Entrevista

 

ABCZ para todos

Em 31 de agosto, Arnaldo Manuel de Souza Machado Borges, 63 anos, tomou posse da presidência da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), ao vencer por uma margem de apenas 150 votos uma eleição deveras conturbada. Membro permanente do Conselho Deliberativo Técnico, Arnaldinho, como é conhecido entre os criadores, conta com exclusividade para a Revista AG detalhes da candidatura e apresenta os planos para as raças zebuínas.

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG - O fato de você ter decidido ser oposição mexeu um pouco com o mercado de seleção zebuína. O que motivou sua candidatura?

Arnaldo Borges - Em julho de 2012, estava no Leilão Colonial e o gerente José Aparecido, espontaneamente, lançou minha candidatura à presidência da ABCZ e muita gente apoiou a ideia. Em setembro do mesmo ano, o doutor Ricardo, da Rima, e meus filhos apresentaram um manifesto de 100 tratadores pedindo o mesmo. Em setembro, encontrei Eduardo Biagi, presidente da ABCZ à época, para o qual oficializei interesse. Ele convidou-me para um jantar com todos os diretores, disse que já haviam indicado o Luiz Cláudio de Souza Paranhos Ferreira e me ofereceram a 1ª vice-presidência e que tão logo acabasse o mandato eu seria o sucessor natural. Eu já tinha escolhido 14 nomes para compor minha chapa, mas aceitei a proposta. Para minha surpresa, quando fui assinar a anuência, eu estava como 3º vice. Não que me importasse, no entanto, tínhamos um acordo. Depois de dois anos de mandato de Paranhos, anunciaram que o presidente indicado para sucedê-lo seria Frederico Mendes. Houve uma falta de compromisso. Agora, a questão do termo “oposição” nasceu da própria candidatura do Fred, que era uma sugestão da diretoria. Por esses motivos, decidi levar adiante a candidatura. Estava na hora de romper um círculo vicioso.

Revista AG - Garantir maior transparência na gestão foi um dos pilares da sua campanha. Por que você insistia nisso?

Arnaldo Borges - Eu convivo na ABCZ desde 1978, estava com 38 anos quando eu comecei, e durante todo esse tempo nunca vi acontecer o que ocorreu na assembleia de março deste ano, na apresentação de contas de 2015 da ABCZ, a qual gerou uma manifestação muito forte dos associados pela maneira que foi apresentada. Apresentou-se apenas um relatório de tudo aquilo que foi feito no ano passado. Somam-se outros fatos que romperam com toda a tradição da ABCZ. Nunca antes se escolheu um candidato com um ano de antecedência. Quando da escolha de um nome, sempre a diretoria consultava os membros natos da associação, ou seja, seus ex-presidentes. Nada disso aconteceu. Os membros da minha diretoria sentaram-se à mesa com oito ex-presidentes e recebemos o apoio de seis. A ABCZ sempre foi uma associação aberta a todos os associados e de algum tempo para cá ouvimos muito dos associados que ela se tornou um clube fechado.

Revista AG - Em tempos de enxugamento de custos, quais são seus planos para desonerar o associado?

Arnaldo Borges - Para você ter uma ideia, a principal fonte de renda da ABCZ são o registro genealógico e os programas de melhoramento genético. Nesses últimos anos, em relação à gestão do Eduardo Biagi (2012-2014), houve uma queda de 177 mil registros de nascimentos e de 56 mil registros genealógicos definitivos, além de 200 rebanhos deixarem o controle leiteiro (aproximadamente 2 mil matrizes). A principal queixa dos sócios é a burocracia e essa é a principal geradora de custos para eles. Já a partir de maio deste ano, esse processo de desburocratização do registro genealógico começou a andar, com alterações da norma sendo negociadas junto ao Ministério da Agricultura para diminuir exigências, mudanças que serão colocadas em prática na nossa gestão. Vamos trabalhar muito para reduzir os custos dos associados já no primeiro ano de mandato. Existem condições para isso. E por mais que se fale em crise, qual é o único setor que vem se sustentando na economia brasileira? É a pecuária. A receita para contornar a crise é trabalhar mais. Outra parte do plano será reduzir as despesas da ABCZ, principalmente em viagens internacionais. E se você me perguntar como está a condição financeira da ABCZ, hoje, não sei dizer, porque não ocorreu nenhum dos balanços trimestrais que deveriam ter acontecido neste ano.

Revista AG - Registro genealógico por si só é garantia de qualidade genética?

