Entrevista do Mês

 

100% SUSTENTÁVEL100% SUSTENTÁVEL

Este é o objetivo da Arcos Dorados, dona da marca McDonald’s na América Latina, para as carnes utilizadas nos lanches mais populares do Brasil. No caso da carne bovina, o primeiro parceiro é o Instituto Centro de Vida. Quem explica é José Valledor, vice-presidente da Cadeia de Suprimentos.

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG – Considera que hoje a América Latina é uma região estratégica para a segurança alimentar mundial?

José Valledor – Sem dúvida. Essa é uma região estratégica para segurança alimentar mundial, reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como tal. A América Latina possui áreas para pastagens e clima excepcionais para a pecuária, que se bem desenvolvida tem um papel fundamental para atender a demanda regional e mundial de alimentos. Sem contar, é claro, as áreas agrícolas, que também são muito extensas e beneficiadas pelas condições climáticas.

Revista AG – E como você posiciona o Brasil, globalmente, no fornecimento de alimentos?

José Valledor – A posição do País é de extrema importância. Segundo estudos da ONU, o Brasil caminha para se tornar o maior exportador de alimentos do mundo da próxima década. Portanto, é essencial que o País tenha uma cadeia de fornecimento sustentável, para que não haja escassez de matéria-prima e para que nosso ecossistema seja preservado. Nós da Arcos, como grandes utilizadores desses produtos, temos de ajudar nossos fornecedores a trabalharem dessa forma, por isso, investimos com prioridade em uma cadeia de suprimentos sustentável. Além disso, sabemos a força da nossa liderança no setor de alimentação e como as decisões que tomamos movem não apenas nosso segmento. Um grande exemplo foi nosso anúncio, em agosto, de comprar carne proveniente de áreas que praticam pecuária sustentável, que fez com que o assunto fosse discutido com mais força.

Revista AG – Em um passado recente o Brasil sofreu constantes ataques quanto à questão da sustentabilidade na produção agrícola e pecuária. Na sua opinião, o Brasil virou o jogo?

José Valledor – Acredito que a agropecuária avançou de forma positiva no País. Temos diversas certificações e instituições que ajudam nesse processo de mudança para uma agricultura e pecuária mais sustentáveis. Os dois últimos grandes passos relacionados ao tema foram a renovação da Moratória da Soja por tempo indeterminado e a criação do Grupo de Trabalho de Pecuária Sustentável (GTPS). E eu fico muito feliz de estar à frente de uma empresa que fez parte desses dois grandes marcos.

Revista AG – Quando e por que o Grupo Arcos Dorados (McDonald’s) decidiu investir no conceito de sustentabilidade no Brasil?

José Valledor – A Arcos Dorados é uma empresa comprometida com o futuro do planeta. Nós sabemos que o compromisso com o meio ambiente vai além da porta de nossos restaurantes; trabalhamos com nossos fornecedores para que toda a cadeia seja sustentável. Nossa história com a sustentabilidade não é de hoje e sabemos que podemos fazer ainda mais. Nosso café é fornecido pela Café do Centro, que conta com uma produção cafeeira certificada pela Rainforest Alliance. Todas as embalagens de papel utilizadas nos restaurantes McDonald’s no Brasil têm o selo da Forest SteNovo wardship Council®, uma das principais instituições de certificação de madeira e produtos dela derivados do mundo. Além disso, nosso McFish contém o selo azul do Marine Stewardship Council (MSC), programa de certificação mundial líder em pesca sustentável de frutos do mar. E, agora, estamos dando mais um “passo sustentável” com a carne bovina. Com essas certificações feitas por entidades sérias e reconhecidas, asseguramos que nosso processo de compras esteja sempre em sintonia com a preservação do meio ambiente. E vamos continuar liderando essas transformações.

Revista AG – Em agosto, a companhia anunciou um projeto inédito para aquisição de carne produzida em áreas que conduzem boas práticas de produção. Por que o nome “Novo Campo”?

José Valledor – O Programa SteNovo Campo foi criado pelo Instituto Centro de Vida (ICV), que atua para construir soluções compartilhadas para a sustentabilidade do uso da terra e dos recursos naturais. Nós os selecionamos para serem nossos parceiros por cumprirem todas as exigências do GTPS e outras especificações exclusivas exigidas pela marca McDonald’s em todo o mundo.

Revista AG – Por muito tempo o McDonald’s levantou a bandeira de não adquirir matéria-prima oriunda do bioma amazônico. Entretanto, agora, com esse projeto, como esclarecer o consumidor sobre essa mudança radical e seus benefícios?

