Carne Angus

 

Angus vai se tornar commodity?

José Roberto Pires Weber*

A expansão no uso da genética Angus no Brasil pode fazer com que alguns se perguntem: será que uma hora dessas o Angus vai virar commodity no Brasil? A resposta vem com uma breve reflexão e simples equações matemáticas. Comercializamos em 2015 mais de 4,2 milhões de doses de sêmen Angus (50% de todo sêmen de corte consumido no Brasil) e vendemos um volume próximo a 10 mil reprodutores. Esses números nos permitem produzir pouco mais de 3 milhões de bezerros com genética Angus ao ano, ou seja, 6% da safra nacional de 48,2 milhões de terneiros.

Dessa forma, há de se convir que falta muito tempo para que deixemos de ser uma produção pecuária de nicho e, por isso, com valorização diferenciada de mercado, que não é sustentada apenas pela baixa oferta ou escassez de animais, mas também por sua qualidade e demanda crescente pelos consumidores. Cenário ainda mais distante se for observada a taxa de inseminação no País, algo próximo a 10% das matrizes. Sabendo-se que commodity é um bem produzido em larga escala, com características físicas homogêneas e preço regrado unicamente pelas leis de mercado, seria preciso elevar as pretensões de expansão da Angus à escala exponencial para atingir tal status.

Mas é importante atentar para a provocação que está por trás dessa pergunta, insinuada recentemente em artigo publicado na coluna “Caindo na Braquiária”, na edição de setembro aqui da Revista AG. Sim, a Angus está em franca expansão e isso chama a atenção de muita gente. Porém, não crescemos a ponto de deixar os criadores – razão máxima da existência da Associação Brasileira de Angus – sem respaldo nem direito à informação. Por isso, é preciso esclarecer outras questões constantes no mesmo artigo.

Diferente do publicado, a Associação Brasileira de Angus não suspendeu o pagamento de bonificações a nenhuma categoria de animais no escopo do Programa Carne Angus Certificada. O que ocorreu foi que, por uma conjuntura de mercado e decisão própria, a JBS deixou de comprar animais Angus inteiros dentro do protocolo de premiação Angus. Tais animais seguem sendo recebidos pelo frigorífico, mas passam, agora, a ser enquadrados nas marcas Grill e, dessa forma, recebem bonificação por meio do protocolo de premiação Sinal Verde. No fim das contas, isso significa que apenas uma empresa das dez que integram o programa decidiu rever seus processos, o que, é importante que se diga, é direito dos frigoríficos e está claramente expresso nas regras do Carne Angus.

Prova disso é que as indústrias praticam bonificações diferentes, podendo o produtor escolher a qual delas entregar o seu gado. Marfrig, Minerva e outras indústrias seguem normalmente adquirindo Angus inteiros e agregando valor aos produtores no momento da comercialização, atingindo sobrepreço de até 7% para essa categoria de animais. É verdade que a mudança nas regras da JBS pode promover algumas migrações de mercado, mas isso faz parte do jogo. É o que chamamos no mercado de livre concorrência.

O importante é reforçar que o Carne Angus prima pelo trabalho dos 5 mil pecuaristas que adaptaram seus métodos de produção para se enquadrarem nos rígidos padrões de qualidade do programa ao longo de seus mais de dez anos de atuação. O Programa Carne Angus trabalha com apenas um objetivo: elevar a lucratividade da cadeia da carne. Além da rentabilidade no gancho, os ganhos de produtividade ao utilizar o cruzamento Angus x Zebu no campo são notórios. Ciclo mais curto, maior ganho de peso, precocidade de terminação e fertilidade complementam o pacote de vantagens dos usuários da genética Angus. Um mix que, somado aos ganhos das premiações concedidas pelos frigoríficos, faz esse cruzamento imbatível.

Enfim, não há como negar os avanços da raça, o crescimento do rebanho e a forma como o cruzamento industrial vem preteando o rebanho do Brasil Central. Ações essas que refletem um trabalho incessante de fomento. Contudo, estamos longe do momento da supremacia e muito menos de uma banalização como se quer fazer crer. Crescemos porque dentro da porteira nossa raça produz resultado. As premiações são o reconhecimento pela qualidade que a Angus produz no campo. A raça é um grande negócio e o fomento continuará. Nosso objetivo não é apenas conquistar o mercado e o paladar dos consumidores do Brasil e do mundo custe o que custar. Antes de qualquer coisa, a Angus é uma associação de produtores e é pensando na atividade deles que solidificamos nossos projetos de futuro.

*José Roberto Pires Weber é presidente da Associação Brasileira de Angus