Confinador

 

PECUÁRIA INTENSIVA

9a Interconf reúne elos da cadeia produtiva e reforça as necessidades e desejos do consumidor atual por carne

Fernando Saltão*

Neste ano, foi incorporada uma série de novidades na 9ª edição da Conferência Internacional de Pecuaristas (Interconf). Tratou-se de assuntos estratégicos com o foco na busca do consumidor no momento de comprar e o que o mercado deseja para que o produtor planeje o negócio e direcione a produção. Além disso, os participantes tiveram a oportunidade de avaliar exemplos reais de aplicação de tecnologia ao acompanhar casos efetivos de práticas produtivas que apresentaram resultados econômicos em projetos pecuários.

Novas tecnologias na produção, fortalecimento da comunicação para a cadeia produtiva e para o público final, coordenação entre os vários segmentos da pecuária e abertura de mercado são alguns dos pilares da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon). Juntos somos mais fortes e precisamos trabalhar para equacionar os gargalos e aproveitar as oportunidades para a carne brasileira.

É muito produtivo e efetivo dedicar parte da programação para esses estudos, por ser uma oportunidade de avaliar práticas já validadas. Com certeza, os participantes conseguiram medir se a tecnologia é aplicável no dia a dia. Com isso, a contribuição é para o fortalecimento da cadeia produtiva da carne bovina.No balanço geral, a Interconf destacou um extenso conteúdo sobre como ligar o produtor ao que o consumidor compra, apresentando as necessidades e seus desejos sobre a carne bovina (preço, qualidade e disponibilidade), além de entender a dinâmica do mercado mundial de carne, o que produzimos e para onde vai.

A força política da Assocon também foi destacada na Interconf, com a presença do ministro interino da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Eumar Novacki. Com o lema “Um Brasil mais simples para quem produz. Um Brasil mais forte para competir”, Novacki detalhou o plano Agro+, iniciativa do Ministério para não apenas deixar de atrapalhar a produção, mas contribuir para o seu fomento.

O ministro destacou que o Mapa recebeu 315 demandas das várias cadeias produtivas do agronegócio, inclusive a pecuária, para destravar processos e desburocratizá- -los. Em um primeiro momento, o Governo solucionou 69 itens, gerando economia de até R$ 1,5 bilhão ao campo. Ele informou que em 100 dias haverá 250 soluções devidamente implementadas.

A Interconf 2016 reuniu mais de 1.100 participantes – pecuaristas, empresários, indústrias, técnicos, consultores, estudantes e representantes dos vários elos da cadeia produtiva e de todas as regiões do Brasil e, inclusive, do exterior. A união dos vários elos da cadeia da pecuária de corte é o caminho para a atividade avançar em produtividade, eficiência e gestão, fortalecendo-se no mercado interno e ampliando a presença no cenário internacional. Além disso, mais de 400 produtores e técnicos participaram do Encontro da Pecuária Eficiente, evento Pré-Interconf, que teve como tema a fase de cria.

Programação diversificada

Um dos destaques foi a professora doutora Marcia Dutra de Barcellos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que destacou a maior exigência dos consumidores nos últimos anos graças, especialmente, ao acesso à Internet, ao fluxo contínuo de informações digitais e à maior conectividade entre as pessoas. As exigências por qualidade são cada vez maiores e a cadeia da carne precisa estar preparada para isso. Já temos no País sistemas inteligentes de monitoramento da produção e identificação dos animais e a tendência é que isso chegue às gôndolas.

O painel de tendências do consumo de carne bovina contou, também, com apresentação de Raquele Rabelo, diretora da agência Lew’Lara TWBA, que mostrou o case de criação e fortalecimento da marca Friboi. Entre outros aspectos, a pesquisa realizada pela empresa mostrou que a carne é um produto que tanto a mulher quanto o homem não abrem mão. Não se constrói uma marca do dia para a noite. O projeto já entra no quarto ano. Além disso, como parte do trabalho, foi criada a plataforma digital Academia da Carne Friboi, que efetivamente ajuda a mostrar um outro lado da marca e possibilita a maior aproximação com o consumidor ao compartilhar aproveitamento na cozinha de cortes não tradicionais por meio de receitas práticas e porta-vozes para três grandes públicos: donas de casa com receitas do dia a dia; Youtubers para os conectados nas mídias digitais e interessados em culinária e chefs gourmet com receitas mais elaboradas.

Fábio Gregol, dono do restaurante Toro Parrilla, de Brasília, falou sobre hábitos de consumo para carnes especiais, com destaque aos tópicos necessários para que a carne brasileira tenha alto padrão de qualidade. Ele afirmou que restaurante não vende somente carne; vende atenção ao seu cliente. Gregol também destacou que investe o seu tempo para entender os hábitos dos consumidores e, assim, oferecer o melhor serviço.

Alcides Torres, diretor da Scot Consultoria e presidente da Associação dos Profissionais da Pecuária Sustentável (APPS), também foi destaque na 9ª Interconf. Ele informou que o Brasil produz ao redor de 9,5 milhões de toneladas de carne bovina por ano, sendo 3,7 milhões de toneladas de cortes dianteiros; 4,6 milhões de toneladas de cortes traseiros e 1,23 milhão de tonelada de ponta de agulha. A questão deixada por Torres é: como comercializar esses volumes da melhor maneira possível com rentabilidade e diversificação.

