Entrevista

 

Um novo NELORE

Atenta às demandas de mercado, a raça Nelore deseja atender tanto a dona de casa que deseja uma carne mais magra quanto o importador mais exigente em gordura e marmoreio. Para tratar das novas diretrizes, convidamos Renato Diniz Barcellos Correa, novo presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB).

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Geneticamente, como você avalia a evolução do gado Nelore?

Renato Barcellos – A evolução da raça tem sido constante, devido à crescente adesão e à utilização das ferramentas fornecidas pelos programas de melhoramento genético existentes. Acho que as diferentes linhas de seleção estão em um processo de convergência, revisando e uniformizando seus conceitos. Em função do tamanho do rebanho, da extensão territorial do País e da diversidade de condições a que é submetido, naturalmente existem variações de qualidade no rebanho Nelore brasileiro. Na média, ainda há muito espaço para melhorar. Mas a evolução nos últimos anos é muito grande. A excelência da raça é vista a olho nu tanto nas pistas de julgamentos como nos currais dos frigoríficos.

Revista AG - Qual a faixa etária e o peso médios dos bovinos dos associados ao abate?

Renato Barcellos – Os números apurados pelos abates do Circuito Boi Verde de Julgamentos de Carcaças, promovido pela ACNB, evidenciam essa questão. Em 2015, foram avaliados nessa iniciativa 3.758 animais em cinco estados do País, sendo que 92,5% tinham até 4 dentes incisivos permanentes (d.i.p.), ou seja, classificados como novilho precoce; 78,3% tinham até 2 d.i.p.; 75,8% dos animais apresentaram-se com peso de carcaça quente acima de 18 arrobas; e 73% deles, com acabamento de gordura mediana ou uniforme. Esses indicadores provêm de 53 lotes diferentes, de produtores convidados. Acredito que seja uma boa mostra do estágio atual da raça Nelore, em condições de produção nas principais regiões pecuárias do País.

Revista AG - Quais características um bom touro Nelore deve possuir?

Renato Barcellos – Entendemos que o pré-requisito é o touro ser registrado como Puro de Origem (PO) e ter algum tipo de avaliação de desempenho própria e/ou de suas progênies. Fenotipicamente, o reprodutor deve ter proporções equilibradas, aprumos corretos, bons aparelhos reprodutivos, carcaça volumosa, beleza racial e masculinidade evidenciada. É importante salientar que a escolha do touro deve levar em conta o perfil do rebanho de matrizes no qual ele será utilizado. Deve complementar ou corrigir as características já fixadas no rebanho, sempre se levando em conta o objetivo da seleção. Nesse sentido, a participação em programas de melhoramento genético pode ajudar muito.

Revista AG - O fator de endogamia foi uma grande preocupação anos atrás. Hoje esse problema foi contornado? Pergunto isso porque tivemos informações que o Nelore indiano está sendo cruzado com gado leiteiro e agora ficou mais difícil achar genética pura.

Renato Barcellos – A endogamia é uma questão para a qual devemos estar atentos, mas ela tem sido mantida em níveis que não comprometem a produtividade e não geram problemas. As últimas importações de material genético da Índia são de animais puros. Seriam mais uma opção de refrescamento que já está disponível ao mercado.

Revista AG - Também vivemos um apogeu no cruzamento industrial. A ACNB enxerga as raças taurinas como parceiras para a produção de carne de qualidade?

Renato Barcellos - Com certeza somos todos parceiros. O cruzamento entre raças, principalmente entre zebuínas e taurinas, é uma das alternativas de produção viáveis. Cabe a cada produtor avaliar se as condições de sua propriedade se adaptam a isso. É importante salientar que a qualidade da matriz Nelore tem papel fundamental para o sucesso desse cruzamento. A máxima heterose é obtida nos animais meio-sangue, e como a própria proporção diz, a raça Nelore é responsável por metade do resultado final. Ainda em relação à qualidade das matrizes, quem faz cruzamentos deve ter muita atenção em relação à reposição delas.

As fêmeas ofertadas no mercado podem não ter a qualidade desejada ou terem custo elevado quando o padrão é superior. Fazer a reposição com as fêmeas nascidas na propriedade, fruto do repasse feito com touros nas matrizes não emprenhadas na inseminação artificial, parece-nos uma seleção contrária à produtividade. Outro ponto a se destacar é que, quando se faz um cruzamento intra ou inter-racial visando ao aumento da produtividade, deve-se estar preparado para suprir as necessidades desses produtos que, com certeza, serão mais exigentes em nutrição e manejo do que o rebanho base.

