Entrevista

 

2024 Marque essa data!

Como estará o mercado mundial de carnes daqui a oito anos? Essa previsão foi mérito de Osler Desouzart, proprietário da OD Consulting. Sempre muito próximo à FAO, ele traz um desenho muito interessante das possibilidades. Acompanhe a seguir.

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Você fez um ensaio muito interessante para mostrar como será o mercado da carne bovina em 2024. Qual foi o estímulo para esse trabalho?
Osler Desouzart –
Essencialmente, o planejamento estratégico é um dos principais serviços procurados. Cenários quantificados são essenciais para a atividade pecuária.

Revista AG - Quais foram os critérios utilizados para se chegar aos números apresentados?
Osler Desouzart –
Tenho a honra de cooperar com a FAO e uso regularmente as projeções do Food Outlook. Não se trata de bola de cristal, mas simplesmente de dispor de dados históricos e projetá-los com fórmulas disponíveis em vários programas de computador, inclusive o Excel. Em seguida, há de se fazer um exame crítico dos números projetados, já que o computador calcula fórmulas e não o que está se passando em cada país (situação sanitária, secas ou excesso de chuvas, proibições sanitárias ou políticas ao comércio, situação econômica de cada país e inúmeros outros fatores). Em seguida, cumpre comparar os números com outras fontes que tratam do mesmo tema como Usda, Europa, OECD, Fapri e outros databank. Quando se notam discrepâncias acentuadas, estuda-se mais e consultam-se colegas em outros países.

Revista AG - Realmente, há chance de, pela primeira vez, as vendas dos cortes cárneos de bovinos superarem as dos de suínos? Qual é panorama atual?
Osler Desouzart –
Creio que não. Acho que não fui compreendido. O índice médio de crescimento da carne bovina é que será maior que o da carne suína. Índice percentual não significa kg per capita. Em países de riqueza de rebanhos bovinos, o consumo de carne bovina supera a de suínos, mas mundialmente ocorre o contrário. Na minha visão, a carne bovina (músculos) tende a ficar cada vez mais cara, o que não é um problema, já que 14% da população mundial (1 bilhão de pessoas) gastam menos do que 20% de seu orçamento para comer e se possuir uma renda superior a US$ 75,00 por dia podem comer o que querem, independentemente de preço. Enquanto isso, em 2012, 13% da população mundial vivia com menos de US$ 2,00 por dia, ou seja, cerca de 1 bilhão de pessoas. Há, portanto, 5 bilhões de pessoas sobre o planeta cujo comportamento de consumo, escolha de tipo de carne, frequência de ingestão, etc., dependem de fatores como renda e acessibilidade que o poder de compra permite.

Revista AG - E quais seriam os fatores que vão motivar o crescimento do índice médio anual de produção?
Osler Desouzart –
O maior produtor de carne suína do planeta, a China, tem enfrentado problemas na produção e há outros fatores de redução de crescimento de produção, como na UE, que afetam o índice médio de crescimento da carne suína.

Revista AG - A taxa de crescimento da produção de carne suína será a menor quando comparada com as das últimas quatro décadas?
Osler Desouzart –
Tenho um amigo pesquisador nos Estados Unidos que diz que a resposta para todas as perguntas é a China. Por que as commodities não alimentares baixam? China! Por que se prevê uma desaceleração do crescimento econômico mundial? China! Por que ...? China! Nesse caso, também parte da resposta é China, nem sempre muito generosa nas comunicações imediatas de episódios sanitários, mas também os episódios de Diarreia Epidêmica Suína (PED) nos Estados Unidos e de Febre Suína Africana na Europa diminuíram a disponibilidade de animais em 2014, tendo como consequência um aumento considerável dos preços naquele ano, beneficiando inclusive a suinocultura brasileira.

Revista AG - Mas seria possível esperar que os preços percam sustentação?
Osler Desouzart –
Eventualmente, o recrudescimento dos episódios sanitários, sobretudo de PED, poderá fazer com que os patamares mágicos de preços de 2014 percam algo de sustentação. A reposição dos rebanhos bovinos nos principais centros produtores não está concluída, o que garantirá que os preços da carne bovina se mantenham elevados, o que favorece a demanda para as carnes suínas e de aves. A disponibilidade de carne bovina fica ainda comprometida pela demanda ascendente dos mercados asiáticos. Aqueles que já assistiram algumas de minhas conferências ou que leram um de meus artigos estão familiarizados no assunto.

