Na Varanda

 

Pecuária competitiva exige gestores empresariais

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

Desde os relatos bíblicos a economia desenvolve-se em ciclos. Anos de vacas gordas, tradicionalmente, são seguidos por períodos de baixa. Naturalmente, com o avanço de tecnologias em todas as frentes e com ferramentas modernas de gestão, os padrões históricos podem sofrer modificações. Porém, a ciclicidade continuará pelo fato de o mercado ser um sistema vivo.

É inquestionável o extraordinário avanço da produção de carnes no Brasil. A combinação da expansão da área de grãos e de pastos com os saltos qualitativos na genética animal é responsável pela façanha que podemos chamar de “milagre 45-45- 45/15-15-15”. Há 45 anos, a população rural representava 45% do total e a família brasileira gastava 45% da sua renda familiar com comida. Em 2015, apenas 15% dos brasileiros viveram no campo e, mesmo assim, o gasto da família urbana com alimentação reduziu-se para 15%. Tudo isso enquanto a população dobrou de 1970 para cá. No mesmo período, o País evoluiu de importador para um dos principais exportadores de carne.

Como isso foi possível? Os já citados fatores como expansão da área, criação da tecnologia tropical e explosão da demanda não teriam resultado no boom da produção de carnes se não tivesse havido o excepcional dinamismo do empreendedor rural. Coragem, trabalho de sol a sol e a habilidade de sobreviver às sucessivas crises ao longo das últimas décadas consolidaram o produtor rural como principal âncora da economia nacional. Com esse histórico, a população que vive no campo tornou-se um alicerce sólido da sociedade brasileira em transformação acelerada.

Mas as receitas de sucesso do passado vencerão também os desafios do futuro? Provavelmente não. A produção vegetal e animal está passando por profundas mudanças de seus sistemas produtivos. A interação entre a biotecnologia, nanotecnologia e tecnologia da informação cria um ambiente quase revolucionário, no qual cada produtor precisa procurar e encontrar seu lugar. O chamado posicionamento competitivo será o fator decisivo para se continuar crescendo e lucrando no melhor negócio do Brasil que é o de produzir alimentos.

Que habilidades cada produtor deve desenvolver? Trata-se da ruptura com tradições de sucesso e da conquista de novos conceitos e práticas, ou seja, da criação de um novo modelo de negócio para a produção de carne. O difícil é encontrar o equilíbrio entre a experiência do atual dono e o conhecimento em constante redefinição que só a nova geração pode trazer para dentro da fazenda. Independentemente de quem será esse jovem - pode ser filho, filha, sobrinho ou um profissional do mercado - a habilidade de sincronizar as boas práticas do passado com os novos conceitos tecnológicos, gerenciais e comerciais representa o desafio principal na caminhada da tradição do produtor na pessoa física para o modelo de negócio empresarial.

Nos próximos anos, cada vez mais propriedades serão transformadas em entidades jurídicas. Será necessário criar um sistema de governança que atenda as expectativas dos sócios (futuros herdeiros) e as exigências dos bancos e, bem em breve, das autoridades de sanidade e da receita federal. Ou seja, a pecuária seguirá o caminho que os outros setores já estão trilhando há algum tempo.

A bovinocultura se transformará em um novo negócio, com tecnologias, arranjos comerciais e práticas de gestão mais sofisticadas. Não haverá caminho de volta pois, conforme a estimativa da Embrapa, quase a metade dos atuais produtores de animais irá desistir da atividade ao longo dos próximos 20 anos. Os números do êxodo rural e pesquisas qualitativas com jovens futuros herdeiros sobre seu interesse em continuar com a atividade dos pais reforçam essa previsão. Porém, quem conseguir ajustar seu modelo de negócio a esse novo cenário se beneficiará da demanda crescente por alimentos, seja ela do mercado interno ou da exportação. Em seu relatório sobre as tendências do setor, o Mapa estima em 3%/ano o aumento da demanda por carnes nos mercados interno e da exportação.

É de lembrar que a modernização passa pelas pessoas; todo o resto se organiza em torno da capacidade humana. Por isso, é urgente a maior profissionalização em todos os níveis, desde o sucessor do atual comandante, ao tratador de animais, o piloto de tratores e máquinas sofisticadas e até os operadores de robôs, no caso de granjas. Diferentemente do passado, o lucro não virá mais só do suor do produtor incansável, mas sim da inteligência na coordenação de sistemas, processos e pessoas. Cabe a nós prepararmos a próxima geração para esses novos desafios da pecuária de precisão em um mercado global cada vez mais integrado e competitivo. O foco deve estar no desenvolvimento de habilidades novas, basicamente centradas na gestão e motivação de pessoas, tanto dentro da equipe da empresa como fora dela. A intensificação da colaboração com os técnicos das indústrias de insumos e dos frigoríficos, bem como o crescente uso de consultorias especializadas, requer esse novo perfil do produtor de “carne certificada”.

Nos próximos encontros em nossa Varanda iremos refletir sobre como o sistema como um todo, ou seja, a maior interação entre todos os elos da cadeia da carne, pode encarar esses desafios através de programas e ações em conjunto. A complexidade e a dinâmica da transformação acelerada da pecuária tradicional em direção do fornecimento de alimentos certificados com padrões internacionais não podem ser encaradas apenas com a energia empreendedora dentro da porteira. O esforço é hercúleo e exige a união de forças que dará uma nova cara à produção da carne.


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