Na Varanda

A espiral do tempo Um novo paradigma da Pecuária

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira
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Estamos acostumados a pensar de forma linear. O modelo de sucesso tem sido: fazer a cada ano um pouco melhor aquilo que tem dado certo no passado. Essa maneira de produzir funcionou bem enquanto houve um razoável equilíbrio entre o aumento das necessidades (demanda) e a modernização tecnológica e dos processos (oferta). Contudo, os tempos mudaram. Como reclamamos a cada final de ano: o tempo passa mais depressa. Naturalmente, trata-se de uma ilusão, pois o tempo mantém seu ritmo cósmico desde que os homens começaram a contar os anos, dias e horas.

O que nos dá a sensação de que tudo anda mais depressa é a avalanche diária de coisas novas. Novas ieéias, novos produtos, novos mercados e novas soluções para fazer tudo melhor, com menor custo e mais rápido. Essa sensação sugere substituir a nossa tradicional metáfora do “Túnel do Tempo” pela imagem da “Espiral do Tempo”. Com as inovações da 4ª Revolução Industrial e, nomeadamente, com a nova realidade da “Internet das coisas”, temos mais opções em menor tempo e muitas delas a custo quase zero.

Podemos argumentar que a aceleração tecnológica é muito desafiadora, porém, não vai poder mudar tudo. Afinal, a vaca dificilmente terá mais de um bezerro por ano! Apesar de esse argumento ser válido, temos de admitir que mesmo nesse quesito predefinido pela mãe natureza teremos avanços respeitáveis, pois nem toda vaca brasileira produz ainda 1 bezerro por ano. Já incorporamos tecnologias no tratamento do solo, na diversificação de pastagens, na ampliação das opções de nutrição e suplementação. E dos avanços no confinamento e no manejo racional nem precisamos falar.

Ocorre, então, a chamada mudança de paradigma do “Túnel” para a “Espiral” do tempo. Existe no volume e na velocidade de desafios e soluções novos que se multiplicam exponencialmente a cada ano. Todos os produtos e processos são cada vez mais complexos e tudo isso ocorre em uma dinâmica crescente e interconectada. Ou seja, com a nossa limitada capacidade de percepção e processamento de novidades ficaremos atrás do progresso tecnológico, se não mudarmos nossa forma de receber e filtrar informações e transformá-las em decisões mais contextualizadas.

A pecuária que (felizmente) apresenta um ritmo um pouco menos feroz de mudanças contínuas passa lentamente “do braço para os dedos”. Como já ocorreu na inversão da lógica da cadeia da carne que começou com a visão “do pasto para o prato” e é hoje organizada no sentido inverso “do prato para o pasto”, algo semelhante observamos no sistema de gestão do processo de produção da carne bovina. Antigamente, uma sólida estrutura de comando e muitos braços fortes e motivados organizaram o manejo de rebanhos em cima de pastagens exploradas em sistema extensivo. Com sal, vacina e a presença do olho do dono, o sucesso da pecuária estava garantido. Assim, foram acumuladas reservas que, juntamente com generosos financiamentos dos bancos públicos nos anos 1980 ajudaram a constituir os contornos da propriedade pecuária que encontramos agora nas diversas regiões do País.

Hoje, o pasto virou agricultura, o boi passou a ser resultado da otimização de fatores como genética, nutrição e sanidade; e o confinamento não é outra coisa do que uma verdadeira indústria de engorda. Máquinas sofisticadas no pasto, no confinamento e no curral exigem mais capacidade mental do que força de braço. Consequentemente, equipamentos caros e sofisticados como colheitadeiras com valor bem acima de 1 milhão de reais estão sendo pilotadas por mulheres, cujos dedos habilmente guiam as funções via GPS. Além disso, aumentou de forma significativa o impacto de forças de fora da porteira. A necessidade de adaptar as estruturas e os processos a novas legislações (ambientais e trabalhistas), ao crescimento da influência de exigências dos consumidores (qualidade, sanidade, padronização, certificação), bem como a nova realidade na qual o antigo dono está sendo gradativamente substituído por um conjunto dos sócios-herdeiros com métodos de governança mais sofisticados obrigam o responsável pela gestão pecuária a repensar o modo de conduzir seu negócio.

A metáfora da Espiral que expressa bem a combinação de maior complexidade de todos os aspectos da bovinocultura com a aceleração do tempo poderá servir como norte para a mudança da gestão hierárquica do passado para a gestão compartilhada entre os sócios, com a equipe no campo e com os parceiros da cadeia da carne antes e depois da porteira. Devemos lembrar como o surgimento da televisão mudou a vida das pessoas na época do rádio e como o smartphone está ameaçando a existência do “velho computador” (de apenas 35 anos, ou seja, apenas uma geração humana). Tudo continuará a mudar o tempo todo, e cada vez mais profunda e rapidamente. Quem se preparar estará na dianteira do setor.