Entrevista

 

Para um mundo sem fome

A população mundial atual soma 7 bilhões de pessoas, até 2030 vai superar os 8 bilhões e, em 2050, deverá ultrapassar os 9 bilhões. São muitas bocas para alimentar e o Brasil possui papel protagonista. Quem afirma é Alan Bojanic, representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Em virtude dos números citados, em quanto se terá de aumentar a produção global de alimentos para garantir a segurança alimentar mundial?

Alan Bojanic – A FAO elaborou um estudo há dois anos que comprova a necessidade de elevarmos em pelo menos 60% a produção atual de alimentos. Esse número significa que teremos de produzir milhões de toneladas de grãos, carnes, leite, entre outros nutrientes. São números assustadores para abastecer a demanda futura que se anuncia. Para tanto, precisaremos incorporar novas tecnologias, intensificar a produção e fazer uso de outros alimentos que não estamos consumindo.

Revista AG - Hoje, o Brasil é um dos poucos países com condições de ser o “celeiro do mundo”. Para a FAO, é importante que os pecuaristas brasileiros realmente assumam esse papel?

Alan Bojanic – Um estudo do ano passado realizado pelo FDA e pela FAO revela que, em 2024, o Brasil será o maior exportador de alimentos em todas suas vertentes. Isso porque o País ainda tem terras disponíveis e áreas degradadas que podem ser recuperadas e incorporadas à produção. Outra vantagem brasileira é que países europeus e os Estados Unidos não possuem a capacidade de produção durante o inverno. Aqui são registradas até três colheitas ao ano. Além disso, o Brasil tem um nível muito bom de recursos naturais para fazer isso acontecer. Portanto, não há dúvidas de que essa nação será o celeiro do mundo, sem nenhum exagero.

Revista AG - Porém, se existe essa preocupação, por que os ataques à pecuária brasileira ainda são frequentes?

Alan Bojanic – Temos produtores que estão fazendo as coisas muito bem. O Brasil é modelo quanto ao plantio direto e muitos pecuaristas já estão agregando valor a suas fazendas com a integração lavoura-pecuária-floresta. Não estou falando de pesquisa e sim de dados comprovados que estão sendo aplicados na conservação de solo. Obviamente há produtores que não estão nesse patamar, mas é um desafio que teremos para possuirmos uma agricultura e pecuária sustentáveis em todos os níveis. Então, o desafio que projetamos para 2050 é um desafio que visa estimular todos os produtores a serem sustentáveis, utilizando tecnologias e boas práticas produtivas.

Revista AG - Talvez, falta-nos investir em marketing para que o planeta também conheça aquilo que fazemos de bom?

Alan Bojanic – Sem dúvida! Esse esforço de mostrar as boas práticas que o Brasil tem desenvolvido no agronegócio é uma grande necessidade. Porém, é necessário haver um esforço do País como um todo, não apenas do setor produtivo. A sociedade, a mídia e as pessoas que partipam de eventos técnicos precisam levantar essa bandeira. Portanto, temos muito que fazer para mostrar que o País não possui somente boas práticas de sustentabilidade, mas também está exportando-as para o mundo.

Revista AG - Na sua opinião, quais são os pontos falhos da pecuária brasileira, atualmente?

Alan Bojanic – Os problemas da pecuária brasileira são bem conhecidos na questão do escoamento da produção, a necessidade investir em maquinário, telecomunicações e utilizar as novas tecnologias que já estão sendo aplicadas por alguns pecuaristas. Acho que o grande desafio é como vamos levar aqueles produtores que registram baixa produtividade para um patamar positivo. Há pecuaristas de ponta, que particiestão bem modernizados, mas ainda temos criadores que precisam de assistência técnica para melhorar seus rendimentos de forma amigável com o meio ambiente.

Revista AG - Quais os planos da FAO para o Brasil nos próximos anos?

Alan Bojanic – Nosso papel justamente é ser um facilitador, uma espécie de intermediário do conhecimento. Para fomentar boas práticas de conservação de uma região em outra localidade e até mesmo entre países. Assim, a mobilização da expertise técnica é parte do nosso trabalho. A FAO é uma organização pequena, para nós é muito difícil fazer um trabalho direto com os produtores. Por isso, nós trabalhamos com os ministérios, grandes instituições como a Embrapa e alinhamos nosso conhecimento com essas entidades para que elas passem adiante.

Revista AG - Como as mudanças climáticas impactarão a produção de alimentos no mundo?

