Raça do Mês

 

DESBRAVANDO O BRASIL

Erick Henrique
erick@revistaag.com.br

A bovinocultura está compreendendo, depois de muitos insucessos, que produzir carne do modo tradicional não surte efeito positivo para o bolso do pecuarista. Até porque um depende do outro para prosperar, tanto no quesito econômico quanto no social. Ganha todo mundo quando o produtor abre a mente para o novo mundo de possibilidades tecnológicas que o mercado vem criando, seja pelas companhias, seja pelas instituições de pesquisa.

Seguindo essa premissa de prosperidade, as fazendas estão cada vez mais apostando no taurino Hereford e no sintético Braford para otimizar a produção, sem gerar desequilíbrios durante o processo. Uma vez que essas raças possuem aptidão de converter matéria-seca ingerida em ganho de peso, sendo um viés de suma importância na relação custo/benefício.

“Temos de tratar a nossa atividade com a mesma importância que a lavoura de arroz e soja, de alta tecnologia'', avalia Luciano Sperotto Terra, presidente da ABHB

A eficiência genética dessas raças são mecanismos de sustentabilidade, que atraem olhares das indústrias que estão firmando contratos com projetos focados no equilíbrio produtivo, seguindo a exigência do consumidor final.

Além da eficiência alimentar, o Hereford, apelidado de cara branca, imprime performance a campo, praticidade e lucratividade, tornando a raça mais abundante em diversas regiões do mundo, por conta da fertilidade, rusticidade, longevidade e adaptabilidade.

A Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB) recomenda que, antes de adquirir animais em vendas diretas, leilões presenciais e virtuais, os pecuaristas fiquem atentos sobre características como a pelagem da raça Hereford, vermelha de cara branca.

Os touros Hereford devem apresentar características masculinas destacadas, estrutura óssea vigorosa, proporcional à massa corporal. Já as fêmeas devem apresentar feminilidade, boa capacidade abdominal, assim como condições leiteiras satisfatórias.

No geral, o rebanho Hereford deve apresentar, na questão física, porte médio a grande, de aparência forte, com boa massa muscular e equilíbrio entre os quartos traseiro e dianteiro. O excepcional ganho de peso a pasto, sendo comum em novilhos de 450-500 kg aos novilhos de 18 a 24 meses.

Enquanto a raça sintética Braford, oriunda do cruzamento industrial entre o Hereford e o zebu, traz consigo a modernidade, pois congrega fertilidade, habilidade materna, precocidade, temperamento dócil, volume e qualidade da carne do Hereford com a capacidade de adaptação aos trópicos, resistência aos ectoparasitas, rusticidade e rendimento de carcaça dos zebuínos, além do benefício inegável da heterose, que qualifica ainda mais sua matéria-prima.

O reprodutor Braford é extremamente precoce, adaptando-se com primazia às condições de reprodução a campo. Portador de notável massa muscular, algo substancial na missão de produzir bezerros, supera os 800 kg quando rústico e 1.200 kg no cocho.

Já a fêmea Braford também faz sua parte com êxito devido à precocidade e à fertilidade, reproduzindo aos 18 meses. Com peso médio adulto de 450 kg, facilidade de parto e habilidade materna, desmamando aos 6-8 meses bezerros que podem ter mais de 50% do peso materno. O novilho Braford é precoce na terminação, podendo ser abatido aos 18-24 meses de idade, e o rendimento de carcaça fica entre 55 e 58%.

Esses fatores próprios das raças citadas são o curinga dos pecuaristas para começar a virar o jogo. Entretanto, é apenas o início, pois a pecuária de corte está cada vez mais competitiva, tirando fora de combate os produtores que não investem em genética (adaptada, funcional, provada), sanidade, maquinário, nutrição e mão de obra qualificada. Tudo isso, sem sombra de dúvida, será convertido em mais arrobas por hectare/ano, em ciclo curto e essa fluidez trará uma melhor remuneração ao criador.

CARNE PAMPA

Por falar em compensação condizente ao esforço do pecuarista, os programas de carnes certificadas ganham cada vez mais força no território brasileiro. Contudo, no início desses projetos, pairava no ar um certo tipo de receio com relação ao consumidor final. A cadeia produtiva se questionava se o consumidor brasileiro estava realmente interessado pagar por uma matéria-prima de qualidade superior.

