Leite

 

ÓLEOS FUNCIONAIS

Dra. Juliane Diniz Magalhães*

Impulsionar a produtividade com foco em lucratividade é o instinto que move toda a cadeia produtiva, pecuaristas e técnicos, e empresas focadas em produção animal são incansáveis na busca por respostas às demandas dos animais de produção. Nesse contexto, novas e inovadoras tecnologias vem surgindo para melhorar os resultados produtivos e fornecer alimentos seguros e de qualidade à população.

Embora melhorar índices produtivos seja de suma importância, a sustentabilidade do sistema e a demanda dos consumidores por alimentos mais saudáveis, focando na manutenção da saúde da população, tem sido alvo de ações concretas em diversos países como os da União Europeia, Estados Unidos e Canadá, ao longo dos últimos anos, e no Brasil não está sendo diferente. Esse fato gera a necessidade de tecnologias alternativas ao uso de antibióticos melhoradores de desempenho e tem aumentado a demanda por aditivos naturais alternativos.

Mas qual a função dos tais “aditivos” na nutrição de bovinos? A principal função dos aditivos no rúmen é controlar o ambiente, favorecendo a fermentação, melhorando a digestão e o aproveitamento dos alimentos que são fornecidos. Esse incremento visa à melhora no desempenho produtivo, aumentando a produção de leite e sólidos ou carne.

O que se busca nos aditivos alternativos e quais são os tipos disponíveis no mercado? Espera- -se desempenho das funções semelhantes aos aditivos químicos, trazendo benefícios ao processo fermentativo no rúmen ou mecanismos de proteção à mucosa ruminal e intestinal, favorecendo a digestão e absorção dos alimentos, além do benefício extra de serem amigáveis ao ambiente e livres de resíduos. Como aditivos alternativos, já foram estudados e estão em uso na alimentação de bovinos, aves, suínos, peixes e mariscos: prebióticos, probióticos, leveduras, ácidos orgânicos, óleos e extratos de plantas, os últimos também chamados de fitogênicos.

Dentre os aditivos alternativos, o uso de óleos e extratos de plantas vem se ampliando a cada dia, o que tem feito técnicos do setor buscarem conhecimento de suas funções para orientar seu uso. Recentemente foram publicados em eventos científicos e revistas nacionais e internacionais resultados de pesquisas brasileiras comparando o uso de óleos funcionais (OF) na alimentação de bovinos de leite e de corte em substituição aos antibióticos ionóforos, comprovando sua efetividade como substitutos.

Mas o que são óleos funcionais? São óleos vegetais e extratos que possuem atividades além do seu conteúdo energético. Essas atividades dependem do tipo de óleo, podendo ter atividade antioxidante, antimicrobiana ou anti-inflamatória. São exemplos: o óleo de mamona, o líquido da casca da castanha do caju e o óleo de coco.

Muitas vezes os OFs são confundidos com os óleos essenciais (OEs), porém, eles têm características bem distintas. Ambos são extratos de plantas, mas os OEs são derivados de essências ou especiarias, como o alho, anis, alecrim, canela, tomilho, pimenta ou orégano e possuem o cheiro, a essência característica das plantas de origem. Já os óleos funcionais possuem funções específicas, atuando como antioxidantes, antimicrobianos ou anti-inflamatórios, sem apresentar o odor característico da planta que o originou.

Quando se fala em produtividade, principalmente em tempos de altas de insumos, como técnicos, temos por obrigação focar em tecnologias que impactam sobre a eficiência do sistema, melhorando o desempenho dos animais e trazendo impacto positivo sobre os custos de produção, é o que se tem visto com o uso dos óleos funcionais em pesquisas recentes realizadas em renomados centros de pesquisa nos Estados Unidos, Espanha e também no Brasil.

Aliados aos pré-requisitos de bem- -estar, programas nutricionais, reprodutivos, genéticos e sanitários, tudo com o objetivo de aumentar a produção de leite e carne e fornecer alimento à população, foram avaliados os resultados produtivos do uso dos OFs na produção de carne e leite.

Juliane afirma que óleos funcionais ajudam a aumentar a produtividade leiteira

Um dos exemplos é o resultado do experimento de doutorado do aluno Maurício Furlan Martins, realizado sob orientação do prof. Dr. Arlindo Saran Netto, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimento (FZEA/USP) em Pirassununga-SP, vacas de leite em condição de estresse térmico foram alimentadas com a mesma dieta, só diferindo no uso ou não de aditivos. Foi utilizado um óleo funcional comercial composto pelos princípios ativos: cardol, cardanol e ácido ricinoleico (OF), comparado ao grupo controle (sem aditivos) e ao uso de antibiótico ionóforo (monensina sódica).

