Materia de Capa

 

Simples e funcional

Estruturas exageradas podem ser subdivididas em outras menores e mais estratégicas

Adilson Rodrigues e Erick Henrique

A pecuária de corte tem passado por constante evolução nos últimos 20 anos e tal mudança vem impactando sobremaneira a estruturas da fazenda. Antes os projetos contemplavam grandes extensões de pastagens e, atualmente, o mote é produzir mais em menor área.

Essa cultura do exagero penalizou os currais, antes majestosos e hoje pouco funcionais, e o tronco de contenção coletivo, que promove desorganização e aumenta o risco de acidentes. Os animais também ficam estressados e sofrem lesões na carcaça que resultam em toalete no frigorífico.

A solução é a readequação do projeto, diminuindo-se o tamanho pela metade, ou até mesmo considerar a reconstrução da estrutura. “Eu mesmo quando comprei uma fazenda precisei em reconstruir o curral. Em outra propriedade que atendo havia um curral para mil animais, quando se consegue manejar, no máximo, 300 cabeças por dia”, relata o consultor da Coan Daniel Castro Rodrigues, que também é pecuarista.

Segundo o especialista, alguns detalhes fazem uma grande diferença e indica a utilização de apartadores em localizações estratégicas, o lacramento das paredes dos corredores e a instalação de porteiras que mostrem para onde o animal deve seguir.

Cocho

Depois do curral, a maior dificuldade dos pecuaristas, de acordo com o consultor, é o dimensionamento dos cochos. Normalmente, constroem as estruturas sem considerar todas as estratégias de suplementação que serão adotadas, resultando em subdimensionamento. Independente à subespécie bovina existe uma medida mínima para que não haja disputa de alimento.

Porte, chifre e idade influenciam nessa questão. Em geral, recomendam-se para suplementação proteico-energética 15 cm de área de chegada para bezerros, 20 cm para garrote e 30 cm para boi. Para mineralização, seriam 5 cm para bezerro, 10 cm para garrote e 15 cm para bois adultos. “Normalmente dimensionamos os cochos pensando na boiada”, informa o pecuarista e consultor da Coan.

A Fazenda Estrela de Pirajuí/SP, do pecuarista Artur Falavigna, não brinca em serviço no quesito cocho. A propriedade de 600 hectares trabalha no sistema de cria, com 600 matrizes Nelore e também animais meio-sangue Angus para cruzamento industrial.

Para alimentar esse rebanho, o criador enumera alguns macetes: “nós trabalhamos com cocho móvel, que viabiliza economicamente o manejo, sendo então desnecessário comprar um para cada piquete. Além disso, a capacidade do reservatório para suplementação dos animais adultos é de 200 kg e 150 kg para os bezerros”.

Falavigna utiliza cochos em formato “A” ao invés de “V”, como nos modelos convencionais, para facilitar o escoamento do sal, evitando que o mesmo fique empedrado. “Geralmente, o cocho fica perpendicular ao piquete, em 90 graus. Isso é importante para a luz do sol percorrer todo o cocho, formando menos lama”.

Cercas

Saindo do cocho, um gargalo é a cerca. O modelo convencional ainda domina os piquetes. Em um momento ou outro essa realidade poderá mudar. “As cercas convencionas gastam muitos recursos, tanto humanos quanto físicos, como mourões, arames e grampos. Tornaram-se inviáveis”, afirma o engenheiro- -agrônomo Murilo Martins Ferreira Bettarello, à frente da Via Verde Consultoria.

Entretanto, a cerca convencional ainda segue respondendo ao seu objetivo principal na contenção de gado cruzado, normalmente mais arredio, desde que planejada da forma correta. E fica a dica do consultor: o que segura um touro ou búfalo na área é um bom pasto.

Uma estratégia assertiva para conter o avanço dos animais, segundo Murilo Bettarello, é instalar uma cerca elétrica interna de dois fios, sendo o primeiro a 0,50 m do solo e o segundo a 1 m. Já as cercas de divisa podem ser convencionais, mas com um fio de choque em catracas. Alivia a pressão sobre a convencional e diminui a necessidade de manutenção.

A colocação dos mourões depende da topografia do terreno. Há casos em que funcionam bem com 25 metros de distanciamento um dos outros. “É importante pensar na cerca como uma ferramenta de manejo do pasto”, orienta o consultor da Via Verde.

E no momento de escolher os fios, sejam farpados (para cercas com mais quinas) ou lisos (para retas), nada de “jeitinho brasileiro”. O arame tem de ser específico para choque. “Temos de pensar que os arames são como tubos de um sistema hidráulico. Os tubos levam água e os arames, energia”, compara Bettarello.