“Essa variabilidade de tabelas e percentagens existe porque não queremos modificar o sistema de produção do criador'', diz Fernando Lopa, CEO da ABHB

Tal receio, felizmente, não se confirmou e os frigoríficos fecham diversas parcerias com programas de carnes certificadas com entidades de raças que assumem o compromisso de produzir do pasto ao prato uma carne bovina de valor agregado. Depois estudar o comportamento de consumo da população brasileira, o mercado identificou que aquela proteína vermelha consumida no dia a dia faz parte dos ingredientes culinários, enquanto a carne gourmet é destinada para um público mais criterioso, consumidor de cortes nobres em churrascos nos finais de semana, restaurantes e eventos sociais.

Carne Pampa nas gôndolas paranaenses

Foi pensando nessas questões e consciente que poderia atender essa turma com responsabilidade que a ABHB criou, em 1998, o Programa Carne Pampa, baseado na seleção zootécnica dos bovinos Hereford e Braford. Dentro do programa há também o selo Carne Certificada Hereford, que é a garantia de que o produto foi acompanhado e classificado.

De acordo com o CEO da ABHB, Fernando Lopa, o produtor que tiver interesse em participar do Carne Pampa, precisa se cadastrar gratuitamente no sistema de rastreabilidade de adesão voluntária no site da instituição ou pelo www.carneherford. com.br. A partir desse cadastramento via Internet, ele fica habilitado a participar.

“O criador poderá mandar seus animais para o frigorífico conveniado ao programa. Se esses bovinos estiverem cumprindo os requisitos determinados no programa, eles entrarão na tabela de bonificação das carcaças, que variam de acordo com a cobertura de gordura, idade e peso. Cada frigorífico possui uma tabela de bonificação, conforme o mercado local. Porém, a associação garante uma bonificação mínima acima de mercado”, explica Lopa.

Segundo ele, esse compromisso da ABHB é para que o pecuarista receba sempre algo a mais por aquele animal que se classifique dentro das especificações da Carne Pampa. “Isso é fundamental para que os criadores estejam convictos que ao produzir. Eles, invariavelmente, terão uma rentabilidade maior e segurança para investir na fazenda. Obviamente, quanto mais tecnificado for o sistema de produção, mais pesada será a carcaça, registrando menor idade de terminação e mais acabamento de gordura, que geram benefícios ao produtor”.

O diretor-executivo explica que as plantas vinculadas ao programa bonificam de 2 a 10% sobre esses animais meio-sangue Hereford. Entretanto, no caso das fêmeas, a bonificação pode chegar a até 14%, de acordo com a tabela de determinado frigorífico, que paga com preço de macho por essa vaca gorda.

“Essa variabilidade de tabelas e percentagens existe porque não queremos modificar o sistema de produção do criador. Posto que, ao trabalhar com a genética Hereford e Braford com outros tipos de cruzamento, o pecuarista tem confiança que será remunerado acima do mercado. Atualmente, o pessoal está ganhando, em média, de 4 a 5% de bonificação”, garante Lopa.

PRODUÇÃO CARNE

A gerente do Carne Pampa, Fabiana Rosa de Freitas, informa que, primeiramente, os parâmetros avaliados de qualidade são o padrão racial do rebanho nos currais, antes de adentrarem na sala de abate. Em seguida, inicia o processo de classificação da carcaça, sendo a conformação frigorífica, dentição de 0 a 4 dentes, peso de carcaça e classificação de gordura.

“Uma carcaça jovem de até 36 meses, com acabamento de gordura de no mínimo de 3 mm, ou seja, uma tipificação mediana uniforme ou acima, nunca inferior. Portanto, carcaças que apresentem gordura ausente ou escassa, não receberão o selo de certificação. Atualmente, a nossa média de peso de carcaças, de animais jovens, bem alimentados é de 250 kg, com uma gordura mediana, podendo atingir até 280 kg, se a propriedade for mais tecnificada”, ressalta a gerente.

O projeto vem ganhando força no Brasil, tanto é que, no dia 6 de agosto, foi firmada mais uma parceria entre a ABHB e a Cooperativa Agroindustrial Novicarnes, do município paranaense de Pato Branco. O acordo foi formalmente assinado no dia 31, durante a 39ª Expointer, em Esteio/RS.

Lopa recorda que foram necessários dois anos de negociações para fechar essa parceria, para o frigorífico se adequar aos protocolos técnicos exigidos pela entidade. Pois a ABHB somente autoriza o selo de certificação nos produtos embalados a vácuo, sendo necessária uma estruturação da empresa.