Revista AG - Entretanto, o frango continua reinando no futuro?
Osler Desouzart –
A carne de aves é a mais eficiente em termos de utilização de recursos naturais para sua produção. Há uma progressiva escassez de recursos naturais finitos, principalmente terra arável e água, disputados na produção de alimentos específicos, combustíveis e proteínas animais, o famoso feed, food, fuel. A espécie bovina com conversão de 5,5 kg, 15.977 litros de água por quilo e 18 a 30 meses para alcançar o peso de abate dificilmente poderá competir com as espécies mais eficientes, normalmente aves (1,7 kg , 2.828 litros d’água e 38 dias para abate) e aquicultura. As razões do crescimento das carnes de aves no mundo não é “preço” como muitos pensam.

Revista AG - Então, teria ainda muitas outras questões por trás do sucesso do frango?
Osler Desouzart –
Em 2012, havia produção avícola em 206 de 212 países e territórios que registraram produção de qualquer tipo de carne. Frango é acessível, disponível, fácil de achar, conveniente, versátil para o consumidor preparar, podendo ser cozido em miríades de formas e seu sabor é universalmente aceito. Frango não sofre nenhuma restrição religiosa para seu consumo e é considerada uma carne saudável e de baixo nível de gordura. Mais produtos de frango foram lançados desde a década de 1990 do que de todas as outras carnes juntas. Essa inovação constante processa seu consumo viável várias vezes por semana, sem monotonia. Finalmente, as aves, principalmente o frango, requerem menos recursos naturais em sua produção do que todas as demais espécies animais terrestres.

Revista AG - Na sua projeção, no que se refere à produção, a Ásia supera os países latino-americanos?
Osler Desouzart –
O crescimento demográfico é maior, o contingente populacional é maior, as perspectivas de crescimento da renda per capita é maior. Tudo na Ásia é maior e com a vantagem que comem menos carnes que na América Latina.

Revista AG - Hoje, o Brasil luta pela liderança das exportações mundiais. Em 2024, o veremos no topo do ranking ou a tendência mostra outros caminhos?
Osler Desouzart –
O Brasil ainda guardará a posição de figurar entre os três maiores exportadores mundiais. Seguirá sendo impossível configurar uma equação de abastecimento de carnes no mercado internacional sem considerar o Brasil e os Estados Unidos que juntos liderarão as exportações mundiais.

Revista AG - No tocante ao fornecimento de carne “Premium”, gourmet, o Brasil melhoraria a colocação no quesito “faturamento”?
Osler Desouzart –
Sim, mas resta saber em qual volume, para saber se é um cardápio principal ou simples complemento.

Revista AG - Pelo que percebemos, nem sempre o maior produtor consegue abastecer integralmente seu mercado interno? Quais são os números mostrados a essa realidade?
Osler Desouzart –
Não se trata disso, mas de preferências do consumidor. Veja o caso dos Estados Unidos, que é uma potência produtora, exportadora, importadora e consumidora de carne bovina. Esse é o melhor dos mundos, onde se exporta o que o consumidor não tem preferência, importa o que ele deseja e assim se promove tanto um maior consumo quanto uma solidez do segmento. Veja também o caso do Brasil. Como só há uma picanha por boi, estamos importando esse corte dos vizinhos, assim com os deliciosos bifes de chorizo e outros cortes famosos e gostosos produzidos em outros países. Só a ampla gama de produtos de qualidade fideliza e aumenta o consumo daqueles consumidores que gastam menos que 20% do orçamento doméstico para comer. Progresso não se faz com restrições, mas com a ampliação de opções.

Revista AG - E de quanto será o crescimento da produção e do consumo mundiais de carne bovina?
Osler Desouzart –
A produção mundial de carne bovina vai saltar de 67.984.000 para 75.391.000 toneladas. O consumo hoje beira 66.704.000 e poderá atingir 74.863.000 toneladas, reforçando que existe a proximidade entre produção e consumo.

Revista AG - Em relação aos compradores dessa carne, quem serão os grandes importadores de carne bovina em 2024?
Osler Desouzart –
Serão Estados Unidos, Rússia, Japão, Vietnã, Egito, Coreia do Sul, China, entre outros mais.

Revista AG - Chama a atenção o crescimento exponencial das importações do Vietnã nos últimos dez anos. Perderá apenas para a China na sua projeção?
Osler Desouzart –
Os países asiáticos em geral são a bola da vez. Parte do que o Vietnã importa é reexportado para a China pelo comércio de formigas, assim como uma boa parcela das importações de Hong Kong.

Revista AG - Em resumo, os holofotes estarão direcionados para quais países daqui a oito anos?
Osler Desouzart –
Não se pode fazer análise branco e preto. O sucesso está em perceber os tons de cinza. Acompanhar os principais mercados é o dever de todos os operadores, analistas e consultores, principalmente quando espertos e “expertos”.


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