Entrevista do Mês

 

Genética Moderna

Há 20 anos buscavam-se animais mais pesados. Hoje, deseja-se gado mais compacto, abatido no máximo aos 30 meses a pasto e entre 20 e 24 meses com confinamento. Quem fala sobre o papel da genética nessa história é José Bento Sterman Ferraz, médico-veterinário, mestre e doutor em Genética e professor titular da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP.

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG – Qual sua avaliação sobre o melhoramento de bovinos de corte nas últimas duas décadas?

José Bento – Houve um avanço extraordinário. O surgimento de computadores rápidos, com grande capacidade de memória e baratos, além de sistemas operacionais que permitem o acesso a uma quantidade de memória inimaginável há 25 anos deu a oportunidade para os geneticistas resolverem sistemas de equações gigantescos. As metodologias de análise genética evoluíram muito, permitindo que os valores genéticos aditivos, expressos, no caso dos bovinos de leite, como PTA (predicted transmiting ability) ou como DEP (diferença esperada de progênie ou expected progeny difference, na sigla em inglês), em bovinos de corte EPD, fossem estimados de maneira mais próxima da realidade. Valores genéticos aditivos são, em última análise, aquilo que um animal tem para transmitir para sua descendência.

Revista AG – Mas, também existiram outros fatores envolvidos?

José Bento – Cresceu também graças às implantações de dezenas de programas de avaliação genética pelas associações de criadores, empresas, grupos de empresários e até mesmo rebanhos isolados. Quando esses programas se instalaram, os pecuaristas começaram a organizar-se e entender que as avaliações genéticas fornecem informações essenciais para a escolha dos animais que serão os pais das gerações seguintes e descarte de animais inferiores. Como consequência, os compradores de material genético (reprodutores e matrizes, sêmen e embriões) passaram a dar valor a elas. O melhoramento genético no gado de leite foi espetacular nesses 20 anos, mas o gado de corte está apresentando ganhos semelhantes. A evolução dos zebuínos no período também impressiona! E esses avanços aceleraram-se com o uso maciço da IATF, que em 2016 computa a geração de mais de 4 milhões de bezerros.

Revista AG – Onde você crê que a pecuária mais evoluiu nos testes de progênie?

José Bento – Esse é um ponto muito importante. Teste de progênie é um complemento da maior importância para os programas de avaliação genética. As DEPs (ou PTAs) são estimativas do valor do gameta médio. São excelentes, mas a elas estão associadas margens de erros intrínsecas ao processo de estimação (acurácia). Animais com poucas informações têm acurácia baixa. Animais de acurácias medianas (30 a 70%) apresentam risco médio. Acontece que o número aproximado de pares de genes de um bovino é na ordem de 24.500. Os cromossomos herdados do pai e da mãe sofrem um processo de recombinação e o número de possíveis combinações gênicas de um espermatozoide é 224.500. As possibilidades em um óvulo são as mesmas. E os gametas têm de se unir, o que leva a um número de combinações quase infinito. Enfim, é impossível prever com precisão quanto um reprodutor tem a transmitir para os filhos. Com isso, aplica-se o teste de progênie em touros candidatos a serem os melhores de uma safra (uma percentagem mínima, abaixo de 1%). Desses, cerca de 10% apenas são “aprovados”. Esse processo é muito caro e depende da confiança que os pecuaristas têm no programa. Também há estudos que mostram que um grupo de touros jovens pode apresentar acurácia superior a de um touro provado.

Revista AG – Os touros ditos avaliados hoje estão valendo uma boa grana. A “eletização” do touro provado preocupa?

José Bento – Dos animais escolhidos para teste de progênie, que já representam, no máximo, 1% dos nascidos, menos de 10% são aprovados (ou seja, 0,1%, um em cada mil nascidos). Desses, raros passam de 200.000 doses de sêmen vendidas na vida. Um touro de R$ 2 milhões teria de vender 100.000 doses a R$ 20,00 para pagar o investimento inicial, sem contabilizar os demais custos associados, então, dificilmente um touro nesse valor se paga. Vamos nos espelhar no maior programa de avaliação genética do mundo, o da raça Angus, nos EUA. O touro mais caro na história do estado de Montana saiu por US$ 350.000,00. Uma raridade! Normalmente, touros de altíssimo valor genético são vendidos entre US$ 30.000,00 e 80.000,00. Um touro deve ser considerado de “Elite” quando é absolutamente excelente como transmissor de genes para seus filhos. Nunca porque alguém, em uma avaliação visual, diz que ele é de Elite.