A carne embalada a vácuo mantém a conservação do produto por mais tempo, pois inibe o crescimento de bactérias, fungos e outros micro- -organismos que precisam de oxigênio para seu desenvolvimento.

“A previsão de largada dos trabalhos com a cooperativa é a partir de outubro, projetando um abate semanal de 100 animais (machos e fêmeas). Decerto, o potencial do negócio é muito grande, todavia não podemos enfiar os pés pelas mãos, produzindo demasiadamente sem ter para quem vender. Até porque o projeto de carne certificada é muito complexo: ele começa lá no pasto e termina no prato do consumidor. Qualquer variação desse universo estraga o processo”, avalia o CEO.

Na visão do presidente da associação, Luciano Sperotto Terra, que também comercializa carne bovina para o Carne Pampa, na Estância Tamanca, em Santa Vitória do Palmar/ RS, a pecuária criou um círculo virtuoso dentro do sistema produtivo.

“Acreditamos que produzir um quilo de proteína vermelha com excelência gera o mesmo custo que produzir um quilo de carne de qualidade inferior, visto que o gado confere precocidade de abate”, acredita Sperotto.

Ele tem notado que muitas propriedades estão utilizando a pecuária de corte como ferramenta de rentabilidade, por intermédio de reciclagem de nutrientes, manutenção da fertilidade do solo e otimização da mão de obra, sendo imprescindível que o criador efetive os colaboradores, para que trabalhem o ano todo motivados.

“Temos de dar à atividade pecuária a mesma importância que damos à lavoura de arroz e soja, que são de alta tecnologia. E quando uma dessas culturas mencionadas afrouxarem, por questões de mercado, logo, haverá o desequilíbrio financeiro e a pecuária será um porto seguro para manter a gestão da fazenda com rentabilidade”, ressalta o líder da associação.

IMPULSO GENÉTICO

Fatores esmiuçados pelo pecuarista de Santa Vitória do Palmar denotam que a cadeia não pode apostar as fichas em sistemas obsoletos. E os programas melhoramento genético das raças bovinas, sejam elas taurinas, sejam zebuínas, são uma tecnologia assertiva para alavancar os índices de produtividade das propriedades brasileiras.

Para geração dos índices, foram considerados diretamente 110.153 animais

Atenta às necessidades do produtor e mantendo seu compromisso com a qualidade dos serviços prestados, a ABHB, em parceria com a Embrapa Pecuária Sul – entidade brasileira com reconhecimento internacional –, oferece aos seus associados o PampaPlus, Programa de Avaliação Genética para as Raças Hereford e Braford.

Conquistando o Centro-Oeste, fêmea Braford com bezerro ao pé em Campos de Julio/MT

“Estamos trabalhado sobremaneira nos últimos anos, tendo como meta principal melhorar e padronizar os programas de avaliação genética. Pois, além do PampaPlus, há outras iniciativas que trabalham com a raça, sendo eles o Promebo (o mais antigo), Conexão Delta G e Programa Natura. Por isso, faz-se necessário padronizar a metodologia, porque, no final, envolve a parte comercial”, destaca a médica-veterinária e coordenadora de melhoramento genético animal da ABHB, Thais Maria Bento Pires Lopa.

A plataforma possui diversos filtros de seleção, que geram um índice, para que o produtor pondere características relevantes como total materno, ganho de peso e peso ao sobreano. Porém, se o criador quiser, por conta própria, produzir um índice, por exemplo, para melhorar o perímetro escrotal, então ele pondera essa DEP, dando um pouco mais de peso a ela.

Os critérios de seleção buscam dar corpo ao PampaPlus, com combinações de características consideradas de extrema importância econômica, elencados da seguinte forma: Características Reprodutivas; Características de Crescimento; Características Morfológicas e Características de Carcaça.

Thais Lopa esclarece que a filosofia do programa é democratizar o conhecimento dos conceitos de melhoramento que os pecuaristas têm dificuldade em assimilar. “O criador não é obrigado a saber sobre melhoramento genético e as DEPs, no entanto, a gente orienta bastante, promovendo vários cursos, para que ele consiga aplicar. Infelizmente, isso ainda é encarado como um bicho- -papão”.

A Expointer, realizada em agosto/ setembro, também foi benéfica para o progresso genético do Hereford e Braford, com a publicação do Sumário de Touros PampaPlus 2016. Para geração dos índices, foram considerados 110.153 animais com registros de desempenho próprio, dos quais 70.303 são produtos, 38.606 são matrizes e 1.244 são touros, pertencentes a 55 propriedades. Os índices dos 159 touros Hereford e 270 reprodutores Braford, com mais de 20 filhos, são, anualmente, apresentados no sumário impresso do PampaPlus.

