Confinador

 

CONTRA AS MICOTOXINAS

A inclusão de adsorvente em dietas bovinas aumenta a rentabilidade das propriedades

Fernando Henrique Kamada*

A intensificação da produção de bovinos de corte ocorrida nos últimos anos, tanto a pasto quanto confinados, somente é possível por meio do fornecimento de grãos e/ou seus subprodutos. Outra mudança observada é o aumento no número dos confinamentos de animais mais jovens, o que acaba acarretando em um maior período de fornecimento de ração aos rebanhos. Com isso, expomos as criações a diversos riscos que podem comprometer o desempenho ou até mesmo causar a morte. Tratando-se de fatores nutricionais, destacamos os problemas causados pelas micotoxinas.

Essas substâncias tóxicas são produzidas por fungos que podem estar presentes em todos os processos de produção, desde o pasto ou lavoura até o armazenamento e processamento dos grãos. Possuem propriedades que afetam diretamente o desempenho dos animais, podendo interferir desde o consumo de matéria seca e até causar graves lesões em diversos órgãos do organismo, levando ao óbito.

Para combater os prejuízos causados pelas micotoxinas, há no mercado de nutrição animal aditivos capazes de neutralizar sua ação por mecanismos de adsorção. A utilização de adsorventes de micotoxinas para bovinos de corte é um assunto relativamente novo, porém, os resultados obtidos no campo chamam a atenção de técnicos e produtores.

Todos já ouvimos que os ruminantes são menos suscetíveis à contaminação por fungos e suas toxinas, pois as bactérias do rúmen podem degradar esses compostos. Isso em parte é verdade, porém, a eficiência da degradação dessas substâncias depende de vários fatores como: pH ruminal, categoria animal, grau de contaminação dos alimentos, tipo de micotoxinas, quantidade ingerida e interação entre os diversos tipos, período de exposição à dieta contaminada, entre outros.

Quantas vezes durante o confinamento não vemos oscilações de consumo de ração, surtos de diarreia ou alterações nas fezes, lotes com animais apáticos, arrepiados e, em alguns casos, até a morte de algum indivíduo? Em geral, correlacionamos essas alterações às mudanças no clima, às chuvas ou aos problemas sanitários. Porém, quando começamos a estudar os efeitos das micotoxinas nos ruminantes, podemos ligar os pontos e responder muitos desses problemas identificados no campo.

A compilação de diversas análises de alimentos utilizados nas dietas de animais mostrou que 99% das amostras apresentavam contaminação e mais de 60% tinham de dois a cinco tipos diferentes de micotoxinas. Isso ocorre pela fácil proliferação de fungos por diversos ambientes.

Locais de armazenagem úmidos, instalações inadequadas, silos mal compactados ou com furos e rasgos nas lonas, falta de manutenção e limpeza dos equipamentos utilizados no processamento da dieta tornam o ambiente propício para o desenvolvimento de fungos. Outros estudos mostram que a presença desses microrganismos nas lavouras faz com que os grãos cheguem aos depósitos já contaminados. Nesse caso, mesmo com bom manejo de armazenamento e processamento, a contaminação é irreversível.

As principais micotoxinas associadas com alimentos incluem aflatoxina, vomitoxina (também chamada de deoxinivalenol ou DON), fumonisina, T2, zearalenona e ocratoxina. Os problemas relacionados à presença dessas toxinas na dieta de ruminantes variam desde a redução de consumo de alimento e ocasionam as reações já citadas que afetam a rentabilidade das propriedades e prejudicam o bem-estar do rebanho.

É por isso que recomendamos a utilização preventiva do adsorvente de micotoxinas nas dietas, pois a probabilidade de o alimento estar contaminado é muito alta. Esse aditivo funciona como uma esponja que atrai e adere em sua estrutura as toxinas presentes no alimento, evitando que sejam absorvidas e causem danos ao animal.

Existem atualmente no mercado diversos tipos de produtos que cumprem essa função, os quais podem ser subdivididos em duas categorias principais considerando seus métodos de adsorção: aqueles com base formada de silicatos e argilas, que atuam por diferença de cargas elétricas, e os compostos por parede celular de leveduras e algas.

Segundo Fernando Kamada, os adsorventes atuam por meio da parede celular de levedura e algas

Os primeiros têm como principal desvantagem sua baixa seletividade, uma vez que, além de micotoxinas, esses compostos acabam por adsorver outros elementos presentes na dieta, tais como vitaminas, minerais e aditivos, que para serem supridos precisam ter seus níveis elevados na fórmula nutricional.

Já os adsorventes que atuam por meio da parede celular de levedura e algas apresentam maior poder de seleção e adsorção. Nesse caso, uma vez aderidas à parede celular, as micotoxinas são neutralizadas e tornam-se indisponíveis para a absorção. Dessa maneira, não há interação do adsorvente com os demais elementos da dieta, deixando-os disponíveis para o animal.

Nesse ano, muitos pecuaristas estão utilizando subprodutos de cereais nas dietas oferecidas aos animais por conta da baixa oferta e alto custo do milho. Em algumas regiões onde choveu muito na época da colheita, como em Mato Grosso do Sul, há grande oferta de soja “ardida” e resíduos da agroindústria a preços competitivos. Nessas condições adversas em que se encontram essas matérias-primas, a possibilidade de contaminação por micotoxinas é muito alta.

A utilização desse material na ração aumenta a ingestão de micotoxinas, tornando a utilização do adsorvente fundamental para prevenir os problemas já descritos. Quando há inclusão desses produtos na alimentação sem as devidas precauções é comum observar variações de consumo, que ocasionam a queda no desempenho.

Outro fator importante que observamos, além da prevenção de distúrbios e segurança alimentar, é o aumento no ganho de peso dos animais. Na tese de mestrado realizada por Marson, B. em 2014, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), foi relatado o acréscimo de 139 gramas no ganho de peso médio diário por animal do grupo que recebeu 10 gr/dia do adsorvente de micotoxinas em relação ao grupo controle.

O benefício-custo do produto pode ser calculado conforme a fórmula a seguir:

Dose: 10 g/animal/dia = 1 kg no período de 100 dias
Custo do aditivo: R$ 15,00/kg
Incremento de ganho de peso: 139 g/dia = 13,9 kg de
peso vivo no período de 100 dias ou 7,5 kg de carcaça,
considerando 54% de rendimento.
R$/kg de carcaça: R$ 150,00/15 (1 @) = R$ 10,00 por
quilo de carcaça
Receita =>7,5 kg de carcaça x R$ 10,00 por quilo =
R$ 75,00 adicionais
Custo do aditivo no tratamento=> R$ 15,00
Lucro do tratamento: R$ 75,00 – R$ 15,00 = R$ 60,00
Relação custo/benefício => R$ 15,00/R$ 75,00
Para cada R$ 1,00 investido, houve o retorno de R$ 5,00

Costumamos dizer que a inclusão do adsorvente na ração de bovinos funciona como um seguro, pois muitos sinais da presença dessas substâncias são invisíveis aos olhos, mas causam muitos prejuízos no sistema de produção.

Quanto maior a intensificação dos sistemas de produção, maiores são as adversidades às quais os animais são expostos. Porém, o emprego pontual de ferramentas de manejo somados à utilização correta de aditivos é capaz de minimizar possíveis riscos nutricionais e tornar a atividade pecuária mais lucrativa e rentável.

*Fernando Henrique Kamada é zootecnista, especialista em alimentação e nutrição de ruminantes e atua como assistente técnico na empresa União Suplementação Animal.


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