Feno e Silagem

 

ESCOLHA DA SILAGEM

Conheça um pouco mais das culturas associadas à ensilagem

Thiago Fernandes Bernardes*

As condições climáticas do Brasil permitem o cultivo de uma grande diversidade de forrageiras que podem ser ensiladas, resultando em volumosos diferenciados qualitativamente e capazes de suprir em parte a energia demandada pelos animais em extensão variável, conforme o potencial produtivo dos mesmos. Daí a necessidade de se conhecer as diferentes culturas aptas para tal finalidade, bem como as características das silagens produzidas.

A CULTURA DO MILHO

O milho tem sido a cultura predominante para produção de silagem. Essa espécie apresenta concentração de matéria seca (MS) ideal, teor de carboidratos solúveis elevado e baixo poder tamponante no momento ideal do corte, o que favorece a fermentação da massa.

A cultura do milho reúne duas características extremamente importantes em um volumoso suplementar: elevado potencial de produção de MS e elevado valor nutricional, além da flexibilidade de uso, podendo- se fazer silagem da planta inteira ou a silagem dos grãos.

Todavia, a silagem de milho apresenta custo de produção elevado, sendo justificada somente quando produzida de forma tecnificada para resultar em forragem de alta qualidade. Outro entrave é que a espécie é agronomicamente complexa, exigindo tratos culturais frequentes e intensos (fertilizantes, herbicidas, inseticidas e fungicidas). A colheita durante o período chuvoso também pode ser um limitante quando se pensa em compactação do solo e o cultivo próximo às zonas urbanas se torna inviável pelo roubo de espigas.

Sobre a colheita do milho para ensilagem, apesar de parecer tratar- -se de um assunto já muito discutido entre produtores e técnicos, deve-se ressaltar que o corte deverá ser realizado quando os grãos atingirem entre 50 a 60% da linha do leite, momento em que a forragem apresenta MS entre 32 a 35%. Dessa forma, além de se garantir o teor de MS ideal para crescimento de microrganismos desejáveis, o enchimento dos grãos é assegurado até a capacidade próxima da máxima. Esse aumento no teor de amido da silagem pode impactar na redução dos custos com alimentação, devido à possível diminuição na compra de nutrientes energéticos sob a forma de concentrado para balanceamento das dietas.

Capins tropicais

Outro aspecto de relevância na colheita das plantas de milho é o rompimento dos grãos. Estudos mostram que essa medida de manejo pode se refletir sobre o desempenho animal, como por exemplo o aumento da produção de leite entre 0,2 a 2,0 kg de leite/vaca/dia.

Segundo Tiago Bernardes, o tipo de silagem e de suplementação depende da dieta do animal no local onde está localizado

A escolha da semente a ser usada com a finalidade de ensilar deve ser ponderada não somente em função do preço, mas em função dos benefícios nutricionais advindos daquela planta. Nesse contexto, o teor de fibra (FDN) é uma característica de grande importância, sobretudo nas condições de produção brasileira, onde a maioria das lavouras de milho para silagem é composta por materiais de grão duro.

Cultura do milho

Dessa forma, materiais que apresentam comportamento decrescente da FDN à medida que o teor de MS das plantas eleva-se devem ser preferidos com vistas à produção de silagens de qualidade. Outro raciocínio complementar é que, independentemente do teor de FDN, devem-se buscar materiais que apresentem maior digestibilidade dessa fração, o que comprovadamente está associado a maior consumo e desempenho animal mais satisfatório.

Cultura do sorgo

Quanto à utilização, reconhecidamente a silagem de milho possui o melhor valor alimentício, comparado às demais silagens, fato que, somado ao elevado custo de produção da mesma, faz com que ela seja mais indicada para alimentação de animais de alta exigência nutricional.

Desse modo, é de extrema importância que a silagem tenha qualidade final bastante satisfatória, pois do contrário a propriedade estaria negligenciando os benefícios do uso desse volumoso.

Cultura da cana-de-açucar

A CULTURA DO SORGO

A silagem de sorgo é um ingrediente energético que vem ganhando destaque em rações de bovinos em todo o mundo. Assim como o milho, as características da planta favorecem o processo fermentativo, tendo o diferencial da menor sensibilidade ao fotoperíodo e à deficiência de água, quando comparada ao milho, o que a posiciona como opção para a safrinha.

Da mesma forma que o milho, o sorgo é flexível quanto ao uso e exigente em tratos culturais, tendo o agravante de sofrer intenso ataque de pássaros quando os grãos estão na fase de enchimento, o que eleva as perdas da fração amido.

Um aspecto importante a ser ressaltado é a diferença entre os híbridos disponíveis no mercado. Os sorgos “forrageiros” são bons produtores de MS (baixo valor nutricional), enquanto os materiais denominados “graníferos” produzem menos massa, contudo, apresentam valor nutricional superior. Desse modo, a planta de sorgo não reúne produtividade e valor nutricional, como ocorre com o milho, cabendo ao técnico decidir qual opção (forrageiro ou granífero) é mais viável para o seu sistema de produção.