Ele conta que a cerca elétrica caiu em descrédito no Brasil em virtude de desinformação e, principalmente, da venda de aparelhos ruins. Em relação à primeira parte, esclarece que, na Nova Zelândia, referência na tecnologia, os produtores preferem instalar um aparelho mais potente a promover pequenos reparos.

Quanto à segunda parte da questão, explica que, por não haver uma norma técnica no País, existem dispositivos variados e os criadores acabam comprando gato por lebre, pois cada quilômetro de raio exige 1 Joule (J) de potência. “Já vi modelos no Brasil de 0,3 J. Eu recomendo sempre potências superiores a 4 J”, denuncia.

E quando o produtor não tem ideia da potência da cerca, basta medir com um voltímetro, que deve registrar acima de 3.000 volts.

No caso de reparos, utilize mourões com isoladores.

Abastecimento de água

Além dos cochos e das cercas, bebedouros são um ponto-chave e muita vezes estão associados a uma etapa anterior: o planejamento hídrico. Água que não chega ao bebedouro, flutuador da boia travado, vazão insuficiente, esvaziamento de reservatório, tubos estourando sem motivo aparente e tubulação achatada indicam que o projeto deve ser revisto.

Segundo Murilo Bettarello, cercas convencionais tornaram-se onerosas atualmente

“Planejamento dito econômico e pautado sem aprofundamento técnico, muitas vezes gera prejuízos irreparáveis”, pontua o engenheiro hidráulico Tiago Fernandes, proprietário da Irrigaboi Consultoria e Projetos. Um ponto crucial é o cálculo do reservatório.

Posto que um bovino consome 35 litros d’água por dia, um rebanho de mil cabeças necessitaria de 35 mil litros/dia. “Uma reserva técnica ideal seria aquela suficiente para abastecê- los por cinco dias”, aconselha o especialista. Ou seja, o reservatório ideal precisaria ser de 175 mil litros. O mínimo aceito seria para três dias (105 mil litros).

Com menos que isso o gado corre o risco de esperar muito tempo para se saciar. Acostume- se a cálculos como Pressão Estática (PE), que compreende a altura do reservatório e desníveis, e Pressão de Trabalho, que considera desníveis entre a base do reservatório e a boia, perdas nas conexões e atrito. Sem esses preceitos, a chance de insucesso do projeto é certa.

Manutenção é outra questão primordial. Quando falamos de um projeto hidráulico, há de se lembrar também dos equipamentos elétricos. Motobombas e painéis elétricos são as principais fontes de manutenção de projetos hidráulicos.

Depois vêm as válvulas ventosas e tubulações (primeira interfere na vida útil da segunda) e boia. “Importante fazer manutenção preventiva e sempre manter limpa a área de captação”, aconselha o proprietário da Irrigaboi. E a maior de todas as dicas é investir em materiais de qualidade certificada.

Bebedouros

Consolidado o planejamento hídrico, o ponto crítico são os bebedouros. “Não tem segredo. O pecuarista exagera na capacidade de armazenagem de água do bebedouro. Prejudica a qualidade da água consumida e desperdiça quando os bebedouros são limpos”, aponta o engenheiro hidráulico Tiago Fernandes.

Em relação à estrutura, a mais utilizada em sistemas de pastagens ainda é a circular, contudo, há uma forte tendência para a retangular, encontrada em confinamentos e sistemas semi-intensivos a pasto. As dimensões corretas dependem do porte do animal e giram em torno de 50 a 70 centímetros de altura. Já a capacidade de armazenagem do modelo circular varia de acordo com o diâmetro.

É sabido que apenas 10% do lote dirigem- -se à água simultaneamente, então, a dica do especialista é deixar 30 cm de área de chegada por animal. Em um lote de 1.000 cabeças, seria necessário um bebedouro de três metros de diâmetro para 100 cabeças sedentes. O ideal, pensando na perda de peso, é que o animal caminhe 600 metros até a estrutura ou, no máximo, 1.100 metros.

A boia é um fator importante quando se trata de abastecimento. E assim como um aspersor, sua vazão varia em função da pressão de trabalho. O mínimo desejável são três metros de coluna d’água (mca). Com menos de dois metros ela pode não funcionar. Por fim, qualidade também é crucial. Se a água é limpa, o fator que a manterá assim é a higiene do bebedouro e da própria boia. Se houver cocho de suplementação, ele precisa estar distante 30 metros.

