Caprinovinocultura

 

Aproveitamento sustentável

Projeto de pesquisa avalia benefícios de coprodutos da vinificação utilizados na alimentação de ovinos

Denise Saueressig
denise@revistaag.com.br

Aproveitar resíduos da produção vegetal na alimentação animal é uma forma sustentável de integrar as duas atividades e ainda gerar benefícios ambientais. No Rio Grande do Sul, uma pesquisa que envolveu o fornecimento de coprodutos da vinificação a ovinos indicou o grande potencial desse tipo de manejo.

Coordenado pela médica veterinária Fernanda Medeiros Gonçalves, que é doutora em Produção Animal, o trabalho foi conduzido na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e contou com a parceria da Estância Guatambu, Grupo de Pesquisa em Ecologia do Pastejo (GPEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e projeto Pecus, coordenado pela Embrapa. Os recursos para a pesquisa foram provenientes do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). “Envolver meus alunos em um estudo que abrangesse a produção animal, a sustentabilidade e o desenvolvimento territorial foi uma das minhas motivações para dar prosseguimento ao projeto”, conta Fernanda, que é professora do curso superior de Tecnologia em Gestão Ambiental da UFPel.

A Guatambu cedeu os resíduos da uva – cascas, bagaços e sementes – assim como as 40 ovelhas Texel que participaram do experimento realizado ao longo de 2015. Com sede em Dom Pedrito, município na fronteira com o Uruguai, a estância é referência de diversificação produtiva, com criação de gado e de ovinos e lavouras de arroz, milho, soja, sorgo e sementes forrageiras. O cultivo da uva teve início em 2003 e, dez anos depois, foi inaugurada a vinícola para a elaboração de vinhos finos. “Já havíamos feito testes preliminares nos quais notamos que os animais gostaram bastante do alimento e tiveram melhoria no ganho de peso. No entanto, precisávamos de uma base científica para ampliar a utilização”, conta o proprietário da Guatambu, Valter Jose Pötter.

Veterinária Fernanda Gonçalves: resíduos podem ser transformados pelos ruminantes em proteína de alta qualidade

Parte dos resíduos utilizada no estudo foi secada em estufa, de forma experimental, enquanto a outra parcela ficou ao sol por 72 horas na época da colheita da uva, entre os meses de janeiro e fevereiro. “O resultado ao sol foi melhor do que na estufa”, revela Fernanda. Depois, o material foi acondicionado em bolsas para conservação.

O coproduto foi acrescentado, em diferentes diferentes volumes (10%, 20% e 30%), à dieta de suplementação dos animais, que aceitaram muito bem o alimento. Um dos cuidados necessários durante a administração foi relacionado à sanidade, devido à alta concentração de cobre da matéria- -prima e à sensibilidade que os ovinos apresentam a esse elemento.

Ganho ambiental

Uma das principais conclusões do trabalho foi a redução de 14% na emissão de metano pelos animais que ingeriram o suplemento feito a partir dos coprodutos. As medições de expedição do gás foram conduzidas pelo bolsista de mestrado da Capes – Embrapa Rodrigo Chaves Barcellos Grazziotin. “Existem estudos que indicam que os taninos da uva podem modificar de certa forma a flora ruminal, auxiliando no processo digestivo”, explica Fernanda, justificando a diminuição das emissões.

Com a comprovação do benefício ambiental e da aceitabilidade pelos animais, Valter Pötter pretende aumentar o processamento dos resíduos na Guatambu. Para isso, está construindo uma calçada especialmente para a secagem da matéria-prima. “Pretendo usar o coproduto também entre o rebanho bovino, que precisa de mais suplementação em relação aos ovinos”, relata. Segundo ele, em uma safra cheia, são gerados entre 30 e 40 toneladas de resíduos provenientes da vinificação. “O custo de adoção do processo será mínimo, apenas com a construção do calçamento e o ensacamento do material. Já a redução dos gastos com a ração que é fornecida como suplementação é calculada em torno de 20%”, cita. “Esse recuo é ainda mais importante em momentos como agora, em que os dois principais componentes da ração animal – soja e milho – estão com altos preços no mercado”, acrescenta Fernanda.

Pötter ainda lembra que esse tipo de processo segue a linha de sustentabilidade que orienta o trabalho da estância. Desde maio deste ano, a estrutura da vinícola funciona com 100% de energia solar. “Um dos nossos principais objetivos é encontrar alternativas sustentáveis para as nossas atividades. No caso dos resíduos, o mais correto é fazer a passagem por outros ciclos, por meio da transformação”, observa.

Alternativa interessante

Apenas no Rio Grande do Sul, que é maior produtor de vinhos do País, mais de 700 milhões de quilos de uvas foram processadas pelas indústrias locais em 2015, segundo o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). O bagaço da uva representa em torno de 20% de toda a fruta que é beneficiada e tem sido utilizado principalmente na adubação de vinhedos. “O Brasil é um grande produtor de alimentos, e a pesquisa feita em parceria com as indústrias pode ajudar a elaborar maneiras de aproveitar a enorme quantidade de resíduos que são gerados por essa produção. São matérias-primas interessantes que podem ser transformadas pelos ruminantes em proteína de alta qualidade”, argumenta Fernanda, lembrando que a utilização desse tipo de material também pode representar uma alternativa para épocas de escassez de outras fontes de alimentos.

Experimento avaliou a emissão de metano pelos animais que ingeriram os coprodutos: resultado foi redução de 14%

A veterinária pretende dar continuidade ao tema nos seus estudos. Um dos próximos trabalhos deverá ser a avaliação da digestibilidade dos coprodutos e a função dos taninos na sanidade dos animais. Nessa etapa, devem participar pesquisadores do Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Lages. Fernanda também revela a intenção de ampliar as avaliações para outras fontes, como os resíduos da fabricação do azeite de oliva. O experimento deverá ser realizado em 2017, em parceria com o produtor Luiz Eduardo Batalha, que tem propriedade em Pinheiro Machado/RS.


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