Na Varanda

 

Vamos ter UBER na Pecuária?

Francisco Vila
é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

Na verdade, já temos. Pelo menos nos Estados Unidos os produtores rurais usam aplicativos avançados para racionalizar o uso de maquinário caro através de aplicativos. Porém, aqui também eles já existem. Aliás, sempre existiram, pois a prática de bens compartilhados existe desde a criação das Cooperativas Rurais, no início do século passado. O que há de novo, então? Vamos analisar o termo Uber sob duas óticas. Primeiro, a da substituição gradativa de ativos por soluções móveis à base da inteligência de comunicação e, depois, no sentido mais amplo do termo, em sua língua original, o alemão.

Tradicionalmente, a produção de bens foi construída em cima de 3 pilares que são: terra, capital e trabalho. Com o avanço tecnológico, esse conceito mudou. Hoje, os produtos e serviços da economia globalizada são resultado da combinação de conhecimento, fluxo de caixa e mobilidade. Tanto a demanda do consumidor globalizado como a recente legislação do Código Florestal obrigam o produtor a fazer mais, melhor e em menor tempo com sua terra e infraestruturas. A evolução e 0,6 UA/ha da pecuária extrativa da década de 1970 passando pela bovinocultura semi- -tecnificada de hoje, com 1,2 UA/ha e caminhando em direção à produção de carne com índices técnicos de 2 animais por hectare ocorreu em poucas décadas e se intensificará cada vez mais através da substituição do fator terra por soluções “soft”. Nessa transição da visão patrimonial para uma nova cultura empresarial da bovinocultura, a utilização mais inteligente e eficiente dos ativos fixos assume importância crescente.

Dentro desse conceito operacional de melhor usar os recursos, o Brasil encontra-se em uma posição invejável. Nenhum outro país possui o potencial para 3 e até 4 safras anuais. A agropecuária tropical permite em grande parte de sua terra cultivada a sequência de 2 safras de grãos e depois o uso desse mesmo espaço para a engorda bovina. Ou seja, a terra sempre existia, mas, agora, através da combinação inovadora de atividades complementares, consegue-se tirar mais do mesmo.

Sabemos que a integração de lavoura e pecuária com floresta torna muito mais complexo o sistema de gestão. No entanto, aqui entra a perspectiva do Uber. Cada um usa o que tem. O que não tem se busca fora da porteira. Temos com isso o desenho básico para novas parcerias estratégicas, não apenas entre pecuaristas que pretendem compartilhar suas máquinas com o vizinho, mas também entre agricultores e bovinocultores que, cada um em sua especialidade, desenvolverá em conjunto soluções que multiplicarão a eficiência no uso da terra, aliás, cada vez mais cara.

Como o modelo do Uber, caracterizado como “carona remunerada”, cresceu em seis anos de uma ideia de dois turistas para um empreendimento cujas ações hoje valem mais do que dos gigantes da indústria automobilística, algo semelhante já está acontecendo em outro mercado do turismo com o Airbnb que, no mesmo período, juntou um maior número de quartos do que todos os hotéis juntos no mundo. Estamos, assim, perante fenômenos tecnológicos e de mudanças comportamentais dos consumidores que, mais cedo ou mais tarde, terão reflexos também nos modelos de negócio no campo.

Olhando da Varanda, entramos agora na 2ª perspectiva do termo Uber. A palavra é de origem alemã. O termo é agora usado globalmente para descrever algo de novo e superior. Em linguagem do nosso dia a dia do campo, estamos falando do “topo da cabeceira” do universo dos 1,2 milhões de pecuaristas de corte.

Como a Fórmula 1 parece ter pouco a ver com o nosso carro, novos empreendedores da pecuária se destacarão no setor com modelos de negócio que poucos colegas imaginam ser possíveis.

Sempre houve e haverá esses pioneiros fora da curva. Porém, é importante lembrar que são eles, lá na frente, que puxam o resto do rebanho para níveis médios cada vez maiores de produtividade, eficiência econômica e soluções sustentáveis. Os sistemas de freio da F-1 resultaram no ABS que já chegou ao carro popular. O mesmo está ocorrendo na sincronização entre as tecnologias do GPS, dos aplicativos que a Embrapa lançou recentemente sob a sigla Pecuária de Precisão e os drones que permitem, através de sofisticados sistemas administrativos e comerciais, a gestão de fazendas a distância. Trata-se do olho do dono - que agora é substituído pela câmara - que enxerga tudo ao mesmo tempo e se comunica em tempo real com todos os envolvidos no processo.

Uber da pecuária será a denominação da gestão sistêmica, na qual o dono da fazenda não busca mais o domínio pessoal das múltiplas tecnologias e técnicas que caracterizam a produção bovina. O empreendedor do segmento bovino passa a ser “coordenador de uma rede de conhecimento” que ele identifica fora da porteira. A seguir, atua como “facilitador da sua equipe” na fazenda que precisa constantemente incorporar novos conceitos, técnicas e práticas de gestão. Auxiliado pelos assessores das empresas de insumos e dos frigoríficos, o produtor integra-se em programas de fidelidade através dos quais todos os envolvidos da cadeia produtiva buscam a otimização e a realização de múltiplos lucros sistêmicos que se encontram ao longo da cadeia.

Nesse sentido, os participantes desses arranjos produtivos do futuro passam a liderar o setor puxando os indicadores da média de lotação de 1,2 UA/ha ou da produção de 5@/ha/ano para cima. Novos empreendedores entrarão na atividade juntando capital de fundos de investimento com terras de proprietários interessados em fazer parte dos líderes da nova realidade da bovinocultura. Modelos de cooperação entre agricultores e pecuaristas, estratégias de gestão de risco através de contratos de opções da BM&F e, voltando à origem da nossa conversa, sofisticados esquemas de compartilhamento de ativos do tipo Uber compõem uma caixa de ferramentas que transformará o Brasil definitivamente em uma potência global do agronegócio.

Para ganhar dinheiro na pecuária, não precisamos de terra, nem de boi, nem de capital e nem mesmo de conhecimento. O que será preciso mesmo, vamos tentar descobrir em outra reunião em nossa “Na Varanda”, que avaliará os cenários do futuro.


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