José Valledor – Continuamos com a nossa posição, não houve mudança radical. Por meio da parceria com o Novo Campo estamos adquirindo carne de regiões que já estavam degradadas e que, agora, estão sendo recuperadas. Não vamos comprar carne de áreas que não atendam esses critérios. A forma que a empresa tinha de ajudar no combate ao desmatamento da Amazônia era não comprando produtos provenientes do bioma. Entretanto, nós percebemos que poderíamos ajudar de outra forma, evoluindo e incentivando a pecuária sustentável. Entendemos a importância de estimular essa forma de produção e, por isso, decidimos comprar carne de uma fazenda que faz parte do Programa Novo Campo. Nós não compramos carne de locais que sofreram desmatamento depois de 2008, quando foi instituído o desmatamento ilegal. Queremos mostrar que é possível ter produção pecuária com desmatamento zero. Entre os benefícios do programa estão recuperação e conservação do solo, aumento da produtividade e diminuição da emissão de gases de efeito estufa. O Novo Campo tem uma dimensão tão importante que passou a atrair investidores internacionais interessados em projetos sustentáveis.

Revista AG – Quais protocolos as propriedades deverão seguir para participar do programa?

José Valledor – As fazendas precisam cumprir todos os critérios do GTPS, além de cumprir os indicadores do McDonald’s de bem- -estar animal e qualidade e cumprir as legislações ambiental e trabalhista brasileiras. Os critérios do GTPS são divididos por princípios: Gestão e Apoio ao Setor Produtivo; Respeito às Comunidades Locais; Direitos dos Trabalhadores; Respeito ao Meio Ambiente e valorização da Cadeia de Valor. Já os indicadores do McDonald’s compreendem abate humanitário dos animais, proíbem aplicação de hormônios e promotores de crescimento e ainda consideram políticas de segurança alimentar.

Revista AG – A emissão de gases do efeito estufa (GEE) é outra exigência que a pecuária brasileira tem buscado cumprir. Diante desse fato, haverá algum tipo de auditoria para validar as fazendas fornecedoras?

José Valledor – O projeto Novo Campo é completo e também mede e controla a emissão de gases de efeito estufa, por meio de critérios estabelecidos pelo Imaflora.

Revista AG – O Grupo JBS foi o frigorífico escolhido para integrar a parceria no Programa Novo Campo. A expectativa de produção de carne processada é para quantas toneladas/mês?

José Valledor – A primeira compra feita pelo McDonald’s Brasil é de 250 toneladas/ano e já está nos lanches desde agosto. Nosso objetivo é de que em alguns anos possamos abastecer 100% dos nossos restaurantes, que juntos consomem uma média de 30 mil toneladas/ ano, com carne proveniente de pecuária sustentável. No momento, ainda não há fazendas suficientes para que essa meta seja cumprida e não queremos apressar nenhum dos parceiros nessa produção para que todos os processos sejam feitos da melhor forma possível. Para que isso aconteça, não depende apenas da JBS, mas da adesão de novas fazendas ao programa.

Revista AG – Quantas fazendas já estão inscritas no Programa? Elas já tem totais condições de abastecer essa demanda?

José Valledor – Hoje, o programa conta com 40 fazendas cadastradas e cujos requisitos da pecuária sustentável vêm sendo desenvolvidos. Hoje, uma fazenda está habilitada a fornecer carne para o McDonald’s, por isso nossa primeira compra foi baixa se comparada à quantidade de carne utilizada pela rede no Brasil. A relação de compra do gado é gerenciada pela JBS que possui os seus critérios de bonificação. Não há exigência de raça, mas naturalmente serão selecionadas aquelas que melhor se adaptarem às condições locais.

Revista AG – Além da região amazônica, a companhia estuda comprar carne bovina de outros estados ou regiões produtoras de gado?

José Valledor – Sim. Nosso objetivo é incentivar que mais fazendas pratiquem pecuária sustentável para alcançarmos a meta de abastecer 100% dos restaurantes com carne proveniente dessas áreas. Inclusive, estamos participando de conversas com a GTPS para que haja um mapeamento de todas as fazendas do País para sabermos em que patamar estamos com a pecuária sustentável. Para garantir a origem dos animais, contratamos a certificadora DNV.

Revista AG – Em uma iniciativa como essa do Programa Novo Campo e que envolve uma das gigantes de fast food do mundo, imagino que o bem-estar social dos funcionários dos fornecedores tenha um peso muito grande. Como isso será trabalhado?

José Valledor – Nossa preocupação com o bem-estar social não está ligado apenas à pecuária, mas à toda nossa cadeia de fornecedores. Nós temos empresas terceirizadas que fazem auditoria de nossos fornecedores para garantir que todas as leis trabalhistas estejam sendo cumpridas.

Revista AG – Para encerrar, como porta-voz do McDonald’s na América Latina, que mensagem você gostaria de transmitir aos criadores e demais profissionais do agronegócio que nos leem agora?

José Valledor – Como marca líder de mercado, estamos preocupados em apoiar projetos que busquem as melhores soluções para a agropecuária e que tragam benefícios ao meio ambiente. Estamos abertos para novos fornecedores e trabalhamos para incluir produtores locais em nossa cadeia. Nosso objetivo é usar a nossa potência como cadeia de abastecimento para influenciar nossos fornecedores a serem responsáveis e a refletirem sobre a necessidade de pensar no longo prazo. Essa é uma das formas que a empresa tem de ajudar não apenas os grandes, mas também os pequenos produtores. Sempre trabalhamos em parceria com fornecedores e órgãos “fiscalizadores”, como WWF e Embrapa para garantir a idoneidade de nossas iniciativas.