Os óleos funcionais aumentaram a porcentagem de gordura no leite em relação à monensina

Os resultados demonstraram que o OF aumentou a produção de leite e sólidos (Figura 1) e ainda aumentou o consumo de matéria seca em condições de estresse térmico e melhorou parâmetros sanguíneos como a redução na ureia plasmática (Tabela 1).

1 Óleo funcional (OF): cardol, cardanol e ácido ricinoleico, 500 mg/kg MS ingerida; *P<0,05; **P<0,01.
Fonte: MARTINS, M. F.; NETTO A. S.; LEME, P. R.; PINHEIRO, M. G.; TORRENT, J.; WELTER, K. C.; ARRUDA, I. Effects of functional oils and monensin supplementation on ruminal fermentation and milk production and composition in Holstein cows under heat stress. Journal of Dairy Science, v. 98, Suppl. 2, 2015

Outro estudo com os mesmos compostos ativos (OFs) foi realizado pelos professores. Dr. Arlindo Saran (FZEA/USP), Dr. Francisco Palma Rennó (FMVZ/USP) e Dr. Elmeson Ferreira de Jesus, na época, orientado do Prof. Rennó. Nesse caso, os OFs foram comparados a um grupo controle (sem aditivos) e ao antibiótico ionóforo (monensina sódica), em uma dieta balanceada para vacas de 31 kg de leite em média, fazendo uso de pré-secado de azevém como uma das fontes de volumoso. No experimento, utilizaram-se vacas canuladas no rúmen para avaliação dos efeitos dos aditivos, alterando parâmetros ruminais, além das avaliações de produtividade e parâmetros sanguíneos.

¹OF: óleo funcional (composto por cardol, cardanol e ácido ricinoleico) 500 mg/kg MS ingerida; *P<0,05; **P<0,01. Fonte: FERREIRA DE JESUS, E.; DEL VALLE, T. A.; CALOMENI, G. D.; SILVA, T. H.; TAKIYA, C. S.; VENDRAMINI, T. H. A.; PAIVA, P. G.; SILVA, G. G.; NETTO, A. S.; RENNÓ, F. P. Influence of a blend of functional oils or monensin on nutrient intake and digestibility, ruminal fermentation and milk production of dairy cows. Animal Feed Science and Technology. v. 219 p. 59-67, 2016

Foi observado aumento médio em 1,21 kg/ dia na produção de leite com o uso de aditivos, sem afetar o consumo de alimentos (Tabela 2). Novamente os OFs aumentaram a porcentagem de gordura no leite em relação à monensina, além de aumentar a porcentagem de lactose (Tabela 2). Os OFs também melhoraram a fermentação ruminal, aumentando a produção de propionato e de ácidos graxos de cadeia ramificada e novamente reduziram a ureia plasmática, sendo esse um parâmetro de grande importância para efeitos sobre a reprodução em propriedades leiteiras com vacas de alta produção (Tabela 3).

Não há segredos na utilização dos OFs. São compostos que melhoram o ambiente ruminal, trazendo saúde e maior fermentação e fazendo com que a vaca expresse sua habilidade em produzir leite. Todos sabemos que, para um ruminante, a saúde do rúmen é determinante em sua vida produtiva, ou seja, saúde ruminal é sinônimo de produção e qualidade do leite.

Porém, na prática, em quanto os produtores têm se beneficiado com o uso dos OFs? A campo, produtores e técnicos têm observado aumento na produção de leite em 1,2-1,5 kg de leite/dia, além do incremento em sólidos no leite, garantindo um alimento seguro, maior produtividade na indústria de lácteos, saúde aos animais e aos consumidores.

Com todos os benefícios citados, os OFs podem substituir o uso de antibióticos ionóforos, incrementando ganhos em produtividade e alterando o perfil de sólidos no leite. Porém, a escolha do produto vem do conhecimento do técnico e da avaliação dos resultados de pesquisa, sempre atentos aos compostos ativos nele presentes.

*Juliane é gerente de Ruminantes da Oligo Basics na Região Sul - juliane@ oligobasics.com.br

 


Warning: getimagesize(/revistas/ag/imagens/id_420/leitee_1.jpg) [function.getimagesize]: failed to open stream: No such file or directory in /home/storage/a/fb/47/edcentaurus/public_html/edcentaurus/application/controllers/AgController.php on line 441