Curral

Adentrando ao manejo, o planejamento realizado para o curral ancora em suporte técnico e tecnologia de ponta, pois são os fatores que vão garantir a eficiência do projeto. Todavia, para que o pecuarista possa entender melhor sobre como utiliza adequadamente uma unidade de manejo, é preciso, antes de tudo, conhecer um pouco mais sobre o comportamento dos bovinos. Os animais são extremamente sensíveis a situações de estresse e ressentem- se com qualquer alteração de rotina.

Para o zootecnista e especialista em bem- -estar animal, Murilo Quintiliano, a estrutura ideal de curral é aquela que facilita o trabalho. “Termos uma estrutura para um manejo seguro e ágil é primordial para que o bem-estar das pessoas e dos bovinos seja alcançado. Para isso, temos de levar em conta as características fisiológicas, físicas e comportamentais dos bovinos”, relembra.

Alguns projetos de cerca elétrica projetos contemplam mourão a cada 25 metros

Quintiliano elenca um exemplo simples em relação às diferenças relacionadas à visão, pois bovinos possuem dificuldades na percepção de profundidade, assim o dimensionamento das estruturas deve levar em conta tal deficiência para fluidez do manejo. Por esse motivo, situação climática, raça predominante, volume de animais e número de membros na equipe levam a diferentes adaptações, entretanto, os princípios básicos são os mesmos.

O zootecnista lembra que o curral deve ser um lugar de passagem e não de estocagem. Logo, projetar, construir e adaptar as estruturas para que isso aconteça é essencial. Piquetes ao redor curral facilitam na logística de condução e espera dos animais para que depois possam retornar aos locais de origem e reduzir a pressão sobre as instalações. Um bom tronco de contenção é essencial nessa etapa.

Com instalações preparadas, é possível realizar manejos com uma equipe enxuta. “Não existe regra fixa. O mínimo de trabalhadores para um fluxo de 100 animais/hora, em uma vacinação, só para ilustrar, seriam três pessoas. Agora, se os manejos forem múltiplos, mais funcionários podem ser necessários. Gente demais sempre atrapalha e colaboradores de menos atrasa. É importante supervisão e acomodação da equipe em funções bem delimitadas”, diz Quintiliano.

O zootecnista acredita que o núcleo de manejo (seringa, tronco e brete) pode ter poucas variações, isto é, independe do tamanho do rebanho. O que irá definir o tamanho do curral é a quantidade de apartações necessárias. É muito mais barato construir cercas de arame liso em piquetes externos de espera do que manga de tábuas.

Quintiliano avalia que o conceito de currais para 1.000, 2.000 animais é ultrapassada. Com um bom planejamento na campanha de aftosa é possível processar de 500 a 600 animais/ dia, sem correria e estresse. Em alguns novos projetos, produtores conseguem fazer dois ou três currais com o material de um curral antigo daqueles tamanhos.

Seringas e pré-seringas

A regra geral para a lotação das mangas, remangas e seringa é: imagine uma quantidade de animais agrupados, então devemos ter essa mesma quantidade de espaço livre. Varia para cada categoria, mas é uma medida prática no momento do manejo e assim nunca superlotar essas estruturas. Corredores devem permitir um fluxo constante de animais e ser seguro para o trabalhador. Uma medida excelente é de 3,2 metros, podendo chegar a 4 metros em situações muito específicas. Corredores de mão dupla também podem facilitar a transição.

Apartadores

A maior questão em relação aos apartadores é a maneira como são utilizados. Evite porteiras estreitas (1,2 metros é uma boa referência) e sempre com laterais sólidas, assim a saída do gado ocorrerá naturalmente. Ele não vai procurar saídas entre as tábuas. Preocupe- -se com a facilidade de acionamento. Não existe um melhor ou pior, dependendo de cada situação, ajustes deverão ser realizados priorizando o comportamento dos bovinos e a praticidade do manejo.

Curral fixo x Curral móvel

Na opinião de Quintiliano, depende da maneira com que eles são projetados e construídos. O importante é esclarecer que estruturas móveis geralmente são mais frágeis e podem não suportar o manejo de rotina, mais intensivo, demandando maior manutenção. Em situações de fazendas muito extensivas, esse problema pode ser aumentado, devido à alta reatividade dos animais (pouco contato com pessoas).

“Acredito que as novas tecnologias e soluções estão cada vez mais disponíveis para mitigar esses problemas. Em contrapartida, em arrendamentos, por exemplo, pode ser a única solução para o manejo adequado do gado, devido à deficiência e à ausência de estruturas. É possível sim possuir vários currais fixos na fazenda, sendo que, manejos mais intensivos podem ser realizados no eleito como “principal” e, com um custo relativamente baixo, é possível ter currais satélites para manejos mais rotineiros e que demandem menor investimento”, conclui.

