Leite

 

Qualidade do LEITE

A redução da contagem de células somáticas é o maior desafio para atender a Instrução Normativa nº 62?

Guilherme Nunes de Souza*

Há aproximadamente 10 anos, mais precisamente em julho de 2005, entrou em vigor a Instrução Normativa nº 51 (IN51) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Com o objetivo de modernizar a legislação brasileira relativa ao leite cru, novos parâmetros ou indicadores de qualidade começaram a fazer parte de um processo de monitoramento contínuo pela Rede Brasileira de Laboratórios de Controle da Qualidade do Leite (RBQL). Um desses novos parâmetros é a contagem de células somáticas (CCS), indicador de saúde da glândula mamária que reflete a situação da mastite subclínica nos rebanhos bovinos leiteiros. O monitoramento da CCS de rebanhos localizados em regiões, estados e países ao longo dos anos permite avaliar a situação atual relacionada à saúde da glândula mamária bem como a tendência de manutenção, melhoria ou pioria em termos de mastite subclínica dos rebanhos com o decorrer dos anos.

Em dezembro de 2011, devido à grande proporção de rebanhos que não atendiam um ou mais indicadores de qualidade do leite estabelecidos na IN51, foi publicada a Instrução Normativa nº 62 (IN62), que estabeleceu novos prazos para atendimento dos limites máximos para CCS e contagem total de bactérias (CTB). No caso da CCS, o limite máximo permitido a partir de julho de 2016 para as Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil será de 400.000 células/mL. Em relação à CCS, desde a vigência da IN51, deveríamos fazer duas perguntas que, para podermos ter um pouco mais de condição de refletir e responder, seria interessante observarmos uma série temporal de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL em países com pecuária leiteira desenvolvida e no Brasil.

A primeira pergunta seria, desde a vigência da IN51, qual tendência do percentual de rebanhos que não atendem o limite de 400.000 células/ mL? A segunda pergunta seria em quanto tempo reduziremos pela metade o percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/ mL? Para tentarmos fazer uma reflexão sobre essas perguntas e respondê-las, vamos analisar uma série histórica de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/ mL localizados nos Estados Unidos e na Região Sudeste do Brasil.

As informações sobre o percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL nos Estados Unidos no período de 1995 a 2013 foram obtidas do documento “Somatic cell counts of milk from Dairy Herd Improvement herds during 2013”, disponível em <https:// www.cdcb.us/publish/dhi/dhi14/ sccrpt.htm>. No Brasil, foram usadas informações de aproximadamente 17 mil rebanhos localizados nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que tiveram suas amostras de leite analisadas na Embrapa Gado de Leite no período de 2006 a 2014. A informação sobre o percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL está apresentada na Tabela 1. Para avaliar a série temporal, que permite avaliar tendências, do percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/ mL, foi aplicado um modelo de regressão linear para os dados de rebanhos leiteiros dos Estados Unidos e do Brasil.

Observa-se nos dados anuais dos Estados Unidos que ao longo de 19 anos houve uma redução de 27,2 para 11,6% de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/ mL, ou seja, uma redução de 15,6 pontos percentuais. O modelo de regressão linear, bem como o coeficiente de regressão, foi significativo estatisticamente e verificou-se uma linha de tendência no sentido de redução do percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL ao longo dos anos. Em contrapartida, no período de 2006 a 2014, no Brasil, não se verificou redução nem aumento do percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células. Observou-se uma variação de aproximadamente 50 a 60% de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL no período de 9 anos. O modelo de regressão linear, bem como o coeficiente de regressão, não foi estatisticamente significativo, o que sugere a manutenção dos percentuais entre 50 e 60% de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL.

Contagem de células sómaticas é um dos pontos críticos para alcançar qualidade

Com base nos dados anteriormente mencionados, há mais condição de refletir e responder as duas perguntas feitas anteriormente. A resposta para a primeira pergunta seria: “Para os rebanhos localizados na Região Sudeste do Brasil que tiveram suas amostras de leite analisadas no presente estudo, o percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/ mL manteve-se entre 50 a 60% no período de 2006 a 2014”. Para a resposta da segunda pergunta, com base nos dados dos Estados Unidos, em que foi verificada uma redução de 15,6 pontos percentuais de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/ mL ao longo de 19 anos, seria: “Para julho de 2016, na população de rebanhos bovinos de leite localizados na Região Sudeste do Brasil e analisada no presente estudo, o percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL continuará entre 50 a 60%. Se considerarmos que nos Estados Unidos foram necessários aproximadamente 17 anos, de 1995 a 2011, para reduzir pela metade o percentual de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL, se no Brasil adotarmos as mesmas medidas de controle e prevenção da mastite em nível de região e de rebanho, respeitando as diferenças culturais, de infraestrutura, de assistência técnica e extensão rural e outras diferenças, levaremos então 15 anos para reduzirmos de 50 a 60% de rebanhos com CCS superior a 400.000 células/mL para 25 a 30%. Ainda assim, depois de 15 anos, teríamos o incomodo percentual de aproximadamente um terço de rebanhos que não atenderiam os limites máximos para a CCS.

Com base nos resultados das análises apresentadas, novas reflexões e perguntas deverão ser formuladas, como, por exemplo: Será que a situação da CCS de rebanhos localizados nas Regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil apresentam a mesma situação que os rebanhos da Região Sudeste avaliados no presente estudo? Temos no Brasil profissionais em número suficiente para trabalhar nessa vertente, ou seja, em programas de controle e prevenção da mastite em nível de rebanho e de região, que levam em consideração as características epidemiológicas específicas dos principais patógenos da mastite? Em quanto tempo reduziremos para a metade o percentual de rebanhos que não atendem o limite máximo de CCS? O que será feito com os rebanhos que não atendem os limites da IN62 nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul a partir de julho de 2016? Existe uma política pública e/ou privada direcionada para o problema da CCS dos rebanhos brasileiros? E finalmente, a redução da CCS é o maior desafio para atender a Instrução Normativa nº 62?

Portanto, percebe-se que o desafio é grande e que o trabalho precisa ser em conjunto, o desafio é do setor e não somente do produtor, da indústria ou do governo. Instituições públicas e privadas, profissionais autônomos, extensão rural, institutos de pesquisa, universidades, laboratórios de diagnóstico e de produtos veterinários, associação de produtores, cooperativas, indústrias de laticínios e todos os elos do setor devem discutir a situação da mastite no Brasil, bem como controlá-la e preveni-la de forma rápida e eficiente. Caso contrário, há indícios que a situação relacionada à saúde da glândula mamária em nível de região continuará a ser um dos maiores desafios da pecuária leiteira do Brasil por mais “alguns” anos.


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