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Fim da IATF às cegas

Novo procedimento custará, em média, R$ 7,80 a mais. Entretanto, pode gerar ganhos extras de 26%

Luiz Francisco Machado Pfeifer*

Normalmente, os resultados de protocolos de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) em vacas com cria ao pé são uma incógnita, pois dificilmente o veterinário pode afirmar que o protocolo será um sucesso. Mesmo com os cuidados que o técnico deve tomar quando seleciona animais para participar do protocolo, como avaliar a condição corporal e respeitar o tempo mínimo pós-parto para iniciar um novo procedimento, dificilmente podemos prever os índices de fertilidade.

Apesar das boas taxas de concepção que atualmente os protocolos atingem, os resultados ainda são heterogêneos. Entretanto, atualmente, o veterinário já pode estimar o sucesso antes mesmo do diagnóstico de gestação. Essa é uma das vantagens da IATF em blocos, ou IAB, modelo desenvolvido pela Embrapa Rondônia para melhorar os índices de fertilidade da técnica.

O método consiste em examinar todas as vacas do lote sincronizado antes da IA para avaliar a resposta ovariana por ultrassonografia e, a partir dessa avaliação, decidir quando cada fêmea será inseminada. Esse novo método permite aproximar o momento da inseminação com a ovulação da vaca e, consequentemente, aumenta as chances de prenhez.

A necessidade de desenvolver uma forma de aumentar a fertilidade dos protocolos de IATF vem desde o estabelecimento dessa técnica no rebanho brasileiro, principalmente a partir do final da década de 1990. Desde a implantação desse sistema de inseminação, poucos avanços ocorreram no que se refere à fertilidade.

A dificuldade em se obter índice de prenhez maior que 60% pode estar vinculado a diversos fatores, entre eles: o indutor de ovulação utilizado, o momento da aplicação do mesmo, a concentração e a dose de hormônios utilizados, o período de uso do dispositivo de progesterona, o uso de eCG e o diâmetro do folículo dominante (FD) no momento da inseminação (diretamente associado à resposta ovariana) aparentemente são os mais importantes.

Dessa forma, após quatro anos estudando a resposta ovariana de vacas submetidas à IATF, a equipe da Embrapa Rondônia conseguiu chegar a um método que permite estimar o momento da ovulação a partir da resposta ovariana (diâmetro do folículo dominante presente no ovário no momento da IATF) da vaca. A nova técnica já tem sido testada em pelo menos três propriedades parceiras da Embrapa no estado de Rondônia e todos os produtores envolvidos nos testes estão muito contentes com os resultados obtidos até agora.

De forma geral, propriedades que tinham cerca de 50% de prenhez/IA com a IATF convencional, atualmente estão com cerca de 63% de prenhez/IA, o que gera um incremento de 26% de aumento na taxa de prenhez. Em todos os lotes já sincronizados com a IAB, houve sempre melhora de 5 a 23 pontos percentuais em relação ao grupo controle em que a IATF convencional foi realizada. Entretanto, a IAB, pelo menos por enquanto, nos moldes que temos disseminado, deve ser utilizada somente em fêmeas Nelore multíparas e com o protocolo hormonal sugerido pela Embrapa, pois as demais raças criadas no Brasil e as demais categorias animais (novilhas e vacas primíparas) ainda não foram propriamente investigadas.

A IAB é uma técnica que vem ajudar a elevar os índices reprodutivos nos sistemas de cria do Brasil, entretanto, como afirma o pesquisador, a IAB não vai superar de forma compensatória os problemas nutricionais e sanitários, tendo em vista que a resposta das vacas aos protocolos depende diretamente desses fatores. A AIB sempre registrou maior P/IA do que a IATF convencional, entretanto, não atingiu bons índices de prenhez quando o escore corporal das vacas estava ruim.