Quanto ao uso, a silagem de sorgo é a que mais se aproxima do valor nutritivo da silagem de milho, o que determina seu fornecimento para animais de produção inferior à daqueles animais cujo mérito produtivo justifique a utilização de silagem de milho.

CANA-DE-AÇÚCAR

A cana-de-açúcar alia produtividade elevada com valor nutritivo satisfatório, assim como o milho. Além disso, a espécie é agronomicamente simples, comparada ao milho e ao sorgo, devido à necessidade de tratos culturais menos frequentes e intensos. A colheita ocorre no período seco do ano e com uma janela de corte bastante extensa, o que facilita o manejo de ensilagem.

Trata-se de uma cultura altamente rica em açúcares, os quais são utilizados como substratos pelos microrganismos fermentadores. Essa característica, aliada ao adequado teor de MS da cultura madura, desencadeia um rápido abaixamento do pH dessas silagens. Todavia, o processo fermentativo é dominado por leveduras, com produção de álcool e consequente perda de MS, tornando imprescindível o uso de aditivos para controle dessas fermentações indesejáveis.

Apesar disso, a ensilagem da cana-de-açúcar justifica-se por permitir um melhor manejo agronômico dos talhões; resolver o problema do corte diário e do fogo acidental ou criminoso no canavial, além de ser uma forma de estocagem de elevadas quantidades de volumoso nas fazendas, dado o potencial produtivo da cultura.

CAPINS TROPICAIS

O Brasil possui diversas espécies de capins tropicais que podem ser ensiladas: Pennisetum purpureum (capim-efelante), Panicum maximum (capim-mombaça; capim- -Tanzânia), Brachiaria brizantha (capim-marandu; capim-xaraés) e os capins do gênero Cynodon (Tifton 85 e Coast-cross).

Quanto aos aspectos fermentativos, os capins tropicais apresentam alta umidade, baixa concentração de carboidratos solúveis e alto poder tamponante no momento ideal do corte, o que desfavorece a fermentação e aumenta os riscos da conservação não se concretizar.

Os capins tropicais são altamente produtivos, porém, são necessários vários cortes durante o ano, a maioria no período chuvoso, o que pode limitar o processo de ensilagem.

Para contornar o problema das intempéries climáticas, dentro do contexto de manejo do campo de feno, as silagens pré-secadas de forrageiras do gênero Cynodon apresentam-se como uma importante alternativa. No caso do capim- -elefante, o aproveitamento pode se dar sob a forma de capineira e, das demais forrageiras, outra alternativa seria a utilização na forma de pasto.

A opção pela ensilagem de capins tropicais no Brasil esbarra em questões de operacionalidade, uma vez que as fazendas não são equipadas com máquinas para corte de capins ou para realização do pré-emurchecimento das plantas, quando este se fizer necessário.

As silagens de capins tropicais apresentam baixo valor nutricional (NDT próximo de 50%), o que torna a dieta mais cara devido ao elevado uso de concentrado. Além desse fato, como a fermentação ocorrida nessas forrageiras é menos eficiente, existe o risco de proliferação de micro-organismos patogênicos, como a Listeria monocytogenes, os quais podem contaminar produtos de origem animal, como o leite.

*Thiago Bernardes é professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras


Escolha depende da dieta local

Abrir mão da silagem de milho, mesmo estando mais cara, pode não ser uma boa escolha porque é difícil achar qualquer outra que tenha a mesma quantidade de proteína e energia igual à dela. Então, pode- -se economizar mais no preço e gastar-se mais na suplementação dos lotes.

Será necessário avaliar as escolhas caso a caso. A silagem com nível nutriconal mais próximo do milho é a de sorgo, entretanto, é uma cultura que apresenta algumas particularidades técnicas em relação ao plantio e à colheita. Nessa hora, assistência ténica calha bem. Entre as gramíneas, as melhores alternativas são as culturas de inverno, azevém e aveia.

O problema é que são alimentos mais caros para uso em grande escala em propriedades que objetivam a produção de gado de corte. Agora, para criações menores, onde se trabalha com a seleção de genética ou mesmo em momentos críticos, como na falta de capim e de outros alimentos, pode justificar o investimento. Exceção aos projetos pecuários que já estejam situados ao Sul do Brasil.

No confinamento, a silagem de capim é mais importante para a fisiologia do bovino em si do que propriamente para obtenção de uma boa fonte nutricional, pois induz o animal a mastigar e salivar, garantindo a saúde ruminal. Tanto o uso das diversas silagens como o de feno dependerá da dieta local e habitual do animal, das metas de ganho de peso estipuladas pela propriedade e dos concentrados que vão compor a suplementação do rebanho.