interesse, não está sendo criado um microclima favorável e assim teremos uma menor incidência e menor pressão de pragas e doenças.

O monitoramento das condições metereológicas é fundamental para o sucesso da fenação

De forma geral, o produtor tem um maior controle de sua produção. Como os projetos de gotejamento são fracionados em setores para serem otimizados, a produção pode ser escalonada e trabalhada de forma independente em cada setor. Outros benefícios ajudam no dia a dia do produtor como o aumento de produtividade, tanto pelo aumento de biomassa produzida em um mesmo espaço de tempo, como também pela antecipação dos cortes devido ao desenvolvimento acelerado da cultura e facilidade operacional: o sistema é bem amigável e simples de ser utilizado - a mão de obra necessária para operar esse sistema é bem menor quando comparada a outros métodos de irrigação.

Entre os benefícios, a facilidade de instalação é uma delas. Primeiro, são enterrados os tubos gotejadores, na profundidade e no espaçamento recomendados de acordo com a textura do solo, utilizando um implemento desenvolvido pela Netafim para realizar essa operação. Caso a gramínea utilizada seja estolonífera (Tifton 85, Coast Cross, etc.) recomendamos que o plantio seja realizado antes dessa operação.

Após o enterro dos tubos gotejadores, são abertas as valetas e as tubulações e os cavaletes são montados. Paralelamente a essa etapa no campo, os filtros, a bomba, o controlador e o sistema de nutrirrigação, compondo a casa de bombas, são montados. A instalação sempre é acompanhada por um técnico capacitado para coordenar as atividades, com isso, apenas há a necessidade de uma equipe para montagem, um trator para acoplar ao implemento que é fornecido e uma retroescavadeira ou valetadeira para abertura e fechamento das valetas.

O custo do sistema é bem variável, dependendo principalmente do tipo de solo, topografia do terreno, distância do ponto de captação de água, do tamanho da área a ser irrigada e do nível de automação que se deseja no projeto. Mas, de maneira geral, o sistema é amortizado de dois a três anos.

O sistema de gotejamento para pastagem é muito interessante e tem chamado a atenção de produtores de várias regiões do Brasil por se tratar de uma tecnologia sustentável, que traz mais segurança e rentabilidade ao produtor. Temos um cenário muito positivo para essa tecnologia.

O perfil do produtor que se identifica pelo gotejamento é bem variável, desde projetos com produtores mais conservadores até os de perfil inovador. De todo modo, o que deve prevalecer é o comprometimento do produtor com o equipamento. Assim como com um carro, que precisa ser seguido das manutenções e recomendações, na irrigação, isso também ocorre: a chance de sucesso do projeto é de 99%. Estamos tratando de um sistema extremamente seguro que reduz o risco do produtor e aumenta sua lucratividade.

Atualmente, o método de irrigação mais utilizado para produção de feno, quando utilizado, é por aspersão, através de hidroroll (carretel). Um método antigo e bem conservador, que possui uma baixa eficiência na aplicação de água, somado a uma baixa uniformidade de distribuição e diversas limitações em seu uso (vento, alto consumo de energia, funcionários, etc.). Os depoimentos dos produtores são claros: os problemas que eles relatavam antes, como estouro de tubulações, horário de aplicação (trabalhavam à noite constantemente), exigência de mão de obra, alto consumo de energia e problemas com deriva, hoje foram solucionados após a adoção do gotejo. Além do aumento de produtividade expressivo que mais trouxe satisfação ao cliente.

Por resultados como esse, temos de destacar sempre o papel do pecuarista, da pecuária brasileira. Esse homem do campo vem assumindo responsabilidades de produção animal que nos colocam no topo do sistema. Por isso, valorizar nossa pecuária é reconhecer o alimento que comemos no dia a dia.

Avante Brasil: que os pecuaristas continuem determinados na busca por sustentabilidade, mais tecnologia, mais genética de qualidade, mais manejo de solo e pastagem, mais sementes, mais tudo de bom que vocês fazem pela pecuária brasileira. Vocês têm a faca e o queijo na mão.


DICAS PARA UMA BOA FENAÇÃO

O processo de fenação é muito antigo e baseia-se no princípio da desidratação e redução da água livre (atividade de água) da forragem para preservá-la. Ao remover umidade da massa de forragem, evita-se que tanto os microrganismos presentes como a própria célula vegetal oxidem os nutrientes, preservando assim os açúcares e as proteínas presentes na composição da planta.

A profissionalização desse processo exige a disponibilidade de equipamentos sofisticados que procuram estabelecer agilidade na perda de água e preservação de nutrientes da massa de forragem.

A produção de feno em caráter de abastecimento da demanda doméstica em pequenas propriedades segue os mesmos princípios, porém, com operações mais simples que podem inclusive contar com utensílios manuais.

O segredo do processo está em perder água rapidamente e preservar as folhas. Para isso, deve-se evitar colher capim velho ou passado e também evitar cortes cuja massa seja superior a 2.000 kg de feno por hectare, pois a secagem será mais lenta e a qualidade, naturalmente inferior.

Depois, prepara-se com os maquinários ou terceiriza- se esse serviço: trata- -se de máquina específica e adequada. O processo é baseado nas operações de ceifa ou corte, sucedido pelo revolvimento para estimular a perda de água, sequencialmente ao enleiramento e ao enfardamento.

Boa parte do sucesso na qualidade do feno produzido depende dos tratos culturais dispensados na condução do talhão (adubação, herbicidas, manejo de corte, etc.) e da sequência de operações mencionadas. No Brasil, durante o verão, é possível produzir feno de gramíneas tropicais com cortes a cada 25 - 40 dias, após 24 - 30 horas após a ceifa da planta.

O monitoramento das condições metereológicas é fundamental para o sucesso da operação. Chuvas ocorridas durante o final da secagem são mais prejudiciais à qualidade final do feno do que chuvas no início da secagem. Feno é produto que alcança elevados preços no mercado e, geralmente, representa atividade de grande potencial em geração de receita para a propriedade. No entanto, exige disciplina incomum e controle dos processos com necessidade de investimentos em treinamento de mão de obra e equipamentos.

FIQUE ATENTO!

• Cada planta forrageira tem seu tempo de corte (exemplo: no auge do verão, temos um crescimento mais rápido): o fundamental é garantir produção e qualidade, pois é isso que o animal vai consumir.

• Aerar: deixar o material para secar vai definir muito sobre a qualidade do alimento (do ponto de vista nutricional) – se o produtor não seguir as técnicas, o alimento pode deteriorar. Uma secagem adequada permite de 10% a 15% de umidade da planta. O segredo é escolher o dia, não tendo chuva, umidade do ar alta, etc.

• Depois, ao enleirar o material com a máquina enfardadora, compacta-se e solta o fardo amarrado. A planta precisa estar bem seca, pois como o produtor fará uma pilha de fardos, começará a esquentar e se não estiver bem seco, faz combustão espontânea.

O produtor não pode esquecer que o feno precisa ter bom valor nutritivo e armazená-lo para quando não tiver mais pasto e, assim, garantir em quantidade e qualidade o que o animal irá comer nesse período, sem perder o desempenho animal.

*Rafael Martins é engenheiroagrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa; MBA em Agronegócio pela Fundação Getulio Vargas e Coordenador Agronômico da Netafim.