Não há milagres, a IAB vai funcionar em vacas que tenham uma resposta ovariana adequada. Ainda nesse quesito, a IAB pode apresentar outra vantagem, pois permite não inseminar fêmeas que não tenham resposta ovariana adequada. Dessa forma, apesar de o produtor já ter gasto com os hormônios, ele evita ter mais um gasto desnecessário, com a perda de uma dose de sêmen. Outra vantagem da AIB é que caso o produtor possua sêmen de diferentes preços, ele pode escolher a fêmea que tem melhor resposta ovariana, ou seja, aquela que tem maior chance de emprenhar.

A nova técnica tem investimentos pouco maiores e a diferença real está relacionada à aplicação da ultrassonografia, procedimento ausente na IATF convencional. A IATF em Blocos custará, em média, R$ 7,80 a mais por vaca quando comparada à IATF convencional, o que corresponde ao valor pago ao profissional que fará o exame de ultrassom.

Por requerer a atuação de profissional treinado e que possua equipamento de ultrassonografia, essa nova técnica tem maior alcance para qualquer produtor que já utilize IATF. Considerando, fêmeas Nelore no Brasil, acredita-se que cerca de um milhão de vacas, atualmente, já podem ser inseminadas com a IAB.

Apesar das vantagens, a IAB deve ser implementada em uma propriedade somente quando há condições para que seu manejo diferenciado possa ser realizado. A IAB é uma técnica que foi desenvolvida para ser implantada em propriedades que possuam centro de manejo apropriado. O curral deve conter pelo menos quatro retiros para realização dos apartes e tronco de contenção para avaliação ultrassonográfica das vacas.

Além disso, recomenda-se que a técnica seja aplicada em lotes que não ultrapassem 100 animais por vez, para não comprometer o sucesso da técnica, a qual demanda mais tempo do que a IATF convencional. De acordo com a experiência do avaliador, estima-se que um profissional seja capaz de examinar cerca de 50 vacas por hora, portanto, os exames devem iniciar antes do momento previsto para IATF.

O pesquisador Luiz Pfeifer foi quem inventou a IATF em blocos

Vantagens e limitações

Apesar do aumento considerável na taxa de prenhez que a IATF em Blocos proporciona, apresenta algumas particularidades que o veterinário responsável e o proprietário da fazenda devem estar cientes.

Vantagens

- Permite que as vacas sejam inseminadas em um momento mais adequado, conforme a proximidade da ovulação.

- Aumento da fertilidade.

- Aumento de prenhez por inseminação.

- Permite avaliar a resposta da fêmea antes da IA, prevendo a fertilidade da IATF no lote.

- Possibilita diagnosticar patologias ovarianas e também selecionar ou descartar animais que não responderam ao tratamento de sincronização.

O pesquisador Luiz Pfeifer foi quem inventou a IATF em blocos

Limitações

- É fundamental que a técnica seja realizada por um técnico especializado.

- É necessário que o curral disponha de apartes para separar os animais de acordo com o momento da inseminação.

- Além disso, os piquetes onde permanecerão os animais que serão inseminados no dia seguinte devem ser próximos do curral.

Perspectivas futuras

A IATF em Blocos já pode ser considerada uma técnica pronta para ser implantada em sistemas de produção de bezerros, entretanto, é um processo agropecuário que está em constante aprimoramento. A Embrapa Rondônia continua trabalhando no intuito de esclarecer cada vez mais as razões da infertilidade da fêmea bovina. Se a IATF em Blocos permitiu que cerca de 65% das vacas concebessem com apenas uma IA, ainda temos 35% das fêmeas permanecendo vazias.

Mais estudos devem ser realizados para entender as razões de cada fêmea assim permanecer. Acreditamos que com a evolução dos estudos e do conhecimento, com o consequente desenvolvimento de técnicas poderemos atingir cerca de 75% de taxa de concepção nos próximos cinco anos.

Para saber mais detalhes, aplicações e resultados da IATF em Blocos, a Embrapa Rondônia publicou um comunicado técnico sobre o novo protocolo, disponível no portal da Embrapa Rondônia: www.embrapa.br/rondonia.

*Luiz Pfeifer é pesquisador da Embrapa Rondônia e responsável pelo desenvolvimento da nova técnica de Inseminação em Tempo Fixo em Blocos.

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