Caprinovinocultura

 

Bem-estar que favorece a produção

Assegurar condições adequadas e livres de estresse para os animais deve fazer parte das práticas de manejo e é critério fundamental para a sustentabilidade da atividade

Denise Saueressig
denise@revistaag.com.br

Sujeitos às mais diversas interferências do ambiente em que vivem, os animais de produção também são vítimas de estresse. Pesquisas mostram que, quando submetidos a condições inadequadas, as diferentes espécies respondem por meio de comportamentos inadequados e falhas de produtividade, o que pode provocar impactos negativos sobre a rentabilidade da criação e sobre o produto final que será entregue ao consumidor.

Os ovinos foram os primeiros animais de produção domesticados, tendo mais de 12 mil anos de história com os humanos, relata o médico veterinário Adroaldo Jose Zanella, doutor em bem-estar animal com uma trajetória de mais de 30 anos de trabalho na área. “Estudos científicos sinalizam que ovinos reconhecem estados emocionais em humanos e evitam pessoas negativas. Os ovinos lembram outros animais por mais de dois anos de separação e tem uma coesão social muito intensa”, revela, citando que, dos animais de produção, os ovinos são um dos mais sensíveis ao tratamento dos humanos.

“Em trabalhos que fizemos na Noruega e na Escócia, mostramos que o tratamento negativo, para ovelhas gestantes, como gritos e manejo sem previsibilidade, causam alterações no cérebro dos fetos, comprometendo memória e estados emocionais. Cordeiros nascidos de ovelhas que receberam tratamento negativo demonstram medo exagerado de humanos e assustam-se com facilidade”, acrescenta o especialista.

Atualmente professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP), Zanella foi responsável pela criação, em 1996, do programa de Comportamento e Bem-Estar Animal na Michigan State University, nos Estados Unidos. Em 2011, quando trabalhou na Scotland’s Rural College, em Edimburgo, coordenou o projeto AWIN (Animal Welfare Indicators), financiado pela União Europeia para desenvolver protocolos científicos de avaliação de bem-estar animal.

Por meio desse programa, foi criado um aplicativo que auxilia os produtores a monitorar e identificar problemas relacionados ao estresse, avaliando fatores de relevância econômica como parasitismo, lesões, claudicação, condição corporal, respostas para as interações com os humanos, sujidade da lã e mortalidade de cordeiros.

Veterinário Adroaldo Jose Zanella: investir no treinamento das pessoas que interagem com o rebanho é a melhor forma de colaborar com o bem-estar dos animais

Segundo o professor, existe a ideia equivocada de que os ovinos sentem menos dor do que outros animais. No entanto, investigações sobre o tema revelaram que a espécie é capaz de esconder manifestações de dor. “Isto é relevante, porque como são animais predados, faz muito sentido não revelarem sinais de fraqueza, o que os transformaria em presas de escolha pelos predadores.

Quando estudamos a variabilidade cardíaca e mudanças fisiológicas nas ovelhas com dor, ficamos muito surpresos pela resposta, que não era visível nas observações comportamentais. Também percebemos que ovelhas são profundamente afetadas quando seus cordeiros sofrem dor, como castração ou corte de cauda”, relata o professor.

Estudos indicam que cordeiros nascidos de ovelhas que receberam tratamento negativo demonstram medo exagerado de humanos e se assustam com facilidade

Necessidade de evolução

Investir no treinamento das pessoas que interagem com o rebanho é a melhor forma de colaborar com o bem-estar dos animais. Além das medidas básicas, como o fornecimento de alimento de boa qualidade o ano todo, é importante que processos que causam dor sejam eliminados ou, quando necessários, sejam conduzidos com medidas de controle da dor. “Claudicação causada pelo foot-rot (podridão dos cascos) é um problema muito sério em todos os países criadores de ovinos, assim como a mortalidade dos cordeiros é um tema de muita preocupação. O transporte, o manejo pré-abate e o abate precisam também de ações imediatas para minimizar o sofrimento dos animais”, enumera Zanella.

A evolução do tema ainda é muito modesta no Brasil, na opinião do especialista. O bem-estar animal faz parte dos currículos em escolas de Veterinária, Zootecnia e Agronomia, integra discussões acadêmicas desde o final da década de 1980 e vem conquistando espaços nos órgãos governamentais. No entanto, um indicador importante é a ausência da área nos mecanismos de financiamento de pesquisa. “Enquanto Chile, Uruguai e México fazem parte de um Centro Colaborador da Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE) para bem- -estar animal, o Brasil não tem uma presença internacional no nível de sua liderança global na produção pecuária. O País ainda não leva a sério a questão, o que é lamentável, pois junto com segurança alimentar e impacto ambiental, essa é uma das três áreas de maior importância para a produção animal no mundo”, constata.

A tendência, na opinião do professor, é de mudanças nesse cenário. Um consórcio que envolve diferentes agentes da cadeia da ovinocultura planeja o lançamento de um projeto na área durante a Expointer, feira que acontece em Esteio/RS entre os dias 27 de agosto e 4 de setembro. Deverão participar do programa representantes da Embrapa, de universidades, do Ministério da Agricultura e da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco).


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