Revista AG – Muito se tem discutido que um touro não pode ter apenas números, mas também raça. Você concorda?

José Bento – Concordo parcialmente. O comprador de material genético não busca aparência e sim produtividade. Se o touro tiver genética para transmitir características produtivas importantes, sou totalmente a favor da seleção racial. Entretanto, países conceituados quanto à produtividade de carne e leite, Austrália e Nova Zelândia, dão pequena importância à caracterização racial. As associações de criadores precisam começar a se voltar à necessidade de seus clientes. Há 15 anos, no mercado de sêmen nacional, cerca de 90% das vendas eram de “touros pista”, selecionados pela caracterização racial, e os 10% restantes “touros prova”, com avaliação. Hoje, é essa proporção é de 95% para “touros prova” e 5% para “touros pista”. Aí desafio: indiquem-me cinco “touros de milhão” campeões em vendas de sêmen (mais de 200.000 doses).

Revista AG – Outro fato que tem gerado muita discussão é o marketing demasiado em torno do touro TOP 0,1%...

José Bento – Isso é um problema sério. O animal é top para quê? Normalmente, o é para um índice empírico proposto por alguém com a louvável intenção de abranger toda a cadeia da pecuária. Alguns índices genéticos incluem características em demasia. Quem tem focos demais, não tem foco algum. Para piorar, esses animais top são comparados com toda a população. Porém, é injusto confrontar um animal nascido na safra 2014 com um da safra 1994, 20 anos antes. É óbvio que o de 2014 precisa ser melhor, caso contrário, não houve seleção. A cada safra, a média da população selecionada muda e, portanto, o nível de corte de animais top também sobe. E top para quem tem pastagem oriunda de ILP é diferente do top para quem possui pastos de 25 anos em terreno superarenoso.

Revista AG – E se pudéssemos dividir a escolha de um touro em duas etapas. Em um primeiro momento, quais características seriam priorizadas?

José Bento – Ninguém comeu e nem vai comer carne de um bezerro que não nasceu. A fertilidade é a característica mais importante. Utilizar touros excepcionais para precocidade sexual (somente dois programas de seleção apresentam DEPs para essa característica essencial) não significa somente possuir novilhas sexualmente precoces aos 14 meses, mas também que todas as fêmeas de reposição estarão sexualmente ativas no começo da estação de monta. Além disso, peso à desmama, ganho de peso pós-desmama e gordura de cobertura são características essenciais a qualquer rebanho.

Revista AG – Já em um segundo momento, aí sim seriam relevadas as características de interesse em cada plantel?

José Bento – Ai já estamos falando de sintonia fina. Depende se o criador vai focar na terminação (eficiência alimentar, por exemplo), na qualidade da carne e carcaça (medidas de ultrassom, maciez e carne) ou produção de novilhas de reposição.Para cada caso, haverá uma decisão sobre os objetivos e critérios de seleção.

Revista AG – Recentemente, realizamos aqui na AG o TOP 100 – Os maiores vendedores de touros do Brasil. Um fato que chamou a atenção é que muitos dos criadores estão usando até três ou quatro programas de avaliação genética. Falta sintonia entre os programas existentes?

José Bento – A resposta é absolutamente sim. Os critérios de cada programa, as bases genéticas e os parâmetros genéticos são diferentes, por isso touros mudam de classificação entre os programas. Mesmo assim, um touro bom em um programa dificilmente será considerado mediano ou ruim em outro. Essa avaliação depende muito da vaca na qual o touro foi testado, da quantidade de filhos existentes e de rebanhos. Por que usar vários programas? Para classificar animais em vários sumários? O pecuarista pode estar se confundindo e até prejudicando seu cliente.

Revista AG – Mas o gargalo de hoje seria o mesmo do passado: o maior foco no ganho em peso?

José Bento – Devemos tomar cuidado com o ganho de peso. O foco quase exclusivo nessa característica levou-nos a animais altos, sexualmente tardios, de deposição mais demorada de gordura, inadequados à produção moderna de novilhos de corte, em que se deseja um animal de 19@ acima, com no máximo 30 meses a pasto e 20 a 24 meses no confinamento. O que precisamos é produzir animais que se enquadrem na cota Hilton, carne de qualidade.