Alan Bojanic – Esse é um tema prioritário. Decerto, esses fatores podem colocar em risco uma futura produção de alimentos. Assim sendo, é fundamental trabalhar nas duas frentes que são recomendáveis: a mitigação, correlacionada à emissão dos gases de efeito estufa, reduzindo as emissões do setor, e outra é a adaptação, desenvolvendo tecnologias para ter uma cadeia produtiva resistente contra eventos climáticos.

Um bom exemplo seria a produção de sementes resistentes à seca, uso de bovinos adaptados, rotação de culturas, entre outras condutas que estão no âmbito de adaptações climáticas. A questão do encarecimento do feijão ilustra muito bem essa questão.

Revista AG - O que falta para conseguirmos um acordo global entre os maiores países poluidores?

Alan Bojanic – É importante lembrar que o Acordo de Paris, sucessor do Protocolo de Kyoto, foi assinado por mais de 190 países que assumiram o compromisso de fazer mais pelo meio ambiente. Como vai ser concretizado dependerá de cada nação. Mas já temos um compromisso global com relação à agricultura, sobre procedimentos que precisam ser respeitados. Os países mais ricos têm a obrigação de ajudar os mais pobres a atingir essas metas: os EUA fazem parte disso.

Revista AG - Dizer que um boi polui mais que um automóvel ainda é um argumento válido para conter a emissão de gases de efeito estufa? A Embrapa, entre outras instituições de pesquisa, mostram estudos que comprovam que a história não é bem assim...

Alan Bojanic – Não há dúvidas de que um carro polua mais que um boi. A criação de gado possui diversas técnicas que contribuem na mitigação desses gases. Atualmente, muitos pecuaristas já estão utilizando esses sistemas em suas propriedades. Por isso, é muito mais fácil manejar as questões dos gases provenientes do rebanho bovino do que controlar os gases oriundos dos automóveis, que estão poluindo ininterruptamente.

Revista AG - Reduzir drasticamente o desperdício de alimentos ajuda a reduzir essa conta de emissões de gases?

Alan Bojanic – Temos alguns estudos que revelam que 30% da produção de alimentos vão para o lixo. Obviamente esses alimentos que não são consumidos geram gases do efeito estufa. Eu não sei ao certo a quantidade emitida, mas sei que é uma coisa assustadora. São da ordem de milhões de toneladas.

Revista AG - Como a FAO trabalha para alertar os governantes sobre esse problema?

Alan Bojanic – Muitas vezes esses problemas são conhecidos. Temos os compromissos com os países e o que nós fazemos é justamente aprofundar sobre as questões mais técnicas, elaborando estudos, que, por vezes, são encomendados pelos governantes que buscam comprovar a relação sobre esses problemas. Portanto, esses estudos sempre são dirigidos aos ministérios para que possam tomar suas decisões.

Revista AG - A FAO tem um projeto para recuperação de áreas degradadas na Amazônia. Qual foi a evolução registrada nos últimos anos?

Alan Bojanic – O projeto de cooperação técnica “Pacto para a Redução do Desmatamento” foi adotado pela FAO em 2011, com coordenação a cargo do Ministério do Meio Ambiente, em parceria com a Comissão Europeia e outras instituições e organizações da sociedade civil. Além de contribuir para a redução do desmatamento e das emissões brasileiras de gases do efeito estufa na região amazônica, o projeto contribuiu para a redução do desmatamento, especialmente no município de São Félix do Xingu.

O projeto colaborou para que o município pudesse adotar instrumentos adequados de gestão ambiental e territorial para controlar o desmatamento. Mais de seis milhões de euros foram investidos no projeto. Um dos mecanismos utilizados pelo projeto foi o Cadastro Ambiental Rural. Os dados revelam que, em 2008, a participação de São Félix no desmatamento da Amazônia Legal era de 5,89%; e em 2013, caiu para 3,77%, resultado da implementação do projeto. O compromisso é desmatamento zero até 2030.

Revista AG - Qual a importância da agricultura familiar no agronegócio atual?

Alan Bojanic – A agricultura familiar exerce um papel primordial na segurança alimentar mundial. Os pequenos agricultores são responsáveis por mais de 70% dos alimentos que chegam a nossas mesas todos os dias. É necessário melhorar a estrutura, as rodovias, a rede de armazenamento de grãos, garantir acesso à assistência técnica, entre outros aspectos. Todo o investimento que vai para a agricultura familiar vai ser um investimento de alta rentabilidade em termos de retorno para a segurança alimentar. A FAO acredita que há complementariedade entre agricultura familiar e o agronegócio.

 


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