Raiva Bovina

 

GRANDE ALIADO

Probiótico potencializa a produção de anticorpos antirrábicos em bovinos

Cristina C. A. Vella Bonancéa*, Renata Maria B. V. Martino*, Thaís Cristina S. Geroti**, Profª. Dra. Neuza Maria Frazati-Gallina*** e Prof. Dr. Hermann Bremer-Neto***

A raiva é uma enfermidade infecciosa viral causada pelo vírus da família Rhabdoviridae e gênero Lyssavirus. No Brasil, a raiva é endêmica e variantes do vírus têm sido identificados em canídeos silvestres e saguis, além de morcegos. Os morcegos hematófagos, especialmente Desmodus rotundus, são os principais reservatórios do vírus na América Latina, sendo os principais transmissores para os herbívoros.

Essa enfermidade é uma das principais zoonoses mundiais, causa encefalite fatal, acomete todos os mamíferos, humanos e animais, e tem ampla distribuição geográfica. Durante o ano de 2012, foram notificados oficialmente no Brasil 1.435 casos de raiva em bovinos, contabilizando-se somente aqueles diagnosticados em laboratórios oficiais e credenciados. No entanto, dados da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul indicam a ocorrência de aproximadamente 4.000 casos de raiva bovina entre janeiro e junho de 2013.

A vacinação é o melhor método de controle da raiva, por ser efetiva e de baixo custo e a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a avaliação da imunidade antirrábica pela titulação de anticorpos, visando avaliar o estado imunitário, indicando se o mesmo é o suficiente para proteger indivíduos expostos ao risco de infecção.

No Brasil, muitos autores relatam ser comum ocorrer a ineficiência da imunidade na primeira vacinação dos animais, chamada primovacinação, mesmo com seus valores antigênicos dentro dos parâmetros de normalidade. Diante desse fato, é necessário buscar alternativas para aumentar a eficácia da vacinação contra o vírus da raiva.

Uma das estratégias para aumentar a resposta imunológica dos animais à imunidade induzida ou às infecções provocadas por vírus ou bactérias é o uso de suplementos alimentares, como os probióticos, o que tem revelado melhora na restauração da resposta imunitária e na potencialização de vacinas em relação a diversos agentes patógenos.

Probiótico é um microrganismo vivo, não patogênico e que resiste à digestão normal de monogástricos e poligástricos e ao chegar vivo ao intestino, tem um efeito positivo na saúde do hospedeiro, devendo para isso ser consumido regularmente e em quantidades adequadas. A palavra probiótico é de origem grega e significa “pró-vida”, sendo o contrário de antibiótico, que significa “contra a vida”.

Devido à importância da raiva, como uma das principais zoonoses mundiais, estudos vêm sendo realizados na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), Presidente Prudente /SP, visando avaliar o efeito da suplementação com diferentes concentrações de uma associação de micro-organismos probióticos adicionados à mistura mineral, na resposta imune humoral de bovinos primovacinados com vacina antirrábica.

Para isso, foram utilizados 56 bovinos machos não castrados, puro de origem (PO), da raça Nelore, com 12 meses de idade e divididos aleatoriamente em quatro lotes de 14 animais cada, sendo: lote controle, onde os animais foram suplementados com 70 gramas de mistura mineral/animal/dia e nos demais lotes foi adicionado na mistura mineral 2, 4 e 8 gramas de uma associação de micro-organismos probióticos.

A associação de micro-organismos probióticos utilizados foi composta por Lactobacilus acidophilus (2,2 109 UFC/kg), Estreptococus faecium (2,2 109 UFC/kg), Bifidobacterium thermophilum (2,2 109 UFC/ kg) e Bifidobacterium longum (2,2 109 UFC/ kg), sendo UFC = unidades formadoras de colônias.

Nos primeiros 30 dias, período de adaptação, os animais foram mantidos em sistema de pastejo rotacionado e estabeleceram-se o consumo da mistura mineral e a quantidade de probióticos a ser adicionada.

A vacina antirrábica utilizada, contendo vírus fixo Pasteur inativado, adsorvido em gel de hidróxido de alumínio e produzido em cultivo celular foi aplicada no dia zero do experimento em todos os bovinos, em uma dose de 2 mL por via subcutânea, seguindo as orientações da Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Nos dias 0, 30 e 60 foram colhidas amostras de sangue por punção jugular e após a centrifugação o soro foi congelado e os títulos individuais de anticorpos neutralizantes foram determinados no Laboratório de Raiva do Instituto Butantan por meio da técnica de soroneutralização em células BHK21 clone 13. Esse teste é baseado no Rapid Fluorescent Focus Inhibition Test – RFFIT (Teste de Inibição de Foco Fluorescente Rápido).

O lote que consumiu diariamente oito gramas de associação com probióticos apresentou 100% dos animais com níveis acima do mínimo de proteção

Os resultados do RFFIT revelaram que no dia zero os animais não apresentaram anticorpos neutralizantes para a raiva, mostrando que os herbívoros não haviam tido contato com o vírus rábico. Assim, as variações nos títulos de anticorpos antirrábicos nos soros dos lotes de animais durante o período experimental de 60 dias foram induzidas pela vacinação antirrábica realizada no dia zero e pela administração ou não da associação de probióticos e a variação da sua concentração adicionada à mistura mineral.