Revista AG – Na raça Nelore, em especial, observa que as DEPs de fertilidade e habilidade materna estão em um bom nível ou elas precisariam ter maior peso na classificação do touro nos sumários?

José Bento – Para que serve uma vaca Nelore? Ela é a matriz da pecuária de corte brasileira. Ela têm que ser fértil, precoce sexualmente, ser recriada nos melhores pastos da fazenda para poder demonstrar todo seu potencial. Que programas fazem avaliação de DEP para fertilidade e precocidade? Só dois. E para materno total, potencial de desmama das filhas de um touro? Poucos. Antes de darmos maior peso a essas características essenciais, temos de disponibilizar as avaliações. É óbvio que essas características são absolutamente básicas.

Revista AG – Em 2015, você sacudiu o mercado ao dizer que genética velha não gera touros bons, fazendo referência a reprodutores com dose de sêmen em torno de R$ 350 ainda em estoque nas centrais. O que você constatou nesse trabalho?

José Bento – Eu vou, então, voltar a sacudir o mercado. Estive olhando os touros famosos, disponíveis nas centrais de inseminação artificial do Brasil, com uma média de mais de 20 anos de idade e altos preços de sêmen. Eles foram espetaculares para fazer a base de nosso rebanho, mas utilizá-los hoje é não reconhecer que o mercado mudou e que os critérios mudaram. Todos eram ganhadores de peso, critério de eleição na época, mas acabaram gerando animais tardios tanto sexualmente quanto no acabamento. Sustento isso em todas as discussões. Usar um touro desses e pagar caro pela dose de sêmen (o pessoal de FIV faz isso frequentemente) é o mesmo que pagar mais caro por um VW Santana 1996 do que um Honda Civic só porque ele era um dos melhores carros naquela época.

Revista AG – Em um ano os criadores reverteram um pouco essa situação ou continuam insistindo no erro?

José Bento – A compra de material genético tem efeitos de longo prazo. Mas também podem ser revertidos em tempo relativamente curto. Criadores de gado leiteiro acasalam, por exemplo, vacas com problemas de inserção de tetos com touros que consertam esse defeito e, em uma geração, já colhem os resultados. Com gado de corte, deveríamos fazer o mesmo. Os maiores vendedores de touros Nelore do Brasil acasalam vacas de maneira individual, visando produzir touros com DEPs mais altas e que terão melhores preços quando comercializados. Tudo na pecuária é de maturação mais lenta. Uma geração, em média, somando-se machos e fêmeas de bovinos de corte, é de sete a oito anos. É necessário pensar a longo prazo.

Revista AG – No gado taurino (em especial a raça Angus, que vem mantendo- -se na ponteira) são vistos esses mesmos problemas discutidos no zebu?

José Bento – Temos de aprender muito com eles. Os critérios que os criadores da Austrália e Estados Unidos usam são altamente técnicos. Todos sabem interpretar uma avaliação genética e escolher seus touros visando ao melhor bezerro. Touros mais velhos saem do mercado todas as semanas, porque existem novos entrando, possivelmente melhores e mais adequados, sempre. Eles são muito mais técnicos e menos apaixonados e tradicionalistas. Não são todos, mas os principais.

Revista AG – Para finalizar, genômica! Essa é uma tecnologia que veio para ficar?

José Bento – Eu não tenho a menor dúvida. Uma tecnologia que está chegando, ainda precisa amadurecer no Nelore, mas possibilita um enorme efeito no aumento da acurácia das avaliações, diminuindo o risco da escolha de touros, pois tourinhos jovens terão a acurácia de touros com 15 ou mais filhos, dois a três anos antes. O perigo é passarmos a recomendar o uso de touros não avaliados, mas que tiveram seus valores genéticos estimados pela genômica. Na raça Angus já se faz isso, mas as equações de predição foram baseadas em mais de 230.000 animais genotipados e fenotipados. No Brasil, ninguém tem mais de 10.000 animais nessas condições, mas, erroneamente, já se comercializam animais com “DEP genômica” e alguns chegam a tentar convencer criadores a selecionar apenas com base nisso. Vamos chegar lá, mas, com absoluta certeza, ainda não temos informações suficientes.