Arnaldo Borges - Poucos técnicos envolvidos com zebu no Brasil tiveram a oportunidade de trabalhar com a quantidade de rebanhos que eu já acompanhei tanto em currais como em pistas de julgamento. Desde 1980, eu passo 300 dias do ano nesses locais. Posso dizer a você, em primeiro lugar, que não se faz melhoramento sem raça. Em segundo, o fenótipo tem de ser ideal para a produção desejada (carne ou leite) e, terceiro, tem de ter avaliação genética. Hoje, o registro genealógico da ABCZ contempla muito bem esses três pilares do melhoramento. Muita gente construiu touro Top 0,1% só com base no computador. Computador é uma ferramenta de trabalho, igual a uma enxada.

Revista AG - Mas, hoje, o marketing em cima desses touros top é muito grande. Pode ser um risco?

Arnaldo Borges - Temos um touro que é considerado o melhor touro de avaliação da raça Nelore. Ele é aleijado! Aos oito anos de idade ele já não produzia mais sêmen porque não conseguia ficar de pé. Tinha defeitos gravíssimos de ligamento, de estrutura. Nele, vemos que não é só através do computador que se faz melhoramento genético. Ou seja, precisamos desse trabalho realizado pela ABCZ desde 1938. O fenótipo é necessário. Os criadores que se focaram apenas em produzir avaliação genética, a cada geração, dão um passo para trás. Aliás, o próprio Raysildo Lobo (ANCP) mostra-se preocupado com a supervalorização do Top 0,1; 1; 2 ou 3%. Há touros Top 15, 20 ou 30% com qualidades produtivas importantes. Outro ponto fundamental é a questão da consanguinidade nos acasalamentos. Se não controlada, pode comprometer todas as características de funcionalidade.

Revista AG - Por acaso, esse touro citado anteriormente seria o Basco? Em uma conversa na Sociedade Rural Brasileira, você disse que os criadores tinham acusado você de ter “castrado” o touro.

Arnaldo Borges - Aprendi com o meu pai que no melhoramento sempre eliminamos um defeito, nunca o indivíduo. O Basco tem duas características nas quais ele não é “muito positivo”, que são fertilidade e habilidade materna. Então, ele deve ser cruzado com matrizes férteis e com linhagens de boa habilidade materna. Resolve-se o problema na primeira geração de filhos. Por que ele é o líder do ranking nacional pelo quarto ano? Porque ele produz o modelo ideal do animal produtor de carne! É de tamanho moderado, bem acabado e bem arqueado.

Nos filhos do Basco não se vê uma ponta de osso na carcaça, eles têm cabeça pequena, o que facilita o parto, e possuem uma velocidade de acabamento impressionante, além da homogeneidade da sua produção. Você nem precisa perguntar se os bezerros são filhos dele. Então, o Basco tem qualidades importantes. A questão é administrar o acasalamento. Agora, não é porque é líder do Ranking que ele pode ser usado em qualquer rebanho. Se você acasalar o Basco com vacas de baixa fertilidade, ele vai gerar animais subférteis.

A genética não mente! Um criador, durante a ExpoZebu, pediu ajuda quanto à uma vacada linda e boa de carne, mas ruim demais de leite, e que estava pensando eliminar. Fiz a mesma sugestão, de acasalar com touros de excelente habilidade materna. Quando ele mostrou o pedigree delas, por coincidência, eram todas filhas de Paissandu (Pai do Basco). Paissandu também possuía uma carcaça exuberante e era filho de Lara da Navirai, vaca igualmente de ótima carcaça e ruim de leite, problema herdado também da linha paterna.

Revista AG - Como será o novo posicionamento da ABCZ em relação ao Nelore Ceip?

Arnaldo Borges - Estaremos próximos a todos os que fazem a pecuária. O Ceip é um trabalho que tem o seu mérito e a sua importância, tanto que no conselho técnico que vamos criar um dos integrantes será Rubens Catenacci. Outro belo exemplo é o Fernando Penteado Cardoso, na preservação da linhagem centenária Lemgruber. Muito criticado no início, hoje é difícil identificar um animal que não tenha sangue Lemgruber. A ABCZ não pode ficar junto apenas do grupo de pecuária seletiva, pois 90% dos projetos pecuários estão fora da entidade. A experiência da ABCZ pode ser muito importante a eles.

Revista AG - Ainda no que tange às relações, uma entrevista concedida sobre cruzamento industrial gerou muita polêmica. Seria a sua gestão um marco na aproximação entre zebu e taurino?