Em nossa concepção, a decisão por qual material genético a ser utilizado deve começar pela avaliação do estágio atual da propriedade e do rebanho. Graças à seleção genética realizada em alguns criatórios de Nelore, e tomando-se como referência a média do rebanho de corte nacional, em muitos casos o cruzamento entre Nelore Comercial e Nelore Selecionado pode ser uma ótima opção de cruzamento industrial.

Revista AG - Aliás, aproveitando o gancho da carne de qualidade, qual seria o balanço geral do Programa Nelore Natural?

Renato Barcellos – O balanço é positivo. O número de produtores participantes cresce continuamente e grande parte deles consegue classificar um percentual de seus animais nos padrões do Programa de Qualidade Nelore Natural (PQNN), ganhando premiações sobre o valor da arroba por isso. Observa-se também que o índice de classificação de animais dentro dos padrões exigidos, invariavelmente, é crescente ao longo do tempo de participação dos produtores no Programa. Anualmente, o PQNN abate cerca de 250 mil animais, dos quais perto de 100 mil são classificados nos padrões Nelore Natural. No final de 2015, junto com a Marfrig (frigorífico exclusivo no Programa), alteramos a estratégia comercial para a linha de cortes com o selo Nelore Natural e, com isso, tivemos um crescimento muito grande no número de clientes e volume de carne desossada comercializados. Nos seis primeiros meses de 2016, foram produzidas 709,26 toneladas, cerca de 815% acima do volume registrado em igual período do ano passado.

Revista AG - Nem sempre o relacionamento entre a ACNB e ABCZ foi próximo. Hoje, como você avalia essa relação?

Renato Barcellos – Há várias gestões a ACNB vem mantendo estreita relação e parceria com a ABCZ, em várias iniciativas. Pretendemos continuar dessa forma, contando com o apoio da entidade às nossas iniciativas.

Revista AG - Tanto é verdade que um ótimo projeto nasceu dessa parceria, com a ACNB comprometendo-se a restringir a participação nos julgamentos somente a gado avaliado até TOP 20% nos seus programas de avaliação genética até 2021. Essa ação busca aproximar as pistas dos pastos?

Renato Barcellos – O estabelecimento dos índices mínimos em programas de melhoramento genético, para a participação dos animais no Ranking Nacional, foi implementado pela Diretoria da ACNB na gestão do amigo Pedro Novis, da qual também fiz parte. Esses índices devem ser verificados no momento do acasalamento que dará origem ao produto, através de qualquer programa de melhoramento genético reconhecido pelo Mapa. Com o passar dos anos, as exigências vão aumentando gradativamente de forma que, a partir de 1º de novembro de 2021, os índices dos acasalamentos dos animais que se pretende levar às pistas devem estar entre os 20% melhores (TOP20%).

Essa medida tem o objetivo de reforçar o compromisso dos criadores participantes dos julgamentos raciais com a produtividade e a eficiência da raça Nelore, sem negligenciar a pureza, a beleza racial e outras características fenotípicas essenciais em matrizes e reprodutores. A raça Nelore é única, com animais com e sem chifres; concebidos através de FIV, inseminação artificial ou monta natural; puros ou “caras limpas”; para a reprodução ou para o abate; entre outras segmentações. O desafio comum a todos é reforçarmos a posição do Nelore como produtor de carne de qualidade, em quantidade.

Revista AG - Ainda nesse quesito, as características relacionadas a habilidade materna, precocidade sexual e acabamento de carcaça ganharão atenção especial nos próximos anos?

Renato Barcellos – Essas são características importantes que já vêm sendo trabalhadas. Na maioria das regiões do País, temos visto concorrência pelo uso da terra e para ser competitiva a pecuária precisa ser eficiente. Nesse sentido, é fundamental encurtar o ciclo de produção. A seleção animal é uma arte complexa, na qual existem correlações e antagonismos. As opções devem ser feitas de acordo com o status do rebanho e os objetivos a serem atingidos.

Revista AG - Como você imagina o Nelore daqui a 20 anos? Com carne macia e marmorizada, é possível?