Tronco

Segundo os pesquisadores do Grupo ETCO (Unesp/Jaboticabal), no tronco coletivo não há controle da reação do gado, onde ele pode saltar e pular nos outros animais. Quando isso acontece durante o manejo de vacinação, por exemplo, a integridade física do rebanho e dos vaqueiros é colocada em risco. Isso apresenta um problema de bem- -estar para os animais, na forma de lesões e hematomas, e para os vaqueiros, na forma de acidentes de trabalho.

Já no tronco individual há um maior controle do comportamento bovino e esse risco pode ser reduzido, pois a contenção do animal é mais eficiente. Inclusive, pode-se conter parte do corpo do boi como, por exemplo, o pé, dependendo do manejo a ser realizado. Desse modo, facilita, sobretudo, a vida do vaqueiro durante o manejo e o deixa mais protegido das reações dos animais.

“Na prática, há evidências da redução de ocorrência de acidentes de trabalho nas fazendas. Já publicamos também trabalhos científicos que demonstraram uma melhoria na eficiência do manejo, como a redução de refluxo da vacina, sangramento no local de vacina, comportamentos (quase a zero) que colocam o vaqueiro em risco”, diz o zootecnista do Grupo ETCO, Filipe Dalla Costa.

Fragmento de um planejamento hidráulico

Embarcadouro

Você fez tudo certo até aqui: comprou ou criou bem seu rebanho, alimentou com o melhor capim, forneceu um ótimo mineral, vacinou e medicou quando devia... tudo perfeito, mas na hora de embarcar para o frigorífico, os bois só entram no caminhão se for na marra. Aí entram em cena os vilões do bem-estar animal, ferroadas, varadas e portão de guilhotina que resultam em uma grande quantidade de hematomas e penalizações no frigorífico.

Murilo Quintiliano lembra que não há uma forma única de posicionar o curral

“O curral nunca é inteligente, tampouco anti-estresse. Esses termos são jogadas de marketing que confundem a cabeça dos criadores que acabam achando que o curral faz tudo sozinho, e, portanto, não precisam se preocupar com o manejo”, afirma o zootecnista e consultor, Adriano Gomes de Páscoa. Segundo ele, o objetivo é uma instalação que torne o manejo melhor. O embarcadouro é a conclusão de todo o trabalho na fazenda, característica que demonstra a importância dessa estrutura.

O consultor assegura que a única vantagem do embarcadouro aberto é ser mais barato na instalação (mas não na vida útil). Já o embarcadouro sólido ou com as paredes fechadas apresenta a vantagem de tornar a condução dos animais a mais tranquila possível, ao evitar a distração.

“Existe uma instrução do Ministério da Agricultura que está em trâmite e recomenda rampas de acesso para bovinos inferiores a 20° de inclinação. A nossa experiência mostra que ângulos inferiores a 12° de inclinação facilitam muito a movimentação dos animais nos dois sentidos, sendo que, para a descida, ângulos muito grandes fazem com que os animais se joguem e possam causar acidentes”, revela Páscoa.

Para ele, com relação ao piso, muitos testes foram feitos e o melhor tipo de pavimentação para evitar escorregões e ainda não machucar o casco dos animais é aquele antiderrapante, com depressão de 1 cm e com canais para escoamento de água.

Dessa maneira, os bois não escorregam e ainda se facilita a lavagem. A largura de 85 cm satisfaz a maioria das necessidades, mas em fazendas que trabalham com matrizes e touros, devem ter largura de um metro. No caso de bezerros, não pode passar dos 50 centímetros.

“O número de funcionários necessários para o embarque de bovinos irá depender do tamanho do lote e praticidade das instalações. É importante que cada grupo de animais seja conduzido de forma calma. Pode-se utilizar um manejador à frente do lote que está sendo conduzido, na forma de ponteiro, e mais um ou dois na condução atrás do lote, onde um vaqueiro leva até a área de embarque e o outro conduz da rampa ao interior do caminhão”, aponta Filipe Dalla Costa, zootecnista e pesquisador do Grupo ETCO.

Como o embarcadouro está todo fechado, a única maneira de o vaqueiro guiar os animais do jeito mais apropriado é pela plataforma lateral, utilizando-se de bandeira de manejo. Dalla Costa diz que esse sistema funciona como uma área de fuga para o vaqueiro e é extremamente importante para o manejo, porque ele pode continuar a condução dos animais de forma segura, protegido pelas paredes. Além disso, essa plataforma evita o contrafluxo de pessoas e animais nas instalações de embarque.