Leonardo Alencar, gerente executivo de inteligência de mercado na Minerva Foods, destacou que o mesmo movimento de baixa do rebanho brasileiro é verificado em termos mundiais, porém, a vantagem brasileira é o aumento da produtividade. A tendência da demanda é crescente. Os principais fatores de aumento do consumo permanecem, segundo Alencar. É o caso da ocidentalização, urbanização nos países asiáticos, crescimento populacional global e aumento de renda. Ou seja, trata- -se de excelente oportunidade para o Brasil. O cenário é otimista para a próxima década.


Exportação para os EUA abre boas perspectivas

O Brasil é líder mundial na exportação de carne bovina. Em 2015, foram comercializados US$ 5,94 bilhões, com a venda de 1,4 milhão de toneladas, e a expectativa para este ano é superar esse resultado, de acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Entre janeiro e julho de 2016 (últimos dados disponíveis), o resultado em volume cresceu 10%. O início dos embarques para os Estados Unidos, ocorrido em setembro, abre perspectivas muito promissoras para a carne brasileira. Os EUA são o maior mercado consumidor do mundo e a presença da carne brasileira naquele país chancela a venda para outras nações até então não atendidas, como Japão, México, Canadá e Coreia do Sul. É importante ressaltar que, até agora, nossa carne era exportada para apenas 50% do mercado mundial. Mesmo assim, o Brasil é líder mundial.


Segundo Marcia, a carne bovina trabalha para acompanhar as mudanças no consumo

Outro convidado foi Alisson Navarro, diretor de Exportação da Marfrig Foods. Ele assinalou que novos mercados, como os Estados Unidos, que acabam de receber os primeiros embarques de carne brasileira, representam uma injeção de ânimo na cadeia da carne brasileira. Até agora, o Brasil exportava para apenas 50% do mercado comprador mundial. Com a entrada dos EUA, ampliamos o potencial de vendas e atraímos outros países. O futuro é promissor para a carne nacional.

Matthew George deu dicas de como a Austrália tornou-se referência mundial em carne bovina

A economista Zeina Latif, da XP Investimentos, levou o cenário econômico para a Interconf. Ela defende que o mercado doméstico é que vai salvar o País neste momento tão difícil. Ela entende que a situação econômica brasileira é tão grave que não dá para depender do crescimento das exportações para a retomada. Internamente, somos mais de 200 milhões de consumidores. Porém, não se pode esquecer que há mais de 12 milhões de desempregados nesse momento. A recuperação da confiança dos brasileiros é o primeiro passo efetivo para uma onda positiva na economia.

Zeina entende que o pior já passou e que há sinais de melhoria em vários indicadores. Para a economista, os próximos movimentos estão nas mãos do governo. O desafio agora é retomar a normalidade, com superação da crise fiscal, redução da inflação, refluxo da taxa de juros e volta aos trilhos da economia. Atingindo esses objetivos de médio prazo, o Governo Temer já terá feito muito.

Gustavo Figueiredo, sócio da consultoria Agrifatto, mostrou que economia em queda tem relação direta com redução do consumo. No caso da carne bovina, isso significa disputar a preferência com outras proteínas animais. Assim, os pecuaristas precisam estar mais conectados do que nunca aos indicadores do mercado para não perder rentabilidade. É preciso estar conectado para entender os movimentos do negócio. A definição dos preços do boi gordo, por exemplo, depende de uma série de fatores, como o consumo de carne bovina, o desempenho das exportações, o ritmo de abate dos frigoríficos. Se o pecuarista quer vender pela melhor cotação possível, tem de acompanhar o vaivém do seu negócio.

A Austrália é o terceiro maior exportador mundial de carne bovina, atrás do Brasil (líder) e dos Estados Unidos. Além dessa importante presença no comércio internacional, o país da Oceania tem sua imagem associada à carne de qualidade. Internamente, faz um excelente trabalho de congregação dos pecuaristas, indústria e varejo. A 9ª Interconf recebeu Matthew George, diretor da Bovine Dinamics Consulting, para falar sobre o segredo da Austrália e o que o país tem a ensinar à cadeia da carne bovina brasileira. Ele comentou que o maior mérito da Austrália é entender as expectativas dos clientes e estruturar-se internamente para fornecer os produtos que os importadores desejam. A união da cadeia é vital nesse projeto. Apenas com a junção dos interesses coletivos é que a pecuária australiana atingiu o nível de eficiência atual, seja segmentando grupos de animais em diversos nichos, seja ajustando à produção ao vaivém do mercado, mesmo considerando uma estiagem prolongada.

A mensagem de Matthew George respondeu vários questionamentos de Elton de Mattos Silva, professor associado na Fundação Dom Cabral, que discutiu na Interconf os caminhos para a venda da carne brasileira com eficiência, tanto em volume quanto em quantidade. Ele disse que qualquer um pode comprar o seu produto, mas você precisa entender as percepções que geram valor ao cliente para desenvolver sua estratégia de atendimento, marketing e produção. O conselho número um é exatamente este: estabelecer com clareza quem é o cliente e se preparar para responder com assertividade aos seus desejos.

Fortalecimento da carne brasileira

O trabalho realizado pela Assocon, promotora da Interconf, foi destacado na 9ª Interconf. Foi uma espécie de prestação de contas da entidade ao mercado. Destaquei o trabalho realizado pela entidade nos últimos meses, focado na valorização da carne brasileira tanto no mercado interno quanto no comércio internacional. Uma das lutas da Assocon é a abertura de mercado. O desafio da vez é fazer o Brasil participar da Cota 481, da União Europeia.

*Fernando Saltão é CEO da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon)


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