Vários estudos sugerem que um bovino, para ser considerado imune ao desafio ao vírus da raiva, precisa obter título mínimo de anticorpos = 0,5 Unidades Internacionais por mililitro (UI/mL), após a vacinação. No lote de animais controle, apenas 93% responderam à vacinação antirrábica e apresentaram títulos de anticorpos = 0,5 UI/mL, após 30 dias da primovacinação. Situação semelhante também foi relatada por outros autores, na qual obtiveram resultados de títulos mínimos de anticorpos necessários para proteção imunológica entre 88,95% e 95,5%. Essas discrepâncias observadas nas respostas dos animais podem estar relacionadas ao tipo de vacina empregada ou às diferenças antigênicas dos lotes das vacinas. Fatores como a qualidade da vacina, o estado fisiológico dos animais e a capacidade individual de resposta do sistema imunológico também foram citados como elementos que podem contribuir para a redução na eficiência das vacinações nos rebanhos.

Os lotes de animais suplementados com 2, 4 e 8 gramas/animal/dia de uma associação de micro-organismos probióticos adicionados na mistura mineral apresentaram 100% dos animais com títulos de anticorpos protetores mínimos (= 0,50 UI/mL) após 30 dias da primovacinação, indicando que ocorreu um aumento na resposta imune humoral dos bovinos suplementados com probiótico.

Alguns autores relatam que essa elevação dos títulos de anticorpos pela suplementação de associação de micro-organismos probióticos pode ser justificada pelo efeito do estímulo ao sistema imunológico e atribuída às bactérias probióticas (Lactobacillus e Bifidobacterium) presentes em estudos com herbívoros. A utilização de uma associação microbiana de probióticos é benéfica por duas razões: a colonização em alguns hospedeiros pode ocorrer com uma cepa e não com outra e a mistura de probióticos pode ser sinérgica em suprimir possíveis agentes patógenos.

A literatura cita que várias vacinas estão associadas à subótima taxas de soroconversão e, por isso, o efeito protetor não é o ideal e a utilização oral de probióticos durante o período de imunização pode melhorar as taxas de soroconversão.

Transcorridos 60 dias do início do período experimental, o lote controle apresentou uma queda na percentagem (42%) dos bovinos com títulos de anticorpos protetores mínimos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas essa percentagem apresentaria um estado imunitário suficiente para proteger os indivíduos ao risco de exposição à infecção à raiva. O lote de bovinos que consumiu dois gramas de probiótico apresentou 64%; quatro gramas, 72%; e o lote que consumiu diariamente oito gramas apresentou 100% dos animais com titulação sérica de anticorpos para níveis acima do mínimo de proteção.

Esses resultados revelaram que a associação associação de micro-organismos probióticos apresentou efeito benéfico imunomodulador e na manutenção de elevados níveis de anticorpos séricos. Esse fato potencializou-se com a inclusão de oito gramas da associação de probióticos na suplementação animal.

Para que ocorra a adequada colonização intestinal pelos probióticos, eles devem ser ingeridos de forma regular a fim de manter concentrações adequadas no intestino e a eficácia na utilização dos probióticos depende da concentração adicionada na dieta.

As bactérias probióticas só apresentam efeitos biológicos no ambiente intestinal se conseguirem atingir um número mínimo, sendo que essas contagens deverão ser acima do mínimo de 107 UFC/g de bactérias lácticas totais, conforme exigido pelo Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Leites Fermentados da Instrução Normativa nº 46 (BRASIL, 2007), e estudos relatam que existe uma relação entre a concentração e a eficácia do probiótico, sendo que concentrações menores do que 109 esporos viáveis por kg do produto não têm efeito.

A vacina avaliada neste experimento demonstrou ter capacidade de induzir a soroconversão e, quando potencializada pela suplementação da associação probiótica, fez com que os títulos se mantivessem por um período maior, porém, esses resultados não dispensam a necessidade da aplicação da dose de reforço, conforme preconizado pelo Programa de Controle da Raiva em Herbívoros (Mapa, 2013).

A partir dos resultados obtidos, é possível concluir que:

a) a primovacinação contra a raiva em bovinos é capaz de induzir o sistema imunológico, porém, uma percentagem de animais não respondeu, com níveis abaixo do mínimo de proteção;

b) o pico de títulos de anticorpos antirrábicos nos bovinos em todos os grupos foi tardio e após os 30 dias;

c) existem evidências para se atribuir efeito benéfico à associação de micro-organismos probióticos na resposta imune humoral antirrábica e ao aumento da sua dose incorporada na mistura mineral, assim como o efeito sobre a manutenção de elevados níveis de concentração sérica de anticorpos em bovinos primovacinados contra a raiva.

*Cristina e Renata são mestrandas em Fisiopatologia e Saúde Animal da Universidade do Oeste Paulista – Unoeste (Presidente Prudente/SP)
**Thaís é discente de Medicina Veterinária da Unoeste
***Neuza é pesquisadora no Laboratório de Raiva, Instituto Butantã, (São Paulo/SP)
**** Hermann é pós-graduado em Fisiopatologia e Saúde Animal pela Unoeste