Sustentabilidade

 

Uma visão de dimensões integradas

Júlio Barcellos e Tamara E. Oliveira*

A proposição do termo Desenvolvimento Sustentável, em 1987, no relatório Our Common Future, foi complementada pelo estabelecimento dos três pilares desse conceito: desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e proteção ambiental; presentes desde a conferência da ONU Rio-92, e oficialmente adicionados em 2010. Posteriormente, foi enfatizada a importância dos fatores eficiência e competitividade nessa discussão e a sustentabilidade passou a ser parte integrante da identidade de boa parte das empresas, mas a efetividade das ações de adaptação dos processos de produção a esses conceitos não parece ter avançado com a mesma intensidade.

Nesse contexto, as inter-relações entre o crescimento populacional e a produção de alimentos têm sido um tema latente para os economistas desde tempos remotos, assim como os impactos da intensificação da produção têm movimentado organizações e instituições ambientais. Essas preocupações evoluíram consideravelmente desde Thomas Malthus (1826) e seu controle populacional, passando pelas considerações de Ester Boserup (1965). Segundo Boserup, a necessidade é a mãe da invenção e, portanto, da inovação e das tecnologias capazes de aumentar a oferta de alimentos para atender à população emergente, otimizando o uso dos recursos naturais.

Essas preocupações e esses anseios são discutidos com furor e debatidos com dualidade marcante entre o setor produtivo e os ambientalistas, mas algumas propostas estão sendo desenvolvidas na intersecção desses posicionamentos e apresentam um equilíbrio de intenções capaz de fundamentar a estruturação futura de uma produção de alimentos sustentável. As propostas centradas na sustentabilidade da produção animal devem ser capazes de enfrentar sérios desafios frente ao aumento da população, à crescente urbanização e às mudanças climáticas. Para a pecuária de corte brasileira, os últimos anos têm sido marcados por um aumento da produção, sobretudo nas regiões Centro- Oeste e Norte do País. Entretanto, essas áreas são de visibilidade e de valorização internacional, o que aumentou as pressões sobre a expansão da produção de alimentos.

Dentro desse contexto, diversos caminhos estão sendo discutidos pelas instituições de pesquisa e organizações mundiais, que propõem a diminuição do uso dos alimentos que podem ser aproveitados na alimentação humana para a alimentação de animais; mais integração e eficiência das cadeias de produção e a remuneração dos serviços ambientais. Ressalta-se ainda a importância da inclusão da rentabilidade e da produtividade como base para essas propostas, para dar continuidade às ações e engajar os produtores rurais. Além desses direcionadores, questões como o bem-estar animal, o respeito às leis trabalhistas e aos princípios de alimento seguro serão a base para projetos e adaptações futuras da produção de animais. Algumas questões de maior influência no futuro dessa discussão são aprofundadas a seguir.

Os novos olhos da sociedade percebem os animais de produção de forma muito diferente, em que bovinos e ovinos, passam a ser considerados como animais de companhia. Esse novo posicionamento da sociedade tem influência direta nas estratégias de produção e nas relações com o ambiente. Nessa discussão, propõe-se a integração dos status físico, mental e natural dos animais para alcançar princípios harmônicos do bem-estar, em que se busca a manutenção de forma mais próxima ao natural. A questão do bem-estar agora é considerada muito mais ampla, e passa a contemplar, por exemplo, a resistência dos parasitas dos animais de produção aos defensivos, que é um assunto de sustentabilidade.

Júlio Barcellos aponta que os novos olhos da sociedade percebem os animais de produção como de companhia

A eficiência do uso da terra para a produção de alimentos associada à conservação da biodiversidade também integra essa discussão. Apesar de aves e suínos serem mais eficientes na conversão de alimentos em proteína para o homem, demandam grandes áreas de produção de grãos para sua alimentação. Por outro lado, áreas de pastagem com potencial para a produção de ruminantes e que não podem ser utilizadas diretamente para alimentação humana estão sendo convertidas para a agricultura. Nesses casos, com ruminantes alimentados apenas com forragens, especialmente em regiões com pastagens nativas, esses impactos ambientais seriam minimizados. Outras propostas para a alimentação animal envolvem o uso de algas, de novas espécies forrageiras e de subprodutos não convencionais.

Outras preocupações incluem a vulnerabilidade das raças e das culturas às variações climáticas e às condições de cada região. Nesse caso, as instituições de pesquisa e as organizações investem em avanços no melhoramento genético para a eficiência dos animais. Animais adaptados ao ambiente beneficiam tanto o ambiente quanto o bem-estar dos animais, que produzem mais com menor uso dos recursos naturais. A gestão dos recursos naturais engloba também estratégias de distribuição da água em grandes propriedades, melhorando o uso das pastagens e evitando a concentrações em locais de pastejo e a proliferação de plantas invasoras. Além disso, as gestões dos dejetos e da compactação do solo em sistemas intensivos fazem parte das boas práticas da pecuária de corte relacionadas à sustentabilidade da produção.

A questão social é indissociável dessa discussão, pois os seres humanos estão diretamente relacionados à produção animal, desde a rotina de manejo na fazenda até os consumidores finais, que dependem dessa fonte proteica para sua saúde e para a manutenção de sua força de trabalho e consequente geração de renda. Para tanto, devem ser respeitadas as leis trabalhistas, e a capacitação e vocação dos colaboradores rurais que convivem com os animais. Ao final da cadeia de produção, a garantia de proteína a preços justos para a população, também passa diretamente pelo aumento da eficiência da produção em algumas regiões do mundo, além da diminuição do desperdício.

Para a concretização dessas estratégias, é necessária a participação efetiva de profissionais capacitados como suporte técnico à produção, pois envolve três saúdes – a animal, a humana e a do ambiente, além da saúde econômica do sistema de produção, da sociedade e das regiões. Cabe salientar que a sustentabilidade deixou de ser focada apenas na solução de problemas ecológicos, relativos ao desenvolvimento rural e a questões sociais. Hoje, ela faz parte da pauta mundial de discussões para a viabilidade de diversos setores de produção e propostas governamentais. Portanto, são necessários grupos e discussões que adaptem essa grande problemática ao contexto local, para viabilizar soluções práticas e interdisciplinares para a questão.

* Júlio Barcellos e Tamara são médicos-veterinários e doutores – Nespro/UFRGS julio.barcellos@ufrgs.br


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