Arnaldo Borges - Em certa ocasião, conversando com o Ovídio Carlos (Marca OB), em 1987, ele comentou comigo que o Nelore precisaria da ajuda das raças taurinas para produzir carne de melhor qualidade. Eu respondi que não. Dentro do Nelore havia linhagens com excelente acabamento de carcaça, com carne macia e saborosa, a Golias (VR) e a Godavari (Rubico), da importação de 1960. E não é só o Nelore, não, Sindi e Gir dão uma carne muito boa. A fêmea zebuína é boa de leite, tem precocidade e qualidade de acabamento de carcaça. Ela soma. Não é como dizem por aí que a base Nelore contribui apenas com rusticidade. Em determinadas regiões do Brasil, o europeu só funciona acasalado com uma fêmea zebuína. O cruzamento tem seus méritos e seus valores. Um bom exemplo é o Girolando, que domina a produção de leite no Brasil e é resultante do cruzamento entre Holandês e Gir Leiteiro. Esse encontro entre zebu e europeu é saudável. Precisa haver troca de experiências e a participação do zebu na Expointer é prova disso.

Revista AG - Na gestão atual, surgiram alguns projetos bem quistos aqui na Revista AG, como o acordo para o Nelore com Top mínimo no julgamento e a expansão do atendimento dos técnicos da ABCZ extrarregistro. São projetos que vão continuar?

Arnaldo Borges - Já dei essa sugestão a alguns criadores que passaram pela presidência da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil, mas só recentemente veio a acontecer. Isso já devia ser praticado há muitos anos. Em relação ao técnico auxiliar no manejo da fazenda, isso existe desde 1980. Genética e manejo tem de andar em perfeito equilíbrio. Se houve essa evolução fantástica da pecuária brasileira, deve-se a esse trabalho. E nessa questão da genética, o próprio PMGZ tem muito a melhorar. Não adianta ter milhões de animais na base de dados se também não houver um sem- -número de gerações. Muito touro bem avaliado no programa não corresponde na progênie. Isso significa que temos muita coisa para melhorar.

Revista AG - É notório o esvaziamento de público da ExpoZebu nos últimos anos. Como você vai trabalhar para trazer de volta os criadores?

Arnaldo Borges - Vários fatores levaram a essa situação, um deles é a demora no julgamento, muito cansativo e monótono. Tem categoria que demora meia hora. E qual criador consegue ficar uma semana assistindo exposição? O sistema com três jurados é lento, isso só existe no Brasil e nas raças zebuínas. Também precisaríamos considerar a possibilidade de enxugar o número de premiações, o criador nem sabe listar o nome de todas elas. Há, por exemplo, um campeonato chamado “Bezerra Jovem”. Se a bezerra não é mais jovem, ela não é mais bezerra. A questão de termos tantos campeonatos é meramente comercial, para dobrar o valor dos animais nos remates. Vamos retomar os encontros entre técnicos e criadores para redefinir esses critérios de julgamento. Além disso, os leilões tomaram muito espaço na grade de programação, o que também deve ser reavaliado.

Revista AG - Julgamentos e rankings de raça ainda são importantes?

Arnaldo Borges - Em 2018, vamos comemorar 100 anos do registro genealógico, criado na Inglaterra. Vejo muita gente criticar os julgamentos, mas eles têm sua importância e são realizados mundialmente. Tudo tem seu tempo. Em 1980, o comentário dos jurados no Brasil resumia-se em três palavras: comprido, alto e enxuto. Enxuto porque naquele tempo dizia-se que gordura era um “veneno” à saúde. Durou até o início dos anos 1990. Hoje, esse animal não existe mais. Atualmente, os animais são de tamanho mediano, carcaça bem acabada, valorizam-se aprumos, fertilidade e maternal. Os animais são julgados com critérios funcionais. O modelo do zebu funcional é 50% de costela e 50% de membros. Claro que sempre existe a necessidade de mudanças. O radar precisa ficar ligado 24 horas. Muitas das críticas vêm de pessoas que sequer entram no parque de exposição.

Revista AG - A disputa foi muito apertada, decidida por uma pequena margem de 150 votos, ou seja, a cobrança vai ser forte. Você está preparado?

Arnaldo Borges - Antes do mês da eleição foi divulgada uma pesquisa que apontou 98% de satisfação em relação aos serviços prestados na gestão de Luiz Cláudio Paranhos. Se isso fosse verdade, a chapa concorrente deveria ter pelo menos 80% dos votos. Onde estão esses votos? Já em relação ao nosso trabalho, na chapa, tivemos o cuidado de formar uma diretoria com criadores de todas as raças zebuínas, incluindo o Kangayan, e com criadores de vários modelos de criação.


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