VISÃO DEMOCRÁTICA

Utilizando a ferramenta Pampa- Plus, a Estância Luz de São João, de São Gabriel/RS, dos criadores Celso Jaloto, Agropecuária Santa Ana, de Uruguaiana/RS; e Miguel Bitencourt Barbará, resolveram criar um projeto pioneiro chamado Braford Tropical, realizado nos municípios de Arinos/ MG e Campos de Júlio/MT, com o propósito de disseminar a genética do bovino sintético.

Celso Jaloto visitando a Genética La Aurora, do criador Daniel Parodi, em Campos de Júlio/MT

“Em 2012, nós iniciamos alguns trabalhos fora do Rio Grande do Sul. Em seguida, realizamos duas grandes parcerias, uma no Norte de Minas, próximo da Bahia e Goiás, outra no Mato Grosso, a 250 km de Rondônia. Lugares extremos, mas com os mesmos interesses. Ou seja, eles queriam entrar na raça Braford com auxílio de alguém que trabalhasse com genética melhoradora e com condições de transferir essa expertise. Embora, no começo, houvesse certa desconfiança sobre a adaptabilidade da raça oriunda do RS”, lembra Jaloto.

O pecuarista elucidou as dúvidas dos produtores dizendo que o estado gaúcho registra, sim, temperaturas baixas no inverno, porém, no decorrer do ano, as condições climáticas são praticamente idênticas às regiões citadas, só mudando um pouco o manejo e o tipo de pastagem.

“Nós levamos, em 2013, para Fazenda Sucupira, em Arinos/MG, tourinhos de 12 a 15 meses para serem adaptados ao novo clima, capim e tudo mais. Depois, assessoramos no cruzamento entre taurinos e zebuínos, a partir da inseminação de vacas Nelore com sêmen de reprodutores Hereford e finalizando com a implantação dos primeiros lotes de embriões Braford em receptoras daquela propriedade. Assim, a adaptação foi mais rápida”, explica Jaloto.

O proprietário da Fazenda Sucupira, Ademir Cenci, já utilizava a raça através da IATF, usando Braford na F1 Angus x Nelore objetivando heterozigoze, precocidade sexual, reprodutiva, bom acabamento de carcaça e qualidade de carne através do tricross. A estratégia trouxe resultados acima do esperado e, com isso, o criador do Noroeste mineiro resolveu investir com embasamento na raça.

Hoje, a fazenda consegue o maior valor nos produtos em leilões, registrando lucro de R$ 525,00 a mais por bezerro em comparação a outros lotes da mesma categoria. A propriedade mineira tem produzido bezerros meio-sangue Braford x Nelore, com desmama aos sete meses de 203 kg.

Para reforçar essa iniciativa no Centro-Oeste, Jaloto e Barbará fecharam um projeto de estudo com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), de Sinop, capitaneado pela professora de zootecnia Camila Andreata, no qual ela deixará que um aluno de mestrado desenvolva um programa de avaliação de animais das raças Braford, Brangus e Nelore, todos com a mesma idade e sexo. A ideia é comparar como esses animais vão se adaptar.

BALANÇO POSITIVO

De vento em popa, as raças Hereford e Braford estão movimentando o mercado positivamente. Quem revela os detalhes desse crescimento significativo é o gerente de operações da ABHB, Felipe Azambuja: “foram realizados 28 leilões oficiais, com arrecadação de R$ 25 milhões, a maior registrada na instituição. Em relação ao número de animais registrados em 2015, foram realizados 52 mil novos registros, sendo o maior número realizado pela ABHB. O total de animais vivos registrados da raça Braford são cerca de 300 mil e 100 mil da raça Hereford”.

Azambuja enfatiza que esse número é apenas de animais registrados, pois em relação ao rebanho efetivo HB comerciais é infinitamente maior. E a ABHB está elaborando um estudo para ter essa estimativa.

De acordo com o relatório da Associação Brasileira de Inseminação Artificial foram produzidos 333.321 doses de sêmen Braford ante 161.430 doses produzidas em 2014, um crescimento de 105%. A produção de doses do Hereford Mocho manteve-se estável, de 61.291 doses produzidas em 2015, ante 61.320, no ano anterior.


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