Renato Barcellos - O Brasil tende a fortalecer cada vez mais seu papel relevante no fornecimento de alimentos para a população mundial crescente. Nesse sentido, a raça Nelore continuará sendo protagonista. Em nossa gestão na ACNB, vamos trabalhar para fortalecer cada vez mais a marca Nelore como um produto de qualidade e ampliar nossos mercados de atuação. A vocação principal do Nelore é produzir carne saudável, com baixo teor de gordura na sua porção vermelha, oferecendo ao consumidor a opção de separar a gordura no momento do preparo ou do consumo.

Mas, comprovadamente, há indivíduos e linhagens capazes de produzir carne com marmorizado similar aos animais de raças europeias. Essa capacidade do Nelore de atender diferentes perfis de mercado é um de seus grandes diferenciais. Cabe aos produtores, em sintonia com as indústrias frigoríficas, identificar os potenciais de mercado, apurar os custos envolvidos e a remuneração oferecida, e ajustar a produção de acordo com a opção que melhor lhe convenha. O Nelore do século XXI é dócil, precoce, eficiente e produz carne, em quantidade e com qualidade.

Revista AG - Para tanto, a genômica também será de fundamental importância. Quais projetos a associação conduz nesse quesito?

Renato Barcellos – A atividade pecuária vem assimilando tecnologias em uma velocidade muito grande. Inseminação artificial, IATF, TETF, clonagem, fazem parte do dia a dia do segmento de seleção. As tecnologias no âmbito da nutrição e do manejo também são cada vez mais utilizadas. Os programas de melhoramento genético ampliam seus quadros de participantes diariamente, e os índices e DEPs tornaram-se obrigatórios para a comercialização de reprodutores. As ferramentas genômicas, adequadas à raça Nelore e ao ambiente tropical da maioria das regiões pecuárias do País, podem auxiliar e acelerar os ganhos genéticos. O PMGZ desenvolvido pela ABCZ é o Programa de Melhoramento Genético Oficial da ACNB. Participamos do conselho diretor do Programa e a incorporação da genômica tende a se dar através dele.

Revista AG - Quais são as metas pessoais para sua gestão?

Renato Barcellos - Sinto-me muito honrado em assumir a presidência da Nelore do Brasil. A entidade já foi presidida por grandes nomes da pecuária Nelore. Estar entre eles é um grande prestígio e também um ótimo desafio. Tenho a missão de suceder o amigo Pedro Novis, que fez uma brilhante gestão à frente de nossa associação, mas assumo a entidade com muita vontade de trabalhar em prol da raça Nelore e da pecuária nacional. Nosso foco é consolidar o Nelore como a melhor opção para a produção de carne saborosa e saudável, de forma eficiente, sustentável e rentável, na grande maioria das regiões pecuárias do País. Além disso, acompanharemos as sinalizações do mercado e de nossos associados, de forma a manter a ACNB sempre na linha de frente da promoção da raça de maior expressão no rebanho nacional.

Revista AG - Tem algum projeto da gestão anterior que será preservado ou ampliado?

Renato Barcellos - Vamos manter e ampliar todos os atuais projetos. A ACNB possui várias frentes de atuação, entre elas o Programa de Qualidade Nelore Natural, o Circuito Boi Verde de Julgamentos de Carcaças, o Ranking Nacional, os Leilões Oficiais, a Universidade do Boi e da Carne, a Expoinel e a Nelore Fest. Todos têm um ponto em comum: valorizar e estimular a produção de animais superiores, alinhando qualidade e rentabilidade a toda cadeia produtiva. Conforme mencionei anteriormente, acredito que no aspecto técnico a raça tem evoluído continuamente. O sistema de produção brasileiro, a pasto e a partir de genética Nelore selecionada, deve ser utilizado como um diferencial de mercado.

Revista AG - Existem ações voltadas ao fomento da raça no Sul do País?

Renato Barcellos – Atualmente não temos nenhum projeto de fomento específico para o extremo Sul do País. No Paraná, temos a Associação dos Neloristas do Paraná (Anel), conveniada à ACNB, que faz o fomento da raça no estado. No passado, tivemos a Associação Sulina do Nelore que congregava os criadores de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, mas infelizmente a entidade paralisou suas atividades. Temos conhecimento do eficiente trabalho realizado pela Associação dos Criadores Gaúchos de Zebu (ACGZ). Nossa entidade permanece à disposição para contribuir com os criadores da região. Conforme mencionado anteriormente, temos a plena certeza de que a raça Nelore pode contribuir sobremaneira